Percy e os Olimpianos II

Mar de Monstros


Marcador 1
O modo como ele disse meu nome me deu um frio na espinha. Ningum me chamava de Perseu, a no
ser aqueles que conheciam minha verdadeira identidade. Amigos... e inimigos. 
O ano de Percy Jackson foi surpreendente calmo. Nenhum monstro que colocasse os ps no campus de 
sua escola, nenhum acidente esquisito, nenhuma briga em sala de aula. Mas quando um inocente jogo de 
queimado entre ele e seus colegas torna-se uma disputa mortal contra uma tenebrosa gangue de gigantes 
canibais, as coisas ficam, digamos, feias. E a inesperada chegada de sua amiga Annabeth traz outras ms 
noticias: as fronteiras mgicas que protegem o Acampamento Meio-Sangue foram envenenadas por um 
inimigo misterioso, o nico porto seguro dos semideuses ser destrudo. 
Nesta vibrante e divertidssima continuao da serie iniciada com O Ladro de Raios, Percy e seus amigos 
precisam se aventurar no Mar de Monstros para salvar o acampamento dos meios-sangues. Antes, porm, 
nosso heri entrar em confronto com um mistrio atordoante sobre sua famlia  algo que o far 
questionar se ser filho de Poseidon  uma honra ou uma terrvel maldio. 
Marcador 2 
Rick Riordan nasceu em 1964, em San Antonio, Texas, Estados Unidos, onde mora com a mulher e dois 
filhos. Durante quinze anos ensinou ingls e histria em escolas pblicas e particulares do So Francisco. 
Alm da srie Percy Jackson e os olimpianos, publicou a premiada srie de mistrio para adultos Tres 
Navarre. 
Para Patrick John Riordan, o melhor contador de histrias da famlia. 
SUMRIO 
UM - Meu melhor amigo vai comprar um vestido de noiva. 
DOIS - Meu jogo de queimado com canibais. 
TRS - Ns chamamos o txi da tormenta eterna. 
QUATRO - Tyson brinca com fogo. 
CINCO - meu novo companheiro de chal. 
SEIS - O ataque dos pombos demonacos. 
SETE - Eu aceito presentes de um estranho. 
OITO - Ns embarcamos no Princesa Andrmeda. 
NOVE - Minha pior reunio de famlia de todos os tempos. 
DEZ - Pegamos uma carona com confederados mortos. 
ONZE - Clarisse detona tudo. 
DOZE - Nossa estadia no SPA & Resort de C. C. 
TREZE - Annabeth tenta ir nadando para casa. 
QUATORZE - Nosso encontro com o carneiro da perdio. 
QUINZE - Ningum consegue o Velocino. 
DEZESSEIS - Eu afundo com o navio. 
DEZESSETE - Uma surpresa nos aguarda em Miami beach. 
DEZOITO - A invaso dos pneis de festa. 
DEZENOVE - Corrida de carruagens termina com uma exploso. 
VINTE - A magia do Velocino  boa at demais. 


#
UM - Meu melhor amigo vai comprar um vestido de noiva 
Meu pesadelo comeou assim. 
Eu estava numa rua deserta em alguma cidadezinha  beira-mar, no meio da noite. Havia uma 
tempestade. O vento e a chuva aoitavam as palmeiras ao longo da calada. Edifcios de estuque cor-de-
rosa e amarelo se enfileiravam na rua, as janelas fechadas com tbuas. A um quarteiro dali, depois de 
uma carreira de hibiscos, o mar estava revolto. 
Flrida, pensei. Embora no tivesse certeza de como sabia isso. Eu nunca estivera na Flrida. 
Ento ouvi cascos chapinhando no calamento. Virei e vi meu amigo Grover correndo para salvar sua 
vida. 
Sim, eu disse cascos. 
Grover  um stiro. Da cintura para cima, parece um adolescente comum e desengonado, com uma 
barbicha igual a penugem de pssego e um problema srio de acne. Ele caminha mancando de um jeito 
estranho, mas, a no ser que voc por acaso o pegue sem cala (coisa que no recomendo), jamais 
saber que existe algo de no humano nele. Jeans folgados e ps falsos disfaram o fato de que ele tem 
cascos e um traseiro peludo. 
Grover foi meu melhor amigo na sexta srie. Junto com uma menina chamada Annabeth, tinha me 
acompanhado naquela aventura para salvar o mundo, mas eu no o via desde o ltimo ms de julho, 
quando ele partira sozinho em uma perigosa misso - uma misso da qual nenhum stiro jamais voltara. 
De qualquer modo, em meu sonho, Grover corria, segurando seus sapatos humanos nas mos como 
costuma fazer quando precisa se mover depressa. Passou batendo os cascos pelas pequenas lojas de 
suvenir e de aluguel de pranchas de surfe. O vento dobrava as palmeiras quase at o cho. 
Grover estava aterrorizado com algo que vinha atrs dele. Devia ter acabado de vir da praia. A areia 
molhada se prendia em torres ao seu pelo. Tinha escapado de algum lugar. Estava tentando fugir de... 
alguma coisa. 
Um rugido de fazer os ossos tremerem atravessou a tempestade. Atrs de Grover, do outro lado do 
quarteiro, surgiu uma figura sombria. Ela derrubou um poste de iluminao com um golpe violento. A 
lmpada explodiu em um milho de fagulhas. 
Grover cambaleou, choramingando de medo. Murmurou para si mesmo: "Preciso escapar. Preciso avis-
los!" 
No pude ver o que o perseguia, mas ouvi a coisa resmungando e praguejando. O cho estremeceu 
quando ela se aproximou. Grover se lanou em uma esquina e vacilou. Tinha entrado em um ptio sem 
sada cheio de lojas. No havia tempo para voltar. A porta mais prxima fora arrombada pela tempestade. 
A placa acima da vitrine escura dizia: BUTIQUE NUPCIAL DE STO. AGOSTINHO. 
Grover disparou para dentro. Mergulhou atrs de uma arara cheia de vestidos de noiva. 
A sombra do monstro passou na frente da loja. Pude sentir o cheiro da coisa - uma combinao nauseante 
de l de carneiro molhada, carne podre e aquele esquisitssimo odor corporal azedo que s os monstros 
tm, como o de um gamb que comesse apenas comida mexicana. 
Grover tremia atrs dos vestidos de noiva. A sombra do monstro seguiu em frente. 
Silncio, a no ser pela chuva. Grover respirou fundo. Talvez a coisa tivesse ido embora. 


#
Ento houve um claro de relmpago. Toda a fachada da loja explodiu, e uma voz monstruosa berrou: 
"MEEEEEEU!" 
***** 
Sentei-me na cama, ereto e tremendo. 
No havia tempestade. No havia monstro. 
O sol da manh atravessava a janela do meu quarto. 
Pensei ter visto uma sombra se movendo rapidamente pelo vidro - uma forma humana. Mas ento ouvi 
uma batida na porta do quarto - minha me chamou: 
- Percy, voc vai se atrasar. 
E a sombra na janela desapareceu. 
Talvez tivesse sido minha imaginao. Uma janela no quinto andar, com uma escada de incndio velha e 
instvel do lado de fora... No poderia haver ningum l. 
- Venha, querido - minha me chamou de novo. -  o ltimo dia de aula. Voc deve estar empolgado! Est 
quase no fim! 
- Estou indo - consegui dizer. 
Apalpei embaixo do travesseiro. Meus dedos se fecharam de modo tranqilizador em volta da caneta 
esferogrfica com a qual sempre dormia. Tirei-a de l e estudei o que estava gravado na lateral, em grego 
antigo: Anaklusmos. Contracorrente. 
Pensei em destamp-la, mas algo me conteve. Eu no usava Contracorrente havia tanto tempo... 
Alm disso, minha me me fizera prometer que no usaria armas letais no apartamento depois que eu 
lanara um dardo de mau jeito e atingira seu armrio de porcelanas. Pus Anaklusmos sobre a mesa-de-
cabeceira e me arrastei para fora da cama. 
Eu me vesti o mais depressa que pude. Tentei no pensar no pesadelo, nem em monstros, nem na 
sombra  minha janela. 
Preciso escapar. Preciso avis-los! 
O que Grover queria dizer? 
Fiz uma garra de trs dedos por cima do meu corao e puxei para fora - um antigo gesto que Grover me 
ensinara certa vez, para expulsar o mal. 
O sonho no podia ter sido real. 
ltimo dia de aula. Minha me estava certa, eu devia estar empolgado. Pela primeira vez na minha vida eu 
praticamente terminara um ano sem ser expulso. Nenhum acidente esquisito. Nenhuma briga em sala de 
aula. Nenhum professor se transformando em monstro e tentando me matar com comida de cantina 
envenenada ou dever de casa que explodia. No dia seguinte eu estaria a caminho do meu lugar favorito 
em todo o mundo - o Acampamento Meio-Sangue. 
S faltava um dia. Certamente, nem eu conseguiria estragar tudo. 
Como de costume, eu no tinha idia de como estava errado. 

#
 Minha me fez waffles azuis com ovos azuis para o caf-da-manh. Isso faz dela uma pessoa engraada, 
comemorar ocasies especiais com comida azul. Acho que  o jeito dela de dizer que tudo  possvel. 
Percy pode terminar a stima srie. Waffles podem ser azuis. Pequenos milagres assim. 
Comi  mesa da cozinha enquanto minha me lavava a loua. Ela estava usando seu uniforme de trabalho 
- saia azul estrelada e blusa listrada de vermelho e branco, que vestia para vender doces na confeitaria 
Doce Amrica. Seus cabelos castanhos e compridos estavam presos em um rabo-de-cavalo. 
Os waffles estavam uma delcia, mas acho que eu no os devorava como de costume. Minha me deu 
uma olhada e franziu a testa. 
- Percy, voc est bem? 
- Sim... estou timo. 
Mas ela sempre percebia quando algo me incomodava. Enxugou as mos e sentou-se na minha frente. 
- Escola ou... 
No precisava completar. Eu sabia o que ela estava perguntando. 
- Acho que Grover est com problemas - falei, e contei a ela o sonho. 
Ela contraiu os lbios. No falamos muito sobre a outra parte da minha vida. Tentamos viver do modo 
mais normal possvel, mas minha me sabia tudo sobre Grover. 
- Eu no me preocuparia tanto, querido - disse ela. - Grover j  um stiro crescido. Se houvesse um 
problema, estou certa de que teramos notcias do... do acampamento... - Os ombros dela ficaram tensos 
quando ela falou a palavra acampamento. 
- O que foi? - perguntei. 
- Nada - disse ela. - Quer saber? Esta tarde vamos comemorar o fim das aulas. Vou levar voc e Tyson 
para o Rockefeller Center... para aquela loja de skates de que voc gosta. 
Cara, aquilo era tentador. Estamos sempre batalhando por dinheiro. Entre as aulas da minha me  noite 
e a mensalidade da minha escola particular, nunca podamos nos permitir coisas especiais, como comprar 
um skate. Mas algo na voz dela me incomodou. 
- Espere a - falei. - Pensei que hoje  noite fssemos arrumar minhas coisas para o acampamento. 
Ela torceu o pano de prato. 
- Ah! querido, quanto a isso... Recebi uma mensagem de Quron na noite passada. 
Meu corao ficou apertado. Quron era o diretor de atividades do Acampamento Meio-Sangue. Ele no 
faria contato a no ser que algo srio estivesse acontecendo. 
- O que ele disse? 
- Ele acha... que poderia no ser seguro voc ir para o campo agora. Talvez tenhamos de adiar. 
- Adiar? Mame, como poderia no ser seguro? Eu sou um meio-sangue! , tipo, o nico lugar seguro para 
mim neste mundo! 
- Costuma ser, querido. Mas com os problemas que eles esto enfrentando... 

#
 - Que problemas? 
- Percy... Sinto muito, muito mesmo. Esperava falar com voc sobre isso esta tarde. No posso explicar 
tudo agora. No sei nem se Quron pode explicar. Tudo aconteceu muito de repente. 
Minha cabea estava girando. Como eu poderia no ir para o acampamento? Queria fazer um milho de 
perguntas, mas justamente nesse momento o relgio da cozinha bateu meia hora. 
Minha me pareceu quase aliviada. 
- Sete e meia, querido. Voc precisa ir. Tyson estar esperando. 
- Mas... 
- Percy, vamos conversar hoje  tarde. V para a escola. Aquilo era a ltima coisa que eu queria fazer, 
mas minha me estava com aquela expresso frgil nos olhos - uma espcie de aviso, como se ela fosse 
chorar se eu a pressionasse demais. Alm disso, ela estava certa quanto ao meu amigo Tyson. Precisava 
encontr-lo na estao do metr a tempo, ou ele ficaria zangado. Ele tinha medo de viajar embaixo da 
terra sozinho. Juntei minhas coisas, mas parei na porta. 
- Mame, esse problema no acampamento. Tem... poderia ter alguma coisa a ver com meu sonho com 
Grover? 
Ela no me olhou nos olhos. 
- Vamos conversar hoje  tarde, querido. Eu vou explicar... o que puder. 
Eu me despedi dela, relutante. Corri escada abaixo para pegar o trem Nmero 2. 
Eu no sabia ento, mas minha me e eu nunca teramos nossa conversa  tarde. 
Na verdade, eu no voltaria a ver nossa casa por um longo, longo tempo. 
Quando sa, dei uma olhada para o edifcio marrom do outro lado da rua. S por um segundo vi uma forma 
escura  luz da manh - uma silhueta humana contra a parede de tijolos, uma sombra que no pertencia a 
ningum. 
Ento ela tremulou e desapareceu. 


#
DOIS - Meu jogo de queimado com canibais 
Meu dia comeou normal. Ou to normal quanto pode ser no colgio Meriwether. 
Veja bem,  um colgio "experimental", no centro de Manhattan, o que significa que nos sentamos em 
pufes, em vez de carteiras, e no recebemos notas, e os professores usam jeans e camisetas de shows 
de rock no trabalho. 
Por mim, tudo bem. Tenho transtorno do dficit de ateno e sou dislxico, como a maioria dos meios-
sangues, portanto nunca fui l muito bem nas escolas comuns, mesmo antes de eles me expulsarem. A 
nica coisa ruim em relao ao Meriwether era que os professores sempre viam as coisas pelo lado mais 
promissor, e a garotada nem sempre era... bem, promissora. 
Por exemplo, minha primeira aula daquele dia: ingls. Todos os alunos do secundrio leram aquele livro 
chamado O senhor das moscas, em que um monte de garotos  abandonado em uma ilha e fica pirado. 
Ento, no exame final, nossos professores nos mandaram passar uma hora sem superviso de adultos, no 
ptio, para verem o que aconteceria. O que se deu foi uma guerra generalizada de "cueco" entre os 
alunos da stima e oitava sries, duas guerras de cascalhos e uma partida de basquete sem marcao de 
faltas. 
O valento da escola, Matt Sloan, liderou a maior parte dessas atividades. 
Sloan no era grande nem forte, mas agia como se fosse. Tinha olhos de pit bull e um cabelo preto 
desgrenhado, e sempre vestia roupas caras, mas amarfanhadas, como se quisesse que todo o mundo 
visse como ele se lixava para o dinheiro da famlia. Tinha um dente da frente lascado, de uma vez em que 
pegara o Porsche do pai para dar umas voltas e batera numa placa de DEVAGAR - CRIANAS 
BRINCANDO. 
De qualquer jeito, Sloan estava dando "cueco" em todo o mundo, at que cometeu o erro de tentar puxar 
a cueca do meu amigo Tyson. 
Tyson era o nico garoto sem-teto no colgio Meriwether. At onde minha me e eu conseguimos 
descobrir, ele havia sido abandonado pelos pais quando era muito pequeno, provavelmente por ser to... 
diferente. Tinha um metro e noventa de altura e o fsico do Abominvel Homem das Neves, mas chorava 
muito e tinha medo de praticamente tudo, inclusive do prprio reflexo. Seu rosto era meio disforme e 
abrutalhado. No sei dizer de que cor eram seus olhos porque nunca consegui ver alm de seus dentes 
tortos. Sua voz era profunda, mas ele falava de um jeito engraado, como um menino muito mais jovem - 
acho que por nunca ter ido a uma escola antes de Meriwether. Usava jeans esfarrapados, tnis imundos 
tamanho cinqenta e dois e uma camisa de flanela xadrez esburacada. Tinha o cheiro dos becos de Nova 
York, porque era l que vivia, em uma caixa de geladeira de papelo, perto da rua 72. 
O colgio Meriwether o adotara em virtude de um projeto de servio comunitrio, para que todos os alunos 
pudessem se sentir bem consigo mesmos. Infelizmente, a maioria deles no suportava Tyson. Depois de 
descobrirem que apesar de sua incrvel fora e da aparncia assustadora ele era grande e bobo, sentiam 
prazer em atorment-lo. Eu era praticamente seu nico amigo, o que significava que ele era o meu nico 
amigo. 
Minha me j reclamara na escola um milho de vezes, porque eles no estavam fazendo o bastante para 
ajud-lo. Ligou para o servio social, mas aparentemente nada aconteceu. Os assistentes sociais 
alegaram que Tyson no existia. Juraram de ps juntos que tinham visitado o beco que ns descrevemos 
e no conseguiram encontr-lo, muito embora eu no entenda como  possvel no ver um garoto gigante 
que mora numa caixa de geladeira. 
De qualquer modo, Matt Sloan enfiou-se por trs dele e tentou lhe dar um "cueco" , e Tyson entrou em 
pnico. Afastou Sloan com um tapa um pouco forte demais. Sloan saiu voando por cinco metros e ficou 
enroscado no balano de pneu das crianas pequenas. 

#
 - Seu monstrengo! - berrou Sloan. - Por que no volta para sua caixa de papelo? 
Tyson comeou a soluar. Sentou-se no trepa-trepa com tanta fora que entortou a barra, e enterrou a 
cabea nas mos. 
- Retire o que disse, Sloan! - gritei. 
Sloan s me lanou uma careta de deboche. 
- O que voc tem com isso, Jackson? Voc poderia ter amigos se no estivesse sempre tomando as dores 
daquele monstrengo. 
Fechei os punhos. Esperava que minha cara no estivesse to vermelha como me parecia. 
- Ele no  um monstrengo.  s... 
Tentei pensar na coisa certa a dizer, mas Sloan no ouvia. Ele e seus amigos feios e grandalhes 
estavam muito ocupados rindo. Eu me perguntei se era minha imaginao ou se Sloan tinha mais 
brutamontes em volta dele que de costume. Estava acostumado a v-lo com dois ou trs, mas naquele 
dia ele tinha, tipo, mais uma dzia, e eu tinha certeza absoluta de que nunca os vira antes. 
- Espere s at a aula de educao fsica, Jackson  gritou Sloan. - Voc j est muito morto. 
Quando terminou o primeiro tempo, nosso professor de ingls, o sr. De Milo, saiu para avaliar a carnificina. 
Ele declarou que tnhamos entendido O senhor das moscas perfeitamente. Todos passamos na matria 
dele, e jamais amos nos tornar pessoas violentas. Matt Sloan assentiu, srio, e depois me lanou um 
sorriso de dente lascado. 
Tive de prometer que compraria um sanduche extra de manteiga de amendoim para Tyson no almoo, 
para ele parar de soluar. 
- Eu... eu sou um monstrengo? - ele me perguntou. 
- No - assegurei, rilhando os dentes. - Matt Sloan  que  um monstrengo. 
Tyson fungou. 
- Voc  um bom amigo. Vou sentir saudades de voc no ano que vem se... se eu no puder... 
A voz dele tremeu. Percebi que ele no sabia se no ano seguinte seria novamente convidado para o 
projeto comunitrio. Imaginei se o diretor ao menos teria se dado ao trabalho de conversar com ele sobre 
isso. 
- No se preocupe, grando - consegui dizer. - Vai dar tudo certo. 
Tyson me lanou um olhar to agradecido que me senti um grande mentiroso. Como podia prometer a um 
garoto como ele que alguma coisa daria certo? 
***** 
Nossa prxima prova era de cincias. A sra. Tesla nos disse que teramos de misturar substncias 
qumicas at conseguir fazer alguma coisa explodir. Tyson era meu parceiro de laboratrio. As mos dele 
eram grandes demais para os pequeninos frascos que devamos usar. Ele derrubou sem querer uma 
bandeja de substncias do balco e criou um cogumelo de fumaa alaranjada na lata de lixo. 


#
Depois que a sra. Tesla evacuou o laboratrio e convocou o esquadro de remoo de resduos 
perigosos, elogiou Tyson e eu por sermos qumicos natos. Tnhamos sido os primeiros da histria a 
gabaritar sua prova em menos de trinta segundos. 
Fiquei contente de a manh ter passado depressa, pois isso me impediu de pensar demais nos meus 
problemas. Eu no suportava a idia de que algo pudesse estar errado no acampamento. Pior ainda: no 
conseguia afastar a lembrana do pesadelo. Tinha a terrvel sensao de que Grover estava em perigo. 
Em estudos sociais, quando estvamos desenhando mapas de latitude e longitude, abri meu caderno e 
olhei para a foto l dentro - minha amiga Annabeth de frias em Washington. Ela de jeans e uma jaqueta 
ndigo por cima da camiseta cor de laranja do Acampamento Meio-Sangue. O cabelo loiro estava preso 
para trs, com uma bandana. Estava em p na frente do Memorial de Lincoln, com os braos cruzados, 
parecendo satisfeitssima consigo mesma, como se ela prpria tivesse projetado o lugar. Veja bem, 
Annabeth quer ser arquiteta quando crescer, por isso est sempre visitando monumentos famosos e 
coisas do tipo. Ela  esquisita assim mesmo. Tinha me mandado a foto por e-mail nas frias da primavera, 
e de vez em quando eu olhava s para me lembrar de que ela era real e de que o Acampamento Meio-
Sangue no tinha sido coisa da minha imaginao. 
Quis que Annabeth estivesse ali. Ela saberia interpretar meu sonho. Nunca admiti isso para ela, mas era 
mais esperta do que eu, mesmo que s vezes fosse meio irritante. 
Eu j ia fechar meu caderno quando Matt Sloan e arrancou a foto da espiral. 
- Ei! - protestei. 
Sloan conferiu a foto, e seus olhos se arregalaram. 
- Ah! no, Jackson. Quem  essa? Ela no  a sua... 
- Devolva! - Senti as orelhas ficando quentes. 
Sloan passou a foto para seus colegas feiosos, que deram risadinhas e comearam a rasg-la para fazer 
bolinhas de cuspe. Eram alunos novos que deviam estar de visita, porque todos usavam aquelas etiquetas 
idiotas de "OI! MEU NOME :" entregues na recepo. Tambm deviam ter um senso de humor meio 
esquisito, porque todas elas estavam preenchidas com nomes estranhos, como CHUPA-TUTANO, COME-
CRNIOS E Z-MAN. No existem seres humanos com nomes assim. 
- Esses caras vo se mudar para c no ano que vem - alardeou Sloan, como se aquilo devesse me 
assustar. - Aposto que eles podem pagar a escola, ao contrrio do seu amigo retardado. 
- Ele no  retardado. - Tive de me conter muito, muito mesmo, para no dar um murro na cara de Sloan. 
- Voc  um perdedor, Jackson. Ainda bem que eu vou livrar voc do seu sofrimento no prximo perodo. 
Os grandalhes cupinchas dele mascaram minha foto. Queria transform-los em p, mas estava sob 
ordens estritas de Quron de nunca descontar minha raiva em mortais comuns, no importava quanto eles 
fossem detestveis. Tinha de deixar para brigar com os monstros. 
Ainda assim, parte de mim pensou que se Sloan ao menos soubesse quem eu era realmente... 
A campainha tocou. 
Quando Tyson e eu estvamos saindo da classe, uma voz de menina sussurrou: 
- Percy! 

#
 Corri os olhos pela rea dos vestirios, mas ningum estava prestando nenhuma ateno a mim. Como se 
alguma menina em Meriwether fosse um dia chamar meu nome. 
Antes que eu tivesse tempo de avaliar se estava ou no imaginando coisas, uma multido de garotos 
disparou para o ginsio, arrastando-me com ela. Era hora da educao fsica. O treinador nos prometera 
um jogo de queimado vale-tudo, e Matt Sloan prometera me matar. 
O uniforme de ginstica de Meriwether  short azul-celeste e camiseta desbotada. Felizmente a maior 
parte das nossas atividades atlticas era interna, assim no tnhamos de correr pelo bairro de Tribeca 
parecendo um bando de crianas hippies em treinamento. Troquei de roupa o mais depressa que pude no 
vestirio, pois no queria ter de lidar com Sloan. Estava quase saindo quando Tyson chamou: 
- Percy? 
Ele ainda no tinha se trocado. Estava postado junto  porta da sala de musculao, segurando as roupas 
de ginstica. 
- Ser que voc... ahn... 
- Ah! sim. - Tentei no parecer aborrecido com aquilo. - Sim, claro, cara. 
Tyson esquivou-se para dentro da sala. Fiquei de guarda do lado de fora da porta enquanto ele se trocava. 
Eu me sentia meio constrangido fazendo aquilo, mas ele me pedia quase todos os dias. Acho que  
porque ele  todo peludo e tem umas cicatrizes esquisitas nas costas, sobre as quais eu nunca tive 
coragem de perguntar. 
De qualquer modo, aprendi pelo mtodo mais difcil que se as pessoas mexessem com Tyson enquanto 
estivesse se vestindo, ele ficava perturbado e comeava a arrancar as portas dos armrios. 
Quando entramos no ginsio, o treinador Nunley estava sentado  sua mesinha lendo a Sports Illustrated. 
Nunley tinha cerca de um milho de anos de idade, usava culos bifocais e no tinha dentes, e tinha um 
topete grisalho ensebado. Lembrava o Orculo do Acampamento Meio-Sangue - que era uma mmia 
encarquilhada -, s que o treinador Nunley se movia muito menos e nunca soltava nuvens de fumaa 
verde. Bem, ao menos no que eu tivesse observado. 
Matt Sloan disse: 
- Treinador, posso ser o capito? 
- H? - o treinador Nunley ergueu os olhos de sua revista. - Sim - murmurou. - Hmm-mrnm. 
Sloan sorriu e se encarregou da escalao. Ele me nomeou capito do outro time, mas pouco importava 
quem eu escolhesse, pois todos os atletas e os garotos mais populares passavam para o lado de Sloan. E 
tambm o grupo grande de visitantes. 
Do meu lado, eu tinha Tyson; Corey Bailer, o nerd de computadores; Raj Mandali, o fenmeno dos 
clculos, e meia dzia de outros que eram sempre atormentados por Sloan e sua gangue. Normalmente, 
eu me daria bem s com Tyson - ele, sozinho, valia por meio time -, mas os visitantes do lado de Sloan 
eram quase to altos e fortes quanto Tyson, e havia seis deles. 
Matt Sloan espalhou um engradado de bolas no meio do ginsio. 
- Com medo - murmurou Tyson. - Cheiro gozado. 
Olhei para ele. 


#
- O que tem cheiro gozado? - No achei que ele estivesse falando de si mesmo. 
-Eles. - Tyson apontou para os novos amigos de Sloan. - Eles tm um cheiro gozado. 
Os visitantes estavam estalando os dedos e olhando para ns como se fosse a hora do massacre. No 
pude deixar de me perguntar de onde eles vinham. De algum lugar onde alimentavam as crianas com 
carne crua e batiam nelas com paus. 
Sloan soprou o apito do treinador e o jogo comeou. O time de Sloan correu para a linha de centro. Do 
meu lado, Raj Man-dali gritou alguma coisa em urdu, provavelmente: "Preciso de um penico!", e correu 
para a sada. Corey Bailer tentou engatinhar para trs da forrao da parede e se esconder. O restante do 
time fez o melhor que pde para se encolher de medo e no ficar parecendo alvo. 
- Tyson - disse eu. - Vamos... 
Uma bola me atingiu violentamente na barriga. Ca sentado no meio do piso do ginsio. O outro time 
explodiu em gargalhadas. 
Minha viso ficou turva. Era como se tivesse acabado de receber uma manobra de Heimlich de um gorila. 
No pude acreditar que algum fosse capaz de lanar uma bola com aquela fora. 
Tyson gritou: 
- Percy, abaixe-se! 
Rolei enquanto outra bola passava zunindo por meu ouvido, na velocidade do som. Vuuuuuml Ela atingiu a 
forrao da parede, e Corey Bailer ganiu. 
- Ei! - gritei para o time de Sloan. - Assim vocs podem matar algum! 
O visitante chamado Z-Man sorriu para mim de um jeito perverso. De algum modo, ele parecia muito 
maior agora... ainda mais alto que Tyson. Seus bceps se destacavam embaixo da camiseta. 
- Assim espero, Perseu Jackson! Assim espero! 
O modo como ele disse meu nome me deu um frio na espinha. Ningum me chamava de Perseu, a no 
ser aqueles que conheciam minha verdadeira identidade. Amigos... e inimigos. 
O que Tyson tinha dito? Eles tm um cheiro gozado. 
Monstros. 
Em volta de Matt Sloah, os visitantes estavam ficando maiores. No eram mais garotos. Eram gigantes de 
dois metros e meio de altura, com olhos selvagens, dentes pontudos e braos peludos, tatuados com 
cobras, danarinas havaianas e coraes. 
Matt Sloan deixou cair a bola. 
- Epa! Vocs no so de Detroit. Quem... 
Os outros garotos do time comearam a gritar e a recuar para sada, mas o gigante chamado Chupa-
Tutano lanou uma bola com pontaria certeira. Ela passou como um raio por Raj Mandali quando ele 
estava quase saindo e atingiu a porta, fechando-a como num passe de mgica. Raj e alguns dos outros 
garotos a esmurraram, desesperados, mas ela no cedeu. 
- Deixe-os ir! - gritei para os gigantes. 


#
O que se chamava Z-Man rosnou para mim. Tinha uma tatuagem no bceps que dizia: ZM ama Fofinha. 
- E perder os nossos petiscos? No, Filho do Deus do Mar. Ns, lestriges, no estamos jogando s para 
mat-lo. Queremos almoar! 
Ele acenou e um novo lote de bolas de queimado apareceu na linha de centro - mas aquelas no eram 
feitas de borracha vermelha. 
Eram de bronze, do tamanho de balas de canho, perfuradas, com fogo saindo dos buracos. Deviam ser 
muito quentes, mas os gigantes as pegavam com as mos nuas. 
- Treinador! - gritei. 
Nunley ergueu os olhos, sonolento, mas, se viu algo de anormal no jogo de queimado, no demonstrou. 
Esse  o problema com os mortais. Uma fora mgica chamada A Nvoa disfara a seus olhos a 
verdadeira aparncia dos monstros e dos deuses, e assim eles tendem a ver apenas o que conseguem 
compreender. Talvez o treinador tivesse visto alguns garotos da oitava srie batendo nas crianas 
menores, como de costume. Talvez os outros garotos vissem os brutamontes de Matt Sloan prestes a 
lanar por a coquetis Molotov. (No teria sido a primeira vez.) De qualquer modo, eu tinha certeza de 
que ningum mais se dava conta de que estvamos lidando com genunos monstros comedores de gente 
e sedentos de sangue. 
- Sim. Hmm-mmm - resmungou o treinador.  Joguem direito. 
E voltou  sua revista. 
O gigante chamado Come-Crnios lanou a bola. Mergulhei de lado enquanto o cometa de bronze 
chamejante passava junto ao meu ombro. 
- Corey! - gritei. 
Tyson o puxou de trs da forrao da parede bem no momento em que a bola explodiu contra ela, 
transformando o acolchoado em farrapos fumegantes. 
- Corram! - gritei para os meus companheiros de time. - A outra sada! 
Eles correram para o vestirio, mas outro aceno da mo de Z-Man fez bater aquela porta tambm. 
- Ningum sai enquanto voc no estiver fora!  rugiu Z-Man. - E voc no vai estar fora enquanto no o 
comermos! 
Ele lanou sua bola de fogo. Meus companheiros de time se espalharam enquanto ela abria uma cratera 
no piso do ginsio. 
Procurei a Contracorrente, que carregava sempre no bolso, mas ento me dei conta de que estava usando 
meu short de ginstica. Eu no tinha bolsos. Contracorrente estava enfiada no bolso da cala jeans, dentro do 
armrio no vestirio. E a porta do vestirio estava trancada. Eu estava completamente indefeso. 
Outra bola de fogo veio como um raio em minha direo. Tyson me empurrou para fora do caminho, mas a 
exploso ainda me atirou longe. Fiquei esparramado no cho do ginsio, com a vista embaada pela 
fumaa, a camiseta desbotada salpicada de buracos chamuscados. Logo depois da linha de centro, dois 
gigantes famintos me olhavam de cima. 
- Carne! - urraram. - Carne de heri para o almoo! - Os dois fizeram pontaria. 

- Percy precisa de ajuda! - gritou Tyson, e pulou na minha frente bem no momento em que eles lanaram 
suas bolas. 

#
- Tyson! - gritei, mas era tarde demais. 
As duas bolas o atingiram... mas, no... ele as agarrou. De algum modo Tyson, que era to desajeitado 
que estava sempre derrubando equipamentos do laboratrio e quebrando estruturas do playground, tinha 
agarrado as duas bolas chamejantes de metal que vinham em sua direo a um zilho de quilmetros por 
hora. Ele as atirou de volta para seus donos surpresos, que gritaram "RUIIIIIM!" quando as esferas de 
bronze explodiram contra seus peitos. 
Os gigantes se desintegraram em colunas gmeas de chamas - um sinal seguro de que eram monstros, 
certo. Monstros no morrem. Simplesmente se dissipam em fumaa e p, o que poupa aos heris um 
bocado de trabalho de limpeza depois de uma luta. 
- Meus irmos! - gemeu Z-Man, o Canibal. Ele contraiu os msculos, e sua tatuagem da Fofinha 
ondulou. - Voc vai pagar por t-los destrudo! 
- Tyson!  disse eu.  Cuidado! 
Outro cometa disparou em nossa direo. Tyson s teve tempo de desvi-lo com um tapa. Passou voando 
por cima da cabea do treinador Nunley e aterrissou na arquibancada com um imenso CABUUUUM! 
Crianas corriam de um lado para o outro gritando, tentando evitar as crateras fumegantes no piso. Outras 
esmurravam a porta, gritando por socorro. O prprio Sloan estava petrificado no meio da quadra, 
assistindo incrdulo s bolas da morte que voavam em volta dele. 
O treinador Nunley ainda no via nada. Deu uma batidinha em seu aparelho de surdez, como se as 
exploses estivessem causando interferncia, mas no desviou os olhos da revista. 
Certamente a escola inteira podia ouvir o barulho. O diretor, a polcia, algum iria nos ajudar. 
- A vitria ser nossa! - rugiu Z-Man, o Canibal. - Vamos nos banquetear com seus ossos! 
Quis dizer-lhe que ele estava levando o jogo de queimado muito a srio, mas antes que pudesse fazer isso 
ele lanou mais uma bola. Os outros trs gigantes fizeram o mesmo. 
Sabia que estvamos mortos. Tyson no poderia desviar todas aquelas bolas ao mesmo tempo. Suas 
mos deviam estar com queimaduras srias por ter bloqueado a primeira saraivada. Sem a minha 
espada... 
Tive uma idia maluca. Corri em direo ao vestirio. 
- Saiam da frente! - disse a meu time. - Saiam da porta. 
Exploses atrs de mim. Tyson rebatera duas das bolas a seus donos e os fizera explodir em cinzas. 
Restavam dois gigantes em p. 
Uma terceira bola veio voando diretamente para mim. Eu me forcei a esperar - um, dois, trs - e ento me 
atirei para o lado, enquanto a esfera chamejante demolia a porta do vestirio. 
Calculei que o gs acumulado na maioria dos armrios dos meninos seria suficiente para causar uma 
exploso, portanto no me surpreendi quando a bola chamejante de queimado provocou um enorme 
BUUUUUUM! 
A parede explodiu. Portas de armrios, meias, suportes atlticos e vrios outros apetrechos pessoais 
fedorentos choveram por todo o ginsio. 


#
Virei-me bem a tempo de ver Tyson dar um soco na cara do Come-Crnios. O gigante desmoronou. Mas o 
ltimo gigante, Z-Man, esperto, continuava segurando sua bola, esperando uma oportunidade. Ele a 
lanou justamente quando Tyson se virava para ele. 
- No! - gritei. 
A bola atingiu Tyson bem no peito. Ele deslizou por toda a extenso da quadra e bateu na parede do 
fundo, que rachou. Parte desmoronou em cima dele, abrindo um buraco que dava direto para a rua 
Church. No entendia como Tyson ainda podia estar vivo, mas ele parecia apenas atordoado. A bola de 
bronze fumegava a seus ps. Tyson tentou peg-la, mas caiu para trs, aturdido, em uma pilha de blocos 
de concreto. 
- Bem! - tripudiou Z-Man. - Sou o ltimo de p! Vou ter carne suficiente para levar uma quentinha para 
Fofinha! 
Ele pegou outra bola e mirou Tyson. 
- Pare! - gritei. -  a mim que voc quer! O gigante arreganhou um sorriso. 
- Quer morrer primeiro, heroizinho? 
Eu precisava fazer alguma coisa. Contracorrente devia estar por ali, em algum lugar. 
Ento avistei meus jeans em uma pilha fumegante de roupas bem aos ps do gigante. Se eu ao menos 
conseguisse chegar l... Sabia que era intil, mas investi. 
O gigante riu. 
- Meu almoo se aproxima. 
Ele ergueu o brao para lanar. Eu me preparei para morrer. 
De repente o corpo do gigante enrijeceu-se. Sua expresso mudou de triunfante para surpresa. Bem no 
lugar onde deveria estar seu umbigo, a camiseta se rasgou e surgiu ali algo como um chifre - no, um 
chifre no: a ponta brilhante de uma lmina. 
- Ui - murmurou ele, e explodiu numa nuvem de chamas verdes, o que, imaginei, iria deixar Fofinha muito 
aborrecida. 
Em p no meio da fumaa estava minha amiga Annabeth. Seu rosto estava sujo e arranhado. Carregava 
uma mochila esfarrapada pendurada no ombro, o bon de beisebol enfiado no bolso, uma faca de bronze 
na mo e um olhar selvagem nos olhos cinza-tempestade, como se fantasmas a tivessem perseguido por 
mil quilmetros. 
Matt Sloan, que estivera ali em p, abobalhado, o tempo todo, afinal caiu na real. Piscou para Annabeth 
como se a reconhecesse vagamente da foto no meu caderno. 
-  a garota... E a garota... 
Annabeth deu-lhe um soco no nariz, derrubando-o no cho. 
- E voc - disse ela -, deixe meu amigo em paz. 
O ginsio estava em chamas. Crianas ainda corriam de um lado para o outro, gritando. Ouvi sirenes que 
uivavam e uma voz distorcida no alto-falante. Atravs das janelas de vidro nas portas de sada pude ver o 
diretor, sr. Bonsai, brigando com a fechadura, e uma multido de professores amontoada atrs dele. 


#
- Annabeth... - gaguejei. - Como voc... h quanto tempo voc... 
- Quase a manh toda. - Ela embainhou a faca de bronze. - Estava tentando encontrar um bom momento 
para falar com voc, mas voc nunca estava sozinho. 
- A sombra que eu vi esta manh... aquilo era... - Meu rosto ficou quente.  Ah!, meus deuses, voc estava 
olhando pela janela do meu quarto? 
- No d tempo de explicar! - disparou com rispidez, embora ela mesma parecesse estar com o rosto um 
pouco quente. - Mas eu no queria... 
- Ali! - berrou uma mulher. 
As portas se abriram de repente e os adultos se precipitaram paia dentro. 
- Encontre-me l fora - disse Annabeth. - E ele. Apontou para Tyson, que ainda estava sentado encostado 
na parede, atordoado. Annabeth lanou-lhe um olhar de averso que no entendi muito bem. -  melhor 
traz-lo. 
- O qu? 
- No d tempo! - disse ela. - Depressa! 
EIa colocou o bon de beisebol dos Yankees, que era um presente mgico de sua me, e desapareceu na 
mesma hora. 
Com isso, fiquei sozinho no meio do ginsio em chamas, quando o diretor investiu para dentro com 
metade do corpo docente e dois policiais. 
- Percy Jackson? - disse o sr. Bonsai. - O que... como... 
Junto  parede destruda, Tyson gemeu e levantou-se da pilha de blocos de concreto. 
- A cabea di. 
Matt Sloan tambm se aproximava. Olhou para mim com expresso de terror. 
- Foi Percy quem fez isso, sr. Bonsai. Ele tocou fogo no prdio inteiro. O treinador Nunley vai lhe contar, 
ele viu tudo! O treinador Nunley estivera lendo com dedicao sua revista, mas, para meu azar, escolheu 
aquele momento para erguer os olhos, ao ouvir Sloan pronunciar seu nome. 
- H? Sim. Hmm-mmm. 
Os outros adultos viraram na minha direo. Eu sabia que jamais acreditariam em mim, mesmo que eu 
pudesse contar-lhes a verdade. 
Arranquei Contracorrente dos meus jeans destrudos, disse a Tyson "Vamos!" e pulei pelo buraco 
escancarado na lateral do edifcio. 


#
TRES - Ns chamamos o txi da tormenta eterna 
Annabeth estava  nossa espera em um beco mais adiante na rua Church. Puxou Tyson e eu da calada 
bem no momento em que um carro de bombeiros passou gritando seu gemido em direo a Meriwether. 
-Onde voc o encontrou?  perguntou ela, apontando para Tyson. 
Ali, sob circunstncias diferentes, eu teria ficado realmente feliz em v-la. Tnhamos feito as pazes no 
ltimo vero, a despeito de a me dela ser Atena e no se dar muito bem com meu pai. Tinha sentido mais 
saudades de Annabeth do que gostaria de admitir. 
Mas acabara de ser atacado por canibais gigantes, Tyson salvara minha vida trs ou quatro vezes e tudo 
o que Annabeth pde fazer foi olh-lo com raiva, como se ele fosse o problema. 
- Ele  meu amigo - falei. 
- Ele  um sem-teto? 
- Que importncia tem isso? Ele consegue ouvir, sabe? Por que no pergunta a ele? 
Ela pareceu surpresa. 
- Ele sabe falar? 
- Eu falo - admitiu Tyson. - Voc  bonita. 
- Ah! Grosso! - Annabeth recuou um passo, afastando-se dele. 
No podia acreditar que ela estivesse sendo to mal-educada. Examinei as mos de Tyson, que, eu tinha 
certeza, deviam estar muito machucadas por causa das bolas de fogo, mas pareciam timas - imundas e 
marcadas por cicatrizes sujas do tamanho de batatinhas chips -, mas elas sempre foram assim. 
- Tyson - falei, incrdulo. - Suas mos no esto queimadas. 
-  claro que no - resmungou Annabeth. - Estou surpresa com a coragem dos lestriges, atacando-o com 
ele por perto. 
Tyson parecia fascinado com o cabelo loiro de Annabeth. Tentou toc-lo, mas ela afastou sua mo com 
um tapa. 
- Annabeth - disse eu -, do que voc est falando? Les-o qu? 
- Lestriges. Os monstros no ginsio. So uma raa de gigantes canibais que vivem no extremo norte. 
Ulisses topou com eles uma vez, mas eu nunca os vira to ao sul, como em Nova York. 
- Les... no consigo nem pronunciar isso. Como voc os chamaria em ingls? 
Ela pensou por um momento. 
- Canadenses - concluiu. - Agora venha, temos de sair daqui. 
- A polcia vir atrs de mim. 
- Esse  o menor dos problemas - disse ela. - Voc andou tendo os sonhos? 
- Os sonhos... com Grover? 

#
 O rosto dela empalideceu. 
- Grover? No, o que h com Grover? 
Contei-lhe o sonho. 
- Por qu? O que voc andou sonhando? 
Os olhos dela pareciam tempestuosos, como se a mente estivesse correndo a um milho de quilmetros 
por hora. 
- O acampamento - disse ela afinal. - Um problemo no acampamento. 
- Minha me disse a mesma coisa! Mas que tipo de problema? 
- No sei exatamente. H algo errado. Temos de ir para l mesmo. Monstros me perseguiram pelo 
caminho todo desde a Virgnia, tentando me deter. Voc tambm sofreu uma poro ataques? 
Sacudi a cabea. 
- Nenhum, o ano todo... at hoje. 
- Nenhum? Mas como... - Os olhos dela recaram sobre... - Ah! 
- O que quer dizer "Ah!"? 
Tyson ergueu a mo como se ainda estivesse na sala de aula. - Os canadenses no ginsio chamaram 
Percy de alguma coisa... Filho do Deus do Mar? 
Annabeth e eu trocamos olhares. 
No sabia como poderia explicar, mas imaginei que Tyson merecesse a verdade, depois de quase ter sido 
morto. 
- Grando - falei -, j ouviu aquelas velhas histrias sobre deuses gregos? Como Zeus, Poseidon, Atena... 
- Sim - disse Tyson. 
- Bem... aqueles deuses ainda vivem. Tipo, vo seguindo a civilizao ocidental de um lado para o outro e 
vivendo nos pases mais poderosos; portanto, esto agora nos Estados Unidos. E s vezes tm filhos com 
mortais. Filhos que so chamados de meios-sangues. 
- Sim - disse Tyson, como se ainda esperasse que eu chegasse ao ponto principal. 
- Ahn, bem, Annabeth e eu somos meios-sangues - disse eu. - Somos como... heris em treinamento. E 
sempre que os monstros sentem nosso cheiro, eles nos atacam. E o que eram aqueles gigantes no 
ginsio. Monstros. 
- Sim. 
Olhei para ele. Ele no parecia surpreso nem confuso com o que eu contava, o que me deixava surpreso 
e confuso. 
- Ento... voc acredita em mim? 
Tyson assentiu. 

#
 - Mas voc ... Filho do Deus do Mar? 
- Sim - admiti. - Meu pai  Poseidon. 
Tyson franziu a cara. Agora ele parecia confuso. 
- Mas ento... 
Uma sirene uivou. Um carro de polcia passou rapidamente pelo beco. 
- No temos tempo para isso - disse Annabeth. - Vamos conversar no txi. 
- Um txi at o acampamento? - disse eu. - Voc sabe quanto dinheiro... 
- Deixe comigo. 
Eu hesitei. 
- E Tyson? 
Imaginei-me escoltando meu amigo gigante at o Acampamento Meio-Sangue. Se ele ficava fora de si em 
um playground comum com valentes comuns, como agiria em um campo de treinamento para 
semideuses? Por outro lado, os policiais estariam procurando por ns. 
- No podemos simplesmente deix-lo aqui - conclu. - Ele tambm vai estar encrencado. 
- Sim. - Annabeth pareceu contrariada. - Sem dvida, precisamos lev-lo. Agora venha. 
No gostei do modo como ela disse aquilo, como se Tyson fosse uma grande doena que precisvamos 
levar ao hospital, mas a segui pelo beco. Juntos, ns trs nos esgueiramos pelas ruelas do centro, 
enquanto uma enorme coluna de fumaa se erguia do ia da escola, atrs de ns. 
***** 
- Aqui. - Annabeth nos deteve na esquina da Thomas com Trimbla. Vasculhou a mochila. - Espero que 
ainda tenha sobrado uma. 
Ela parecia ainda pior do que eu percebera de incio. Tinha um corte no queixo. Havia gravetos e grama 
embaraados em seu rabo-de-cavalo, como se tivesse dormido vrias noites ao relento. Os rasgos nas 
barras da cala jeans pareciam ter sito feitos por garras. 
- O que est procurando? - perguntei. 
As sirenes urravam  nossa volta. Calculei que no levaria muito tempo at que passassem mais policiais, 
procurando delinqentes juvenis bombardeadores de ginsios. Sem dvida, quela altura  Matt Sloan j 
teria dado um depoimento. Ele provavelmente deturpara a histria para que Tyson e eu fssemos os 
canibais sedentos de sangue. 
- Encontrei uma. Graas aos deuses. - Annabeth tirou da mochila uma moeda de ouro que reconheci como 
um dracma, a moeda corrente do Monte Olimpo. Tinha a efgie de Zeus gravada de um lado e o edifcio 
Empire State do outro. 
- Annabeth - falei. - Os taxistas de Nova York no vo aceitar isso. 
- Stthi - gritou ela em grego antigo. -  hrma diabols! 


#
Como de costume, no momento em que ela falou na lngua do Olimpo eu, de algum modo, entendi. Ela 
disse: Pare, Carruagem da Danao! 
Aquilo no me deixou l muito empolgado com seu plano, fosse qual fosse. 
Ela atirou a moeda na rua, mas em vez de cair ruidosamente no asfalto o dracma afundou e desapareceu. 
Por um momento, nada aconteceu. 
Ento, bem no lugar onde a moeda tinha cado, o asfalto escureceu. Fundiu-se em uma poa retangular 
mais ou menos do tamanho de uma vaga de estacionamento - borbulhando um lquido vermelho como 
sangue. Ento um carro irrompeu daquele lodo. 
Era um txi, sem dvida, porm, diferentemente de qualquer outro txi de Nova York, no era amarelo. 
Era cinza-escuro. Quer dizer, parecia feito de fumaa, como se fosse possvel atravess-lo andando. 
Havia palavras impressas na porta - algo como MSIR ZENTSITNA -, mas a dislexia tornou difcil para 
mim decifrar o que estava escrito. 
A janela do passageiro desceu, e uma velha ps a cabea para fora. Tinha um tufo de cabelos grisalhos 
cobrindo os olhos, e falou de um jeito estranho e murmurante, como se tivesse acabado de tomar uma 
injeo de anestsico. 
- Passagem? Passagem? 
- Trs para o Acampamento Meio-Sangue - disse Annabeth. Ela abriu a porta traseira do txi e acenou 
para que eu entrasse, como se aquilo tudo fosse a coisa mais normal do mundo. 
- Cruzes! - guinchou a velha. - No levamos a espcie dele! 
Ela apontou um dedo ossudo para Tyson. 
O que era aquilo? Dia da Perseguio aos Garotos Grandes e Feios? 
- Eu pago a mais - prometeu Annabeth. - Mais trs dracmas quando chegarmos. 
- Feito! - berrou a mulher. 
Entrei no txi com relutncia. Tyson se espremeu no meio. Annabeth se arrastou para dentro por ltimo. 
O interior tambm era cinza-escuro, mas parecia bastante slido. O assento era rachado e irregular - no 
muito diferente dos da maioria dos txis. No havia divisria nos separando da velha ao volante... Espere 
um minuto. No havia apenas uma velha. Havia trs, todas amontoadas no assento dianteiro, cada qual 
com cabelos pegajosos cobrindo os olhos, mos ossudas e um vestido de tecido grosso cor de carvo. 
A que estava na direo disse: 
- Long Island! Bandeira dois! Ha! 
Ela pisou fundo o acelerador, e minha cabea foi de encontro ao encosto. Uma voz gravada veio do alto-
falante: Ol, aqui  Ganimedes, sommelier de Zeus, e quando saio para comprar vinho para o Senhor do Cus 
sempre ponho o cinto de segurana! 
Olhei para baixo e encontrei uma corrente grande e preta no lugar do cinto. Conclu que no estava assim 
to desesperado... ainda. 
O txi disparou e virou na esquina da West Broadway, e a velha cinzenta sentada no meio guinchou: 
- Cuidado! V para a esquerda! 

#
 - Bem, se voc tivesse me dado o olho, Tempestade, eu poderia fazer isso! - queixou-se a motorista. 
Espere um minuto. Dar a ela o olho? 
No tive tempo de fazer perguntas, porque a motorista guinou para desviar-se de um caminho de 
entregas, passou por cima do meio-fio com um tranco de fazer bater os dentes e entrou voando no 
quarteiro seguinte. 
- Vespa! - disse a terceira mulher  motorista. - Passe para mim a moeda da menina! Quero mord-la. 
- Voc mordeu da ltima vez, Ira! - disse a motorista, cujo nome devia ser Vespa. -  a minha vez! 
- No ! - gritou a que se chamava Ira. A do meio, Tempestade, berrou: 
- Sinal vermelho! 
- Freie! - berrou Ira. 
Em vez disso, Vespa pisou fundo e subiu no meio-fio, cantando os pneus em outra esquina e derrubando 
uma mquina de vender jornais. Ela deixou meu estmago para trs em algum lugar da rua Broome. 
- Desculpe-me - falei -, mas... voc enxerga? 
- No! - gritou Vespa, de trs do volante. 
- No!  gritou Tempestade, do meio. 
-  claro! - gritou Ira, da janela do passageiro. Olhei para Annabeth. 
- Elas so cegas? 
- No totalmente - disse Annabeth. - Tm um olho. 
- Um olho? 
- Sim. 
- Cada uma? 
- No. Um olho ao todo. 
Ao meu lado, Tyson gemeu e se agarrou ao assento. 
- No estou me sentindo muito bem. 
- Ah, cus! - disse eu, pois j tinha visto Tyson ficar enjoado no carro em excurses da escola, e aquilo 
no era algo que a gente quisesse ver a menos de quinze metros de distncia. - Agente firme, grando. 
Algum tem um saco de lixo ou coisa assim? 
As trs senhoras cinzentas estavam muito ocupadas discutindo para prestar ateno em mim. Virei-me 
para Annabeth, que continuava concentrada como quem corre risco de vida, e dei-lhe uma olhada do tipo 
"Por que voc fez isso comigo?". 
- Ei - disse ela -, o Taxi das Irms Cinzentas  o meio mais rpido de chegar ao acampamento. 
- Ento, por que voc no veio nele da Virgnia? 

#
 - Fica fora da rea de prestao de servios delas - disse ela, como se aquilo fosse bvio. - Elas s 
trabalham na Grande Nova York e na vizinhana. 
- J tivemos gente famosa neste txi! - exclamou Ira. - Jaso! Lembram-se dele? 
- No quero nem lembrar! - lamuriou-se Vespa. - E ns no tnhamos um txi naquele tempo, sua 
morcega velha. Aquilo foi h trs mil anos! 
- Me d o dente! - Ira tentou agarr-lo na boca de Vespa, mas Vespa afastou a mo dela com um tapa. 
- S se Tempestade me der o olho! 
- No! - guinchou Tempestade. - Voc o usou ontem! 
- Mas estou dirigindo, sua bruxa velha! 
- Desculpas! Vire! Era a sua entrada! 
Vespa entrou com violncia na rua Delancey, espremendo-me entre Tyson e a porta. Pisou o acelerador, e 
disparamos pela ponte Williamsburg a oitenta quilmetros por hora. 
As trs irms estavam agora brigando mesmo, estapeando-se, enquanto Ira tentava agarrar a cara de 
Vespa e Vespa tentava agarrar a de Tempestade. Com os cabelos esvoaando e a boca aberta, berrando 
uma com a outra, percebi que nenhuma das irms tinha dentes, com exceo de Vespa, que tinha um 
incisivo amarelo embolorado. Em vez de olhos, elas tinham apenas plpebras fechadas e afundadas, com 
exceo de Ira, que tinha um olho verde injetado que olhava para tudo avidamente, como se nada que 
visse fosse o bastante. 
Por fim, Ira, que tinha a vantagem da viso, conseguiu arrancar o dente da boca da irm Vespa. Isso a 
deixou to furiosa que ela deu uma guinada para a beirada da ponte Williamsburg, gritando: 
- Devolva! Devolva! 
Tyson gemeu e segurou o estmago. 
- Ah! a quem interessar possa - falei -, ns vamos morrer! 
- No se preocupe - disse Annabeth, parecendo muito preocupada. - As Irms Cinzentas sabem o que 
esto fazendo. Elas so muito sbias mesmo. 
Aquilo veio da filha de Atena, mas no me senti exatamente reconfortado. Estvamos derrapando ao 
longo da beira de uma ponte, quarenta metros acima do rio East. 
- Sim, sbias! - Ira arreganhou um sorriso ao retrovisor, mostrando o dente recm-adquirido. - A gente 
sabe das coisas! 
- Todas as ruas de Manhattan! - vangloriou-se Vespa, ainda batendo na irm. - A capital do Nepal! 
- O lugar que voc procura! - acrescentou Tempestade. Imediatamente, as irms a socaram, uma de cada 
lado, gritando: 
- Quieta! Quieta! Ele ainda nem perguntou! 
- O qu? - disse eu. - Que lugar? Eu no estou procurando nenhum... 
- Nada! - disse Tempestade. - Voc est certo, menino. No  nada! 

#
 - Fale. 
- No! - todas elas gritaram. 
- Na ltima vez que contamos, foi horrvel! - disse Tempestade. 
- O olho foi parar num lago! - concordou Ira. 
- Anos para encontr-lo de novo! - queixou-se Vespa. 
- E por falar nisso... Devolva! 
- No! - berrou Ira. 
- O olho! - berrou Vespa. - D para mim! 
Ela bateu com fora nas costas da irm Ira. Ouviu-se um pop nauseante e algo saiu voando da cara de Ira. 
Ela comeou a apalpar procurando, tentando agarr-lo, mas s conseguiu rebat-lo com as costas da 
mo. O globo verde e viscoso passou voando por cima de seu ombro e veio parar bem no meu colo. 
Dei um pulo to alto que minha cabea atingiu o teto e o globo ocular saiu rolando. 
- No consigo enxergar! - berraram as trs irms. 
- D o olho para mim! - gemeu Vespa. 
- D o olho para ela! - gritou Annabeth. 
- No est comigo! - falei. 
- Ali, perto do seu p - disse Annabeth. - No pise! Pegue! 
- No vou pegar aquilo! 
O txi colidiu com a grade de segurana e arrastou-se por ela com um rudo horrvel. O carro inteiro 
estremeceu, soltando fumaa cinzenta como se fosse se dissolver com o esforo. 
- Vou vomitar! - avisou Tyson. 
- Annabeth - berrei -, deixe Tyson usar sua mochila! 
- Est louco? Pegue o olho! 
Vespa deu uma puxada violenta no volante e o txi se afastou da grade. Disparamos pela ponte em 
direo ao Brooklyn, mais rpido que qualquer txi humano. As Irms Cinzentas guinchavam, e se 
esmurravam, e clamavam pelo olho. 
Por fim, tomei coragem. Arranquei um pedao da minha camisa desbotada, que j estava se desfazendo 
por causa de todos os buracos de queimadura, e usei-o para pegar o olho no cho. 
- Bom menino! - gritou Ira, como se, de algum modo, soubesse que eu estava com seu olho perdido. - 
Devolva! 
- No, enquanto no explicarem - falei. - O que vocs estavam falando, o lugar que eu procuro? 
- No d tempo! - gritou Tempestade. - Acelerando! 

#
 Olhei pela janela. Com certeza, rvores, carros e bairros inteiros passavam ventando, em um borro 
cinzento. J tnhamos sado do Brooklyn e atravessvamos Long Island. 
- Percy - advertiu Annabeth -, elas no podem encontrar nosso destino sem o olho. Vamos continuar 
acelerando at arrebentar em um milho de pedaos. 
- Primeiro elas tm de me dizer. Ou ento vou abrir a janela e jogar o olho no meio do trnsito. 
- No! - gemeram as Irms Cinzentas. -  perigoso demais! 
- Estou abaixando a janela. 
- Espere! - berraram as Irms Cinzentas. - Trinta, 31, 75,12! Elas bradaram como um zagueiro de futebol 
americano cantando a jogada. 
- O que querem dizer? Isso no faz sentido! 
- Trinta, 31, 75, 12! - gemeu Ira. - E tudo o que podemos falar. Agora, devolva-nos o olho! Estamos quase 
no acampamento! 
Estvamos agora fora da estrada, disparando pelos campos no norte de Long Island. Pude ver a Colina 
Meio-Sangue  nossa frente, com seu pinheiro gigante no topo - a rvore de Thalia, que continha a fora 
vital de uma herona derrotada. 
- Percy! - disse Annabeth em um tom mais urgente.  D o olho a elas agora! 
Decidi no discutir. Joguei o olho no colo de Vespa. A velha o agarrou, empurrou-o para dentro da rbita 
como algum que coloca uma lente de contato, e piscou. 
- Eia! 
Ela pisou o freio. O txi rodopiou quatro ou cinco vezes em uma nuvem de fumaa e guinchou at parar no 
meio da estrada vicinal na base da Colina Meio-Sangue. Tyson soltou um enorme arroto. 
- Melhor agora. 
- Tudo bem - disse eu s Irms Cinzentas. - Agora me digam o que querem dizer aqueles nmeros. 
- No d tempo! - Annabeth abriu a porta. - Temos de sair agora. 
Eu ia perguntar por qu, quando ergui os olhos para a Colina Meio-Sangue e entendi. 
No topo da colina havia um grupo de campistas. E eles estavam sob ataque. 


#
QUATRO - Tyson brinca com fogo 
Mitologicamente falando, se existe uma coisa que eu odeio mais do que trios de velhas so touros. No 
ltimo vero, lutei com o Minotauro no topo da Colina Meio-Sangue. Dessa vez, o que vi l em cima era 
ainda pior: dois touros. E no touros comuns, apenas, mas touros de bronze, do tamanho de elefantes. E 
mesmo aquilo no era ruim o bastante.  claro que eles tambm tinham de soltar fogo. 
Assim que samos do txi, as Irms Cinzentas se safaram a toda rumo a Nova York, onde a vida era mais 
segura. Nem sequer esperaram pelo pagamento extra de trs dracmas. Simplesmente nos largaram  
beira da estrada, Annabeth com nada alm de sua mochila e a faca, Tyson e eu ainda com as roupas 
desbotadas de ginstica. 
- Ah, cus! - disse Annabeth, olhando para a batalha violenta na colina. 
O que mais me preocupou no foram os touros em si. Ou os dez heris de armadura de batalha completa, 
cujos traseiros de bronze estavam levando uma surra. O que me preocupava era que os touros estavam 
se movimentando por toda a colina, inclusive atrs do pinheiro. Aquilo no deveria ser possvel. As 
fronteiras mgicas do acampamento no permitiam que monstros passassem alm da rvore de Thalia. 
Mesmo assim os touros de metal estavam fazendo isso. 
Um dos heris gritou: 
- Patrulha de fronteira! Aqui! - Uma voz de menina... rouca e familiar. 
Patrulha de fronteira?, pensei. O acampamento no tinha patrulha de fronteira. 
-  Clarisse - disse Annabeth. - Venha, temos de ajud-la. 
Normalmente, correr para ajudar Clarisse no estaria no topo da minha lista de "coisas a fazer". Ela era 
uma das maiores encrenqueiras do acampamento. Na primeira vez que nos vimos ela tentou apresentar 
minha cabea a uma privada. Tambm era filha de Ares, e eu havia tido um desentendimento muito srio 
com o pai dela no ltimo vero; portanto, agora o Deus da Guerra e todos os seus filhos basicamente no 
iam com a minha cara. 
Ainda assim ela estava em dificuldades. Seus combatentes estavam se dispersando, correndo em pnico 
diante do ataque dos touros. A grama estava em chamas em grandes faixas em volta do pinheiro. Um 
heri gritava e agitava os braos enquanto corria em crculos, o enfeite de crina de cavalo em seu 
capacete ardendo como um cocar flamejante. A armadura da prpria Clarisse estava chamuscada. Ela 
lutava com um cabo de lana quebrada, a outra extremidade estava cravada inutilmente na junta metlica 
do ombro um dos touros. 
Tirei a tampa da minha caneta esferogrfica. Ela cintilou e foi ficando cada vez mais comprida e pesada 
at eu me ver segurando nas mos a espada de bronze Anaklusmos. 
- Tyson, fique aqui. No quero que se arrisque mais. 
- No!  disse Annabeth.  Precisamos dele. 
Olhei para ela. 
- Ele  mortal. Teve sorte com as bolas de queimado, mas ele no pode... 
- Percy, voc sabe o que  aquilo l em cima? Os touros de Colchis, feitos pelo prprio Hefesto. No 
podemos combat-los sem o Filtro Solar de Medeia, com fator de proteo 50 mil. Vamos ser queimados 
at virar torresmo. 


#
- O qu de Medeia? 
Annabeth revirou a mochila e praguejou. 
- Eu tinha um pote de essncia de coco tropical na minha cabeceira, em casa. Por que no trouxe comigo? 
Tinha aprendido muito tempo atrs a no fazer muitas perguntas a Annabeth. S me deixaria ainda mais 
confuso. 
- Olhe, eu no sei do que voc est falando, mas no vou permitir que Tyson seja frito. 
- Percy... 
- Tyson, fique aqui. - Ergui minha espada. - Vou entrar. 
Tyson tentou protestar, mas eu j estava correndo colina acima na direo de Clarisse, que gritava com 
sua patrulha, tentando organiz-la em formao de falange. Era uma boa idia. Os poucos que a ouviram 
formaram uma fileira ombro a ombro, encaixando seus escudos para forjar uma parede de couro e bronze, 
as lanas surgindo acima como cerdas de porco-espinho. 
Infelizmente, Clarisse s conseguiu reunir seis campistas. Os outros quatro ainda corriam em crculos com 
o capacete em chamas. Annabeth correu at eles, tentando ajudar. Provocou um dos touros para que a 
perseguisse e depois ficou invisvel, confundindo o monstro completamente. O outro touro investiu contra a 
linha de Clarisse. 
Eu estava a meio caminho colina acima - no era perto o bastante para ajudar. Clarisse ainda nem me 
vira. 
O touro se movimentava depressa demais para uma coisa to grande. A carcaa metlica brilhava ao sol. 
Tinha rubis do tamanho de punhos no lugar dos olhos e chifres de prata polida. Quando abria a boca 
articulada, uma coluna de chamas incandescentes era expelida. 
- Mantenham a linha! - ordenou Clarisse a seus guerreiros. 
Voc podia falar qualquer coisa sobre Clarisse, mas ela era corajosa. Era uma menina grande com olhos 
cruis como os do pai. Parecia ter nascido para usar uma armadura de batalha grega, mas at mesmo ela 
no me parecia capaz de resistir  investida daquele touro. 
Por azar, naquele momento, o outro touro perdeu o interesse em encontrar Annabeth. Virou-se e foi atrs 
de Clarisse, do seu lado desprotegido. 
- Atrs de voc! - gritei. - Cuidado! 
Eu no devia ter dito nada, porque tudo o que consegui foi assust-la. O Touro Nmero 1 colidiu contra o 
escudo dela e a falange se rompeu. Clarisse voou para trs e aterrissou em um pedao de gramado em 
chamas. O touro passou direto por ela, mas no sem antes atingir os outros heris com seu hlito de fogo. 
Os escudos derreteram instantaneamente em seus braos. Eles deixaram cair as armas e correram 
enquanto o Touro Nmero 2 se aproximava de Clarisse para o golpe final. 


Eu me adiantei e agarrei Clarisse pelos cordes da armadura. Arrastei-a para fora do caminho bem no 
momento em que o Touro Nmero 2 passava como um trem de carga. Dei-lhe um bom golpe com 
Contracorrente e abri um imenso talho numa de suas laterais, mas o monstro apenas rachou e soltou um 
mugido, e continuou avanando. 
A fera no me tocou, mas pude sentir o calor da sua pele de metal. A temperatura de seu corpo poderia 
ter cozido um burrito congelado. 


#
- Me solte! - Clarisse deu uma pancada na minha mo. - Percy, maldito! 
Deixei-a cair como um saco junto ao pinheiro e me virei para enfrentar os touros. Estvamos agora do 
outro lado da colina, com o vale do Acampamento Meio-Sangue logo abaixo. Os chals, as reas de 
treinamento, a Casa Grande - todos em perigo caso os touros passassem por ns. 
Annabeth bradou ordens para os outros heris, dizendo-lhes que se espalhassem e mantivessem os 
touros distrados. 
O Touro Nmero 1 fez uma curva bem aberta e comeou a voltar na minha direo. Ao passar pelo meio 
da colina, onde a linha invisvel da fronteira deveria t-lo detido, ele reduziu um pouco a velocidade, como 
se lutasse contra um vento forte; mas ento rompeu a barreira e continuou avanando. O Touro Nmero 2 
se virou para me enfrentar, com fogo crepitando no corte fundo que eu fizera em seu flanco. No sei dizer 
se sentiu alguma dor, mas seus olhos de rubi pareciam fixos em mim como se eu tivesse acabado de levar 
as coisas para o lado pessoal. 
Eu no podia lutar contra os dois touros ao mesmo tempo. Teria de derrubar o Touro Nmero 2 primeiro e 
cortar sua cabea antes que o Touro Nmero 1 investisse de novo, at ficar ao meu alcance. Eu j sentia 
os braos cansados. Percebi quanto tempo passara desde a ltima vez que treinara com Contracorrente, e 
como perdera a prtica. 
Ataquei, mas o Touro Nmero 2 lanou chamas contra mim. Rolei para o lado enquanto o ar se 
transformava em puro calor. Todo o oxignio foi sugado de meus pulmes. Meu p se prendeu em alguma 
coisa - uma raiz de rvore, talvez - e a dor subiu por meu tornozelo. Ainda assim, consegui desferir um 
golpe com a espada e decepei um pedao do focinho do monstro. Ele se afastou galopando, fora de 
controle e desorientado. Mas, antes que eu pudesse me sentir muito satisfeito com aquilo, tentei ficar de p 
e minha perna esquerda fraquejou. O tornozelo estava torcido, talvez quebrado. 
O Touro Nmero 1 investiu na minha direo. No havia como me arrastar para fora do seu caminho. 
Annabeth gritou: 
- Tyson, ajude-o! 
Em algum lugar por perto, na direo do topo da colina, Tyson lamentou-se: 
- No... posso... atravessar! 
- Eu, Annabeth Chase, lhe dou permisso para entrar no acampamento! 
Uma trovoada sacudiu a encosta. De repente, Tyson estava l, disparando em minha direo e gritando: 
- Percy precisa de ajuda! 
Antes que eu pudesse dizer que no, Tyson se jogou entre mim e touro bem quando ele soltou uma 
erupo de fogo nuclear. 
- Tyson! - gritei. 
A exploso rodopiou em volta dele como um tornado vermelho. S consegui ver a silhueta negra de seu 
corpo. Soube com uma terrvel certeza que meu amigo acabara de se transformar em uma coluna de 
cinzas. 
Mas, quando o fogo diminuiu, Tyson ainda estava l, de p, praticamente ileso. Nem mesmo suas roupas 
surradas foram chamuscadas. O touro deve ter ficado to surpreso quanto eu, porque antes que pudesse 
exalar uma segunda erupo Tyson cerrou os punhos e golpeou a cara dele. 


#
- VACA MALVADA. 
Seus punhos abriram uma cratera no lugar onde estaria o focinho do touro. Duas pequenas colunas de 
fogo irromperam dos ouvidos. Tyson acertou-o de novo e amassou o bronze sob suas mos como papel-
alumnio. A cabea do touro agora parecia um boneco de meia virado do avesso. 
- No cho! - berrou Tyson. 
O touro cambaleou e caiu de costas. As pernas balanaram debilmente no ar, o vapor escapando pela 
cabea e outros lugares esquisitos. 
Annabeth correu para ver como eu estava. 
Meu tornozelo parecia estar cheio de cido, mas ela me deu um pouco do nctar do Olimpo em seu cantil 
e imediatamente comecei a me sentir melhor. Havia um cheiro de queimado que depois percebi que vinha 
de mim. Os pelos em meus braos tinham ficado completamente chamuscados. 
- E o outro touro? - perguntei. 
Annabeth apontou colina abaixo. Clarisse tinha cuidado da Vaca Malvada Nmero 2. Ela a empalara pela 
pata traseira com uma lana de bronze celestial. Com o focinho semidestrudo e um enorme talho no 
flanco, o bicho tentava correr em cmara lenta, andando em crculos como algum tipo de animal de 
carrossel. 
Clarisse tirou o capacete e marchou em nossa direo. Uma mecha do seu cabelo castanho fibroso estava 
fumegando, mas ela parecia nem notar. 
Voc estragou tudo! - berrou ela para mim. - Eu tinha tudo sob controle! 
Eu estava atordoado demais para responder. Annabeth resmungou: 
- Bom ver voc tambm, Clarisse. 
- Argh! - gritou Clarisse. - Nunca, NUNCA tente me salvar de novo! 
- Clarisse - disse Annabeth -, voc tem alguns campistas feridos. 
Aquilo a fez cair era si. At mesmo Clarisse se preocupava com os soldados sob seu comando. 
- Eu vou voltar - rosnou ela, e depois se afastou pesadamente para avaliar os danos. 
Olhei para Tyson. 
- Voc no morreu. 
Tyson baixou os olhos como se estivesse com vergonha. 
- Desculpe-me. Vim ajudar. Desobedeci a voc. 
- Culpa minha - disse Annabeth. - No tive escolha. Eu tinha de deixar Tyson cruzar a fronteira para salv-
lo. Caso contrrio, voc teria morrido. 
- Deix-lo cruzar a fronteira? - perguntei. - Mas... 
- Percy - disse ela -, voc j olhou para Tyson com ateno? Quer dizer... para seu rosto. Ignorar a Nvoa 
e realmente olhar para ele. 


#
A Nvoa faz os seres humanos verem apenas o que seu crebro pode processar... Eu sabia que ela podia 
enganar semideuses tambm, mas... 
Olhei para o rosto de Tyson. No foi fcil. Sempre tive dificuldade de olhar diretamente para ele, embora 
nunca tivesse entendido muito bem por qu. Achava que era s porque sempre havia manteiga de 
amendoim nos seus dentes tortos. Forcei-me a focalizar seu nariz grande e sem jeito, depois, um pouco 
mais acima, seus olhos. 
No, no olhos. 
Um olho. Um grande olho, castanho-bezerro, bem no meio da testa, com clios grossos e grandes lgrimas 
escorrendo pelas bochechas dos dois lados. 
- Tyson - gaguejei. - Voc  um... 
- Ciclope - sugeriu Annabeth. - Um beb, a julgar pela aparncia. Provavelmente foi por isso que ele no 
conseguiu atravessar a fronteira como os touros. Tyson  um dos rfos sem-teto. 
- Um dos qu? 
- Eles esto em quase todas as grandes cidades - disse Annabeth, de um jeito desagradvel. - So... 
erros, Percy. Filhos de espritos da natureza e deuses... Bem, normalmente, um deus em particular... e 
nem sempre so perfeitos. Ningum os quer. Eles so jogados de lado. Crescem nas ruas, sozinhos. No 
sei como esse o encontrou, mas ele obviamente gosta de voc. Devemos lev-lo a Quron e deixar que ele 
decida o que fazer. 
- Mas o fogo. Como... 
- Ele  um ciclope. - Annabeth fez uma pausa, como se estivesse se lembrando de algo desagradvel. - Eles 
operam as forjas dos deuses. Precisam ser imunes ao fogo.  o que eu vinha tentando lhe dizer. 
Eu estava completamente chocado. Como nunca percebera o que Tyson era? 
Mas eu no tinha muito tempo para pensar nisso naquele momento. Toda a encosta da colina estava em 
chamas. Heris feridos precisavam de ateno. E ainda havia dois touros derrubados para descartar, e eu 
no fazia idia de como eles iriam caber nas nossas caambas normais de lixo reciclvel. 
Clarisse voltou e limpou a fuligem da testa. 
- Jackson, se voc puder agentar, levante-se. Precisamos carregar os feridos de volta para a Casa 
Grande e informar a Tntalo o que aconteceu. 
- Tntalo? - perguntei. 
- O diretor de atividades - disse Clarisse, impaciente. 
- O diretor de atividades  Quron. E onde est Argos? Ele  o encarregado da segurana. Devia estar 
aqui. 
Clarisse fez uma cara amarga. 
- Argos foi despedido. Vocs dois estiveram afastados por muito tempo. As coisas esto mudando. 
- Mas, Quron... Ele treina garotos para combater monstros h mais de trs mil anos. No pode ter 
simplesmente ido embora. O que aconteceu? 
- Aquilo aconteceu - disparou Clarisse. 

#
 Ela apontou para a rvore de Thalia. 
Todos os campistas conheciam a histria da rvore. Seis anos antes, Grover, Annabeth e dois outros 
semideuses chamados Thalia e Luke chegaram ao Acampamento Meio-Sangue perseguidos por um 
exrcito de monstros. Quando se viram acuados no topo da colina, Thalia, filha de Zeus, montou 
resistncia ali, para dar tempo aos amigos de alcanar a segurana. Quando ela estava morrendo. Zeus 
se apiedou e a transformou em um pinheiro. Seu esprito reforou as fronteiras mgicas do acampamento, 
protegendo-o de ministros. O pinheiro estava l desde ento, forte e saudvel. 
Mas agora suas folhas estavam amarelas. Uma enorme pilha de folhas mortas se acumulava na base da 
rvore. No centro do tronco, a um metro do cho, havia uma perfurao do tamanho de um buraco de 
bala, gotejando seiva verde. 
O gelo cortou meu peito. Agora eu entendia por que o acampamento estava em perigo. As fronteiras 
mgicas estavam falhando porque a rvore de Thalia estava morrendo. 
Algum a envenenara. 


#
CINCO - Meu novo companheiro de chal 
Alguma vez voc j chegou em casa e encontrou seu quarto todo bagunado? Como se alguma pessoa 
prestimosa (oi, mame!) tivesse tentado "arrum-lo" e, de repente, voc no conseguisse encontrar mais 
nada? E, mesmo que nada esteja faltando, tem aquela sensao arrepiante de que algum andou olhando 
suas coisas e limpando tudo com lustra-mveis que cheira a limo? 
Foi esse tipo de coisa que senti ao ver o Acampamento Meio-Sangue de novo. 
Na superfcie, nada parecia assim to diferente. A Casa Grande ainda estava l com seu telhado azul e 
sua varanda em toda a volta. Os campos de morangos ainda se aqueciam ao Sol. Os mesmos prdios 
com colunas gregas brancas se espalhavam pelo vale - o anfiteatro, a arena de combates, o pavilho-
refeitrio que d para o estreito de Long Island. E, aninhados entre os bosques e o riacho, os mesmos 
chals - um sortimento maluco de doze prdios, cada qual representando um deus olimpiano diferente. 
Mas agora havia uma atmosfera de perigo. 
Dava para perceber que alguma coisa estava errada. Em vez de jogar vlei na quadra de areia, 
conselheiros e stiros armazenavam armas no galpo de ferramentas. Drades armadas de arcos e 
flechas conversavam, nervosas, no limite dos bosques. A floresta parecia doente; a grama na campina 
tinha um tom plido de amarelo, e as marcas do fogo na Colina Meio-Sangue se destacavam como feias 
cicatrizes. 
Algum tinha bagunado meu lugar favorito em todo o mundo, e eu no era... bem, um campista feliz. 
Enquanto caminhvamos para a Casa Grande, reconheci uma poro de campistas do ltimo vero. 
Ningum parou para conversar. Ningum disse: "Sejam bem-vindos de volta." Alguns olharam duas vezes 
quando viram Tyson, mas a maior parte simplesmente passou de cara fechada e seguiu em frente, 
cumprindo seus deveres - levando mensagens, carregando espadas para afiar nas pedras de amolar. O 
acampamento parecia uma escola militar. E, acredite, eu as conheo. Fui expulso de algumas. 
Nada disso importava para Tyson. Ele estava absolutamente fascinado com tudo o que via. 
- O que  aquilo? - ele se espantava. 
- Estbulos para pgasos - disse eu. - Os cavalos alados. 
- O que  aquilo? 
- Hum... aquilo so os banheiros. 
- O que  aquilo? 
- Os chals dos campistas. Se no sabem quem  seu pai olimpiano, voc  deixado no chal de 
Hermes... aquele marrom logo ali... at que se descubra. Ento, quando j sabem, juntam-no ao grupo de 
seu pai, ou de sua me. 
Ele olhou para mim abismado. 
- Voc... tem um chal? 
- O nmero 3. - Apontei para uma construo cinzenta e baixa feita de pedras do mar. 
- Voc mora com amigos no chal? 


#
- No. No, fico sozinho. - No estava com vontade de explicar. A verdade embaraosa: eu era o nico 
naquele chal porque supostamente no deveria estar vivo. Os "Trs Grandes" deuses - Zeus, Poseidon e 
Hades - tinham feito um pacto depois da Segunda Guerra Mundial para no ter mais filhos com mortais. 
Ns ramos mais poderosos que os meios-sangues normais. E imprevisveis demais. Quando ficvamos 
zangados, tendamos a causar problemas... como a Segunda Guerra Mundial, por exemplo. O pacto dos 
"Trs Grandes" s tinha sido quebrado duas vezes - quando Zeus gerou Thalia e quando Poseidon me 
gerou. Nenhum de ns devia ter nascido. 
Thalia acabou transformada em um pinheiro quando tinha doze anos. Eu... bem, eu estava fazendo o 
melhor possvel para no seguir o exemplo dela. Tinha pesadelos s de pensar no que Poseidon poderia 
me transformar se algum dia eu estivesse  beira da morte - plncton, quem sabe. Ou um agrupamento 
flutuante de algas marinhas. 
Quando chegamos  Casa Grande, encontramos Quron em seu alojamento, ouvindo suas msicas 
favoritas da dcada de 1960 enquanto arrumava seus alforjes. Acho que devo mencionar - Quron  um 
centauro. Da cintura para cima parece um sujeito comum, de meia-idade, com cabelo castanho 
encaracolado e barba desarrumada. Da cintura para baixo,  um corcel branco. Consegue passar por ser 
humano apertando sua metade inferior em uma cadeira de rodas mgica. De fato, ele se passou por meu 
professor de latim na sexta srie. Mas na maior parte do tempo, se os tetos forem bastante altos, ele 
prefere circular em sua forma plena de centauro. 
Assim que o vimos, Tyson ficou paralisado. 
- Pnei! - exclamou, totalmente extasiado. 
Quron se voltou, parecendo ofendido. 
- Como disse? 
Annabeth e eu subimos correndo e o abraamos. 
- Quron, o que est acontecendo? No est... indo embora? - A voz dela estava trmula. Quron era como 
seu segundo pai. 
Quron despenteou o cabelo de Annabeth e lhe deu um sorriso bondoso. 
- Ol, criana. E Percy, ora vejam! Voc cresceu esse ano! 
Engoli em seco. 
- Clarisse disse que voc foi... foi... 
- Despedido. - Os olhos de Quron brilharam com um humor soturno. - Ah, bem, algum tinha de levar a 
culpa. O Senhor Zeus ficou muito aborrecido. A rvore que ele criou do esprito de sua filha foi 
envenenada! O sr. D precisava punir algum. 
- Quer dizer: se no fosse ele - resmunguei. S de pensar no diretor do acampamento, sr. D, eu fiquei 
irritado. 
- Mas isso  loucura! - exclamou Annabeth. - Quron, voc no poderia ter nada a ver com o 
envenenamento da rvore de Thalia! 
- Apesar disso - suspirou Quron -, alguns no Olimpo no confiam em mim agora, dadas as circunstncias. 
- Que circunstncias? - perguntei. 


#
O rosto de Quron se anuviou. Ele enfiou um dicionrio latim-ingls no alforje enquanto a msica de Frank 
Sinatra soava no micro system. 
Tyson ainda olhava para Quron, encantado. Choramingou como se quisesse acariciar Quron, mas 
tivesse medo de chegar mais perto. 
- Pnei? 
Quron respirou fundo. 
- Meu caro jovem ciclope! Eu sou um centauro. 
- Quron - falei. - E a rvore? O que aconteceu? 
Ele sacudiu a cabea com tristeza. 
- O veneno usado no pinheiro de Thalia  algo do Mundo Inferior, Percy. Alguma peonha que eu nunca 
tinha visto. Deve ter vindo de um monstro da profundeza dos abismos de Trtaro. 
- Ento sabemos quem  o responsvel. Cro... 
- No invoque o nome do tit, Percy. Especialmente, no aqui, e no agora. 
- Mas no ltimo vero ele tentou causar uma guerra civil no Olimpo! Isso tem de ser idia dele. Ele 
convenceu Luke a fazer aquilo, aquele traidor. 
- Talvez - disse Quron. - Mas infelizmente estou sendo responsabilizado porque no evitei que 
acontecesse e no consigo cur-la. A rvore tem apenas algumas semanas de vida, a no ser... 
- A no ser o qu? - perguntou Annabeth. 
- No - disse Quron. - Um pensamento tolo. O vale inteiro est sentindo o choque do veneno. As 
fronteiras mgicas esto se deteriorando. O prprio acampamento est morrendo. S uma fonte de 
mgica seria forte o bastante para anular o veneno, e ela foi perdida sculos atrs. 
- O que ? - perguntei. - Ns vamos encontr-la! 
Quron fechou seu alforje. Apertou o boto stop do seu som. 
Ento se virou e pousou a mo em meu ombro, olhando-me bem nos olhos. 
- Percy, voc tem de me prometer que no vai agir precipitadamente. Disse  sua me que no queria que 
voc viesse para c neste vero.  perigoso demais. Mas agora que est aqui, fique aqui. Treine muito. 
Aprenda a lutar. Mas no v embora. 
- Por qu? - perguntei. - Quero fazer alguma coisa! No posso simplesmente deixar todas as fronteiras 
carem por terra. O acampamento inteiro ser... 
- Invadido por monstros - disse Quron. - Sim,  o que temo. Mas voc no deve se deixar tentar por 
alguma ao impensada! Isso pode ser uma armadilha do senhor dos tits. Lembre-se do ltimo vero! Ele 
quase tirou sua vida. 


Era verdade, mas ainda assim eu queria muito ajudar. Tambm queria fazer Cronos pagar. Quer dizer, era 
de esperar que o senhor dos tits tivesse aprendido suas lies eras atrs, quando foi derrubado pelos 
deuses. Era de esperar que ser picado em um milho de pedacinhos e jogado na parte mais escura do 
Mundo Inferior lhe desse uma dica sutil de que ningum o queria por perto. Mas no. Como ele era imortal, 
ainda estava vivo l embaixo no Trtaro - sofrendo a dor eterna, faminto por retornar e se vingar do 

#
Olimpo. No podia agir sozinho, mas era muito bom em distorcer a mente de mortais, e at de deuses, 
para que fizessem seu trabalho sujo. 
O envenenamento tinha de ser coisa dele. Quem mais seria to baixo a ponto de atacar a rvore de 
Thalia, a nica coisa que restara de uma herona que dera a vida para salvar seus amigos? 
Annabeth estava se esforando muito para no chorar. Quron enxugou uma lgrima da bochecha dela. 
- Fique com Percy, criana - disse ele. - Cuide para que ele fique seguro. A profecia... lembre-se dela! 
- Eu... eu vou fazer isso. 
- Hum... - falei. - A profecia que tem relao comigo, mas que os deuses os proibiram de me contar? 
Ningum respondeu. 
- Certo - resmunguei. - S confirmando. 
- Quron... - disse Annabeth. - Voc me contou que os deuses o fizeram imortal somente enquanto voc 
fosse necessrio para treinar heris. Se eles o demitem do acampamento... 
- Jure que far o melhor que puder para manter Percy afastado do perigo - insistiu ele. - Jure pelo rio Styx. 
- Juro... juro pelo rio Styx - disse Annabeth. 
Trovejou do lado de fora. 
- Muito bem - disse Quron. Ele pareceu um pouquinho mais relaxado. - Talvez meu nome seja limpo, e eu 
retorne. At l, vou visitar meus parentes selvagens, em Everglades.  possvel que eles saibam de algum 
tratamento que eu tenha esquecido para a rvore envenenada. De qualquer modo, ficarei no exlio at que 
esse assunto seja resolvido... de um jeito ou de outro. 
Annabeth sufocou um soluo. Quron lhe deu umas palmadinhas desajeitadas no ombro. 
- Vamos, vamos, criana. Preciso confiar sua segurana ao sr. D e ao novo diretor de atividades. 
Precisamos ter esperanas... bem, talvez eles no destruam o acampamento to depressa quanto temo. 
- Afinal, quem  esse tal de Tntalo? - perguntei. - O que ele quer tomando seu emprego? 
Uma trombeta de concha soou pelo vale. Eu no tinha percebido como era tarde. Era hora de os 
campistas se reunirem para o jantar. 
- Vo - disse Quron. - Vocs o encontraro no pavilho. Vou entrar em contato com sua me, Percy, e 
avis-la de que voc est em segurana. Sem dvida, ela deve estar preocupada a essa altura. S no se 
esquea do meu aviso! Voc corre grave perigo. No pense nem por um momento que o senhor dos tits 
o esqueceu! 
Com isso, ele saiu do apartamento batendo os cascos e desceu para o vestbulo, enquanto Tyson gritava 
atrs dele: 
- Pnei! No v! 
Percebi que tinha esquecido de contar a Quron sobre meu sonho com Grover. Era tarde demais. O 
melhor professor que j tivera se fora, talvez para sempre. 
Tyson comeou a chorar alto, quase tanto quanto Annabeth. 


#
Tentei lhe dizer que ia dar tudo certo, mas eu no acreditava nisso. 
***** 
Sol estava se pondo atrs do pavilho de refeies quando os campistas vieram de seus chals. Ficamos 
na sombra de uma coluna de mrmore e observamos enquanto eles entravam em fila. Annabeth ainda 
estava bastante abalada, mas prometeu que conversaria conosco mais tarde. Foi ento se juntar a seus 
irmos do chal de Atena - uma dzia de meninos e meninas de cabelos loiros e olhos cinzentos como os 
dela. Annabeth no era a mais velha, mas passara ali mais veres do que quase todos os outros. Era 
possvel perceber isso s de olhar para o seu colar do acampamento - uma conta para cada vero, e 
Annabeth tinha seis. Ningum questionava seu direito de liderar a fila. 
A seguir veio Clarisse, liderando o chal de Ares. Estava com o brao na tipia e um corte feio na 
bochecha, mas, a no ser por isso, o encontro com os touros de bronze no parecia t-la intimidado. 
Algum prendera com fita adesiva um pedao de papel nas costas dela, que dizia: VOC MUGE, 
MENINA! Mas ningum de seu chal se deu o trabalho de avis-la. 
Depois das crianas de Ares veio o chal de Hefesto - seis caras liderados por Charles Beckendorf, um 
garoto grande de quinze anos, afro-americano. Tinha mos do tamanho de luvas de beisebol e um rosto 
duro e estrbico de tanto olhar para dentro de uma forja de ferreiro o dia inteiro. Ele era bem simptico 
depois que voc o conhecia, mas ningum jamais o chamava de Charlie, Chuck ou Charles. A maioria s 
o chamava de Beckendorf. Dizia-se que ele era capaz de fazer qualquer coisa. Era s lhe dar um pedao 
de metal e ele poderia criar uma espada afiada como navalha, um guerreiro robtico ou uma banheira de 
passarinho musical para o jardim da sua av. O que a gente quisesse. 
Os outros chals foram entrando em fila: Dmeter, Apolo, Afrodite, Dioniso. As niades emergiram do lago 
de canoagem. As drades surgiram das rvores. Da campina veio uma dzia de stiros, que me fizeram 
lembrar de Grover com aflio. 
Sempre tive um fraco pelos stiros. Quando estavam no acampamento, serviam como os quebra-galhos 
do sr. D, o diretor, mas seu trabalho mais importante era l fora, no mundo real. Eles eram os olheiros do 
acampamento. Entravam disfarados em escolas do mundo inteiro, procurando possveis meios-sangues, 
e os escoltavam para o acampamento. Foi como conheci Grover. Ele foi o primeiro a reconhecer que eu 
era um semideus. 
Depois que os stiros entraram para jantar, o pessoal do chal de Hermes veio por ltimo. Era sempre o 
maior chal. No ltimo vero, foi liderado por Luke, o cara que tinha lutado com Thalia e Annabeth no topo 
da Colina Meio-Sangue. Por algum tempo, antes de Poseidon me reclamar, eu me alojei no chal de 
Hermes. Luke se tornou meu amigo... e depois tentou me matar. 
Agora o chal de Hermes era liderado por Travis e Connoi Stoll. Eles no eram gmeos, mas eram to 
parecidos que isso no importava. Nunca conseguia lembrar qual era o mais velho. Ambos eram altos e 
magros, com os cabelos castanhos caindo nos olhos. Usavam camisetas laranja do ACAMPAMENTO 
MEIO-SANGUE por cima de shorts folgados, e tinham aquelas feies de elfo de todos os meninos de 
Hermes: sobrancelhas arqueadas, sorriso sarcstico e um brilho nos olhos sempre que fitavam voc - 
como se estivessem prestes a jogar uma bombinha dentro de sua camisa. Sempre achei engraado que o 
deus dos ladres tivesse filhos com o sobrenome "Stoll", que lembra a palavra "roubou" em ingls, mas na 
nica vez que mencionei isso a Travis e Connor eles me olharam com cara de paisagem, como se no 
tivessem entendido a piada. 
Assim que os ltimos campistas entraram, levei Tyson at o meio do pavilho. As conversas se 
interromperam. Cabeas se viraram. 
- Quem convidou aquilo? - murmurou algum na mesa de Apolo. 
Olhei furiosamente na direo deles, mas no consegui discerni quem havia falado. 


#
Da mesa principal, veio uma voz arrastada, familiar. 
- Ora, ora, ora, se no  Peter Jackson! O meu milnio est completo. 
Trinquei os dentes. 
- Percy Jackson... senhor. 
O sr. D tomou um gole da sua Diet Coke. 
- Sim. Bem, como vocs jovens hoje em dia, tanto faz. 
Ele usava a camisa de sempre, havaiana com estampa de leopardo, bermuda e tnis com meias pretas. A 
barriga protuberante e a cara vermelha e manchada o faziam parecer um turista de Las Vegas que ficara 
acordado at tarde nos cassinos. Atrs dele, um stiro que parecia nervoso tirava as cascas das uvas e as 
entregava ao sr. D, uma de cada vez. 
O verdadeiro nome do sr. D  Dioniso. O deus do vinho. Zeus o nomeou diretor do Acampamento Meio-
Sangue para ficar abstmio por cem anos - um castigo por paquerar uma ninfa proibida dos bosques. 
Ao lado dele, onde normalmente se sentava Quron (ou ficava em p, na forma de centauro), havia algum 
que eu nunca vira - um homem plido e terrivelmente magro usando um macaco laranja de prisioneiro. 
O nmero acima do bolso era 0001. Ele tinha sombras azuis debaixo dos olhos, unhas sujas e cabelo 
grisalho malcortado, como se seu ltimo corte de cabelo tivesse sido feito com um cortador de grama. Ele 
olhou para mim; seus olhos me deixaram nervoso. Ele parecia... em frangalhos. Zangado, frustrado e 
esfomeado, tudo ao mesmo tempo. 
- Esse menino - disse-lhe Dioniso -, precisa ficar de olho nele. Filho de Poseidon, voc sabe. 
- Ah! - disse o prisioneiro. - Aquele. 
Seu tom deixou bvio que ele e Dioniso j haviam conversado extensamente sobre mim. 
- Eu sou Tntalo - disse o prisioneiro, sorrindo friamente. 
- Em misso especial aqui, bem, at que o meu senhor Dioniso decida outra coisa. Quanto a voc, Perseu 
Jackson, realmente espero que evite causar mais problemas. 
- Problemas? - perguntei. 
Dioniso estalou os dedos. Um jornal apareceu sobre a mesa - a primeira pgina do New York Post 
daquele dia. Trazia minha fotografia do anurio do colgio Meriwether. Era difcil para mim distinguir a 
manchete, mas eu tinha um bom palpite do que dizia. Algo como: Maluco de Treze Anos Toca Fogo em 
Ginsio. 
- Sim, problemas - disse Tntalo com satisfao.  Voc causou um bocado deles no ltimo vero, pelo 
que sei. 
Fiquei zangado demais para falar. Como se fosse culpa minha que os deuses quase tivessem entrado 
numa guerra civil. 
Um stiro avanou, tenso, e ps um prato de churrasco na frente de Tntalo. O novo diretor de atividades 
lambeu os beios. Olhou para sua taa vazia e disse: 
- Cerveja preta. Reserva especial da Barqs, 1967. 
O copo se encheu sozinho de um lquido espumante. Tntalo esticou a mo em dvida, como se tivesse 
medo de que a taa estivesse quente. 

#
 - V em frente, meu velho - disse Dioniso, com um brilho estranho nos olhos. -Talvez agora funcione. 
Tntalo tentou agarrar o copo, mas ele escapuliu rapidamente mies que pudesse toc-lo. Algumas gotas 
de cerveja preta transbordaram, e Tntalo tentou recolh-las com os dedos, mas as gotas deslizaram para 
longe, como se fossem de mercrio, antes que as alcanasse. Ele gemeu e se virou para o prato de 
churrasco. Pegou um garfo e tentou espetar um pedao de peito, mas o prato deslizou at a extremidade 
da mesa e saiu voando direto para os carves do braseiro. 
- Droga! - resmungou Tntalo. 
- Ah! que pena... - disse Dioniso com a voz que transbordava falsa solidariedade. - Talvez daqui a alguns 
dias. Acredite-me, meu velho, trabalhar neste acampamento j vai ser tortura suficiente. Tenho certeza de 
que sua velha maldio, mais dia, menos dia, vai acabar. 
- Mais dia, menos dia - murmurou Tntalo, olhando para Diet Coke de Dioniso. - Voc tem idia de como a 
garganta de uma pessoa fica seca depois de mil anos? 
- Voc  aquele esprito dos Campos de Punio - disse eu. Aquele que fica em p na lagoa, com a rvore 
frutfera logo acima, mas no pode comer nem beber. 
Tntalo arreganhou um sorriso sarcstico para mim. 
- Voc  um verdadeiro erudito, no , menino? 
- Deve ter feito alguma coisa realmente horrvel quando estava vivo - falei, um pouco impressionado. - O 
que foi? 
Os olhos de Tntalo se estreitaram. Atrs dele, os stiros sacudiam a cabea vigorosamente, tentando me 
alertar. 
- Vou ficar de olho em voc, Percy Jackson - disse Tntalo. - No quero problemas no meu acampamento. 
- Seu acampamento j tem problemas... senhor. 
- Ah! v se sentar, Johnson - suspirou Dioniso. - Acho que aquela mesa ali  a sua... aquela em que 
ningum mais quer se sentar. 
Meu rosto estava queimando, mas eu sabia que era melhor no reagir. Dioniso era uma criana grande, 
mas uma criana grande imortal e superpoderosa. Eu disse: 
- Vamos, Tyson. 
- Ah! no - disse Tntalo. - O monstro fica aqui. Vamos decidir o que fazer com isso. 
- Com ele - disparei. - Seu nome  Tyson. 
O novo diretor de atividades ergueu uma sobrancelha. 
- Tyson salvou o acampamento - insisti. - Ele esmagou aqueles touros de bronze. Se no fosse isso, eles 
teriam queima este lugar inteiro. 
- Sim - suspirou Tntalo -, e que lamentvel teria sido. 
Dioniso deu uma risadinha. 
- Deixe-nos - ordenou Tntalo - enquanto decidimos destino da criatura. 

#
 Tyson olhou para mim com medo em seu nico e grande olho, mas eu sabia que no poderia desobedecer 
a uma ordem direta dos diretores do acampamento. Pelo menos, no abertamente. 
- Vou estar logo ali, grando - prometi. - No se preocupe. Vamos achar um lugar legal para voc dormir 
esta noite. 
Tyson assentiu. 
- Acredito em voc. Voc  meu amigo. 
Eu me senti ainda mais culpado. 
Arrastei-me at a mesa de Poseidon e despenquei no banco, uma ninfa dos bosques me levou um prato 
de pizza olimpiana de azeitonas e pepperoni, mas eu no estava com fome. Quase fui morto duas vezes 
naquele dia. Tinha conseguido terminar o ano letivo com um desastre completo. O Acampamento Meio-
Sangue estava em srias dificuldades e Quron me dissera para no fazer nada a esse respeito. 
Eu no me sentia muito agradecido, mas levei meu jantar at o brazeiro de bronze, como era costume, e 
joguei parte dele nas chamas. 
- Poseidon - murmurei -, aceite minha oferenda. 
E me mande alguma ajuda enquanto isso, rezei em silncio. Por favor. 
A fumaa da pizza queimada se transformou em algo fragrante  o cheiro de uma leve brisa martima 
misturado com perfume de flores -, mas eu no sabia muito bem se aquilo significava que meu pai 
realmente ouvia. 
Voltei para meu lugar. No achava que a situao pudesse piorar muito. Mas ento Tntalo mandou um 
dos stiros tocar a trombeta de concha para chamar nossa ateno para os avisos. 
- Sim, muito bem - disse Tntalo depois que as conversas silenciaram. - Mais uma bela refeio! Ou, ao 
menos,  o que me disseram. - Enquanto falava, aproximava a mo do prato de jantar reabastecido, como 
se, quem sabe, a comida no fosse notar o que de estava fazendo. Mas notou. O prato disparou pela 
mesa assim que a mo dele chegou a uma distncia de quinze centmetros. 
- E aqui, no primeiro dia do meu mandato - continuou -, gostaria de dizer que agradvel forma de punio 
 estar aqui. Ao longo do vero, eu espero torturar, digo, interagir com cada um de vocs, crianas. Todos 
parecem prontos para comer. 
Dioniso bateu palmas educadamente, puxando alguns aplausos desanimados dos stiros. Tyson ainda 
estava plantado junto  mesa principal, aparentemente desconfortvel, mas toda vez que tentava escapar 
do centro das atenes Tntalo o puxava de volta. 
- E agora, algumas mudanas! - Tntalo deu um sorriso torto para os campistas. - Estamos reinstituindo 
as corridas de bigas! 
Murmrios irromperam em todas as mesas - agitao, medo, incredulidade. 
- Agora eu sei - continuou Tntalo, levantando a voz - que essas corridas foram suspensas h alguns 
anos devido a, ahn... problemas tcnicos. 
- Trs mortes e vinte e seis mutilaes - gritou algum da mesa de Apoio. 


#
- Sim, sim! - disse Tntalo. - Mas sei que todos vocs vo se juntar a mim para dar as boas-vindas ao 
retorno dessa tradio do acampamento. Louros de ouro sero entregues aos vencedores todos os 
meses. As equipes podem se registrar pela manh! A primeira corrida acontecer dentro de trs dias. 
Vamos liber-lo da maior parte de suas atividades costumeiras para que preparem as bigas e escolham 
seus cavalos. Ah! e cheguei a mencionar que a equipe do chal vitorioso ser dispensada das obrigaes 
dirias no ms em que vencer? 
Uma exploso de conversas animadas - sem trabalho na cozinha um ms inteiro? Sem limpeza de 
estbulos? Ele estava falando srio? 
Ento a ltima pessoa de quem eu esperava uma objeo fez objeo. 
- Mas, senhor! - disse Clarisse. Ela parecia nervosa, mas ficou em p para falar da mesa de Ares. Alguns 
dos campistas riram ao verem o cartaz .VOC MUGE, MENINA.. nas costas dela. - E o servio de 
patrulha? Quer dizer, se abandonarmos tudo para preparar nossas bigas... 
- Ah! a herona do dia - exclamou Tntalo. - A corajosa Clarisse, que sozinha derrotou os touros de 
bronze! 
Clarisse piscou, depois corou. 
- Ahn, eu no... 
- E modesta tambm - sorriu Tntalo. - No se preocupe querida! Isto  um acampamento de vero. 
Estamos aqui para nos divertir, certo? 
- Mas a rvore... 
- E agora - disse Tntalo enquanto diversos companheiros chal de Clarisse a puxavam de volta para o 
banco -, antes que passemos  fogueira e  cantoria, uma pequena questo domstica: Percy Jackson 
e Annabeth Chase julgaram apropriado, por alguma razo, trazer aqui isto. - Tntalo acenou a mo para 
Tyson. 
Um murmrio desconfortvel se espalhou entre os campistas. Vrias pessoas me olharam de lado. Tive 
vontade de matar Tntalo. 
- Agora,  claro - disse ele -, os ciclopes tm reputao de ser monstros sanguinrios com uma 
capacidade cerebral muito pequena em circunstncias normais, eu soltaria essa besta-fera nos bosques e 
mandaria vocs em seu encalo com tochas e pedaos paus. Mas, quem sabe? Talvez este ciclope no 
seja to horrvel quanto seus irmos. At que ele prove ser digno de destruio, precisamos de um lugar 
para mant-lo! Pensei nos estbulos, mas isso deixaria os cavalos nervosos. Quem sabe o chal de 
Hermes? Silncio na mesa de Hermes. Travis e Connor Stoll de repente ficaram muito interessados na 
toalha de mesa. Eu no poderia culp-los. O chal de Hermes estava sempre cheio a ponto de arrebentar. 
No havia como abrigar um ciclope de um metro e noventa. 
- Vamos, vamos - caoou Tntalo. - O monstro pode realizar algumas tarefas domsticas. Alguma 
sugesto sobre onde esta besta-fera deve ser recolhida? 
De repente todos ficaram boquiabertos. 
Tntalo afastou-se bruscamente de Tyson, surpreso. Tudo o que pude fazer foi olhar incrdulo para a luz 
verde brilhante que estava prestes a mudar minha vida - uma impressionante imagem hologrfica que 
apareceu acima da cabea de Tyson. 
Com um n de enjo no estmago, lembrei-me do que Annabeth dissera sobre os ciclopes: Eles so filhos de 
espritos da natureza e deuses... Bem, normalmente, um deus em particular... 


#
Rodopiando acima de Tyson havia um reluzente tridente verde - o mesmo smbolo que aparecera sobre 
mim no dia em que Poseidon me reclamou como seu filho. 
Houve um momento de silncio reverente. 
Ser reclamado era um evento raro. Alguns campistas aguardavam a vida inteira em vo. Quando fui 
reclamado por Poseidnii no ltimo vero, todos se ajoelharam respeitosamente. Mas ali eles seguiram o 
exemplo de Tntalo: e Tntalo caiu na gargalhada. 
- Bem! Acho que agora sabemos onde pr a besta-fera. Pelos deuses, posso ver a familiar semelhana! 
Todos riram, exceto Annabeth e alguns dos meus outros amigos. 
Tyson pareceu nem notar. Estava perplexo demais, tentando espantar o tridente reluzente que agora 
desaparecia pouco a pouco. Ele era muito inocente para entender quanto estavam rindo  custa dele, e 
como as pessoas eram cruis. Mas eu entendi. 
Eu tinha um novo companheiro de chal. E tinha um monstro como meio-irmo. 


#
SEIS - O ataque dos pombos demonacos 
Os dias que se seguiram foram uma tortura, bem como Tntalo queria. 
Primeiro, havia Tyson se mudando para o chal de Poseidon, dando risadinhas consigo mesmo a cada 
quinze segundos e dizendo: 
- Percy  meu irmo? - Como se tivesse acabado de ganhar na loteria. 
- Ei, Tyson - dizia eu. - No  assim to simples. 
Mas no havia como explicar a ele. Ele estava nas nuvens. E eu... por mais que gostasse do grando, no 
podia deixar de me sentir sem graa. Envergonhado. Pronto, falei. 
Meu pai, o todo-poderoso Poseidon, ficara enrabichado por algum esprito da natureza, e Tyson era o 
resultado. Quer dizer, eu tinha lido os mitos sobre os ciclopes. At lembrava que eles eram, 
freqentemente, filhos de Poseidon. Mas nunca tinha me dado conta de que isso fazia deles... minha 
famlia. At ter Tyson morando comigo, no beliche ao lado. 
Depois, havia os comentrios dos outros campistas. De repente, eu no era Percy Jackson, o cara legal 
que recuperara o relmpago de Zeus no ltimo vero. Agora eu era Percy Jackson, o pobre idiota que 
tinha um monstro feioso como irmo. 
- Ele no  meu irmo de verdade! - eu protestava sempre que Tyson no estava por perto. - Ele  mais 
como um meio-irmo do lado monstruoso da famlia. Tipo... um meio-irmo de segundo grau ou coisa 
assim. 
Ningum caiu nessa. 
Eu admito - estava zangado com meu pai. Sentia que ser seu filho passara a ser uma piada. 


Annabeth tentou fazer com que eu me sentisse melhor. Sugeriu que forrmssemos uma equipe para a 
corrida de bigas, para desviar a cabea dos problemas. No me entenda mal - ns dois odivamos Tntalo 
e estvamos preocupadssimos com o acampamento -, mas no sabamos o que fazer. At que nos 
ocorresse algum plano brilhante para salvar a rvore de Thalia, calculamos que poderamos muito bem 
participar das corridas. Afinal, a me de Annabeth, Atena, inventara a carruagem, e meu pai criara os 
cavalos. Juntos, aquela pista ia ser nossa. 
***** 
Uma bela manh Annabeth e eu estvamos sentados junto ao lago de canoagem rabiscando esboos de 
bigas quando alguns engraadinhos do chal de Afrodite passaram por l e me perguntaram se eu 
precisava de um delineador para o olho... 
- Ah! desculpe, olhos. 
Enquanto eles se afastavam dando risada, Annabeth resmungou: 
- O que voc precisa fazer, Percy,  ignor-los. Voc no tem culpa de ter um monstro como irmo. 
- Ele no  meu irmo! - disparei. - E ele tambm no  um monstro! 
Annabeth ergueu as sobrancelhas. 
- Ei, no se zangue comigo! E, tecnicamente, ele , sim, um monstro. 


#
- Bem, voc lhe deu permisso para entrar no acampamento. 
- Porque era o nico jeito de salvar sua vida! Quer dizei, sinto muito, Percy, eu no esperava que 
Poseidon o reclamasse. Os ciclopes so as criaturas mais enganadoras, traioeiras... 
- Ele no ! O que voc tem contra os ciclopes, afinal? 
As orelhas de Annabeth ficaram rosadas. Tive a sensao de que havia algo que ela no estava me 
contando - algo ruim. 
- Esquea - disse ela. - Agora, o eixo para essa biga... 
- Voc o trata como se ele fosse uma coisa horrvel - falei, - Ele salvou minha vida. 
Annabeth jogou o lpis no cho e se levantou. 
- Ento talvez voc deva projetar uma carruagem com ele. 
- Talvez eu deva. 
- timo! 
- timo! 
Ela foi embora tempestuosamente e eu me senti ainda pior do que antes. 
***** 
Nos dias seguintes, tentei manter a cabea longe dos problemas. 
Silena Beauregard, uma das meninas mais agradveis do chal de Afrodite, me deu minha primeira aula 
de equitao em um pgaso. Explicou que havia apenas um cavalo alado imortal chamado Pgaso, que 
ainda vagava livre em algum lugar nos cus, mas com o passar das eras ele havia gerado uma poro de 
filhos, nenhum de fato to veloz ou herico, mas todos com o mesmo nome do primeiro e maior. 
Sendo filho do deus do mar, jamais gostei de andar pelo cu. Meu pai tinha uma rivalidade com Zeus, 
portanto eu tentava permanecer fora dos domnios do senhor dos ares tanto quanto possvel. Mas a 
sensao de cavalgar um cavalo alado foi diferente. Aquilo no me deixou nem perto do nervosismo de 
estar em um avio. Talvez fosse porque meu pai criara cavalos da espuma do mar e, assim, os pgasos 
eram uma espcie de... territrio neutro. Eu conseguia entender seus pensamentos. No ficava surpreso 
quando meu pgaso saa galopando pelas copas das rvores ou perseguia um bando de gaivotas para 
dentro de uma nuvem. 
O problema era que Tyson tambm queria montar nos "pneis-galinhas", mas os pgasos ficavam ariscos 
sempre que ele se aproximava. Disse a eles por telepatia que Tyson no iria machuc-los mas eles 
pareciam no acreditar. Isso fazia Tyson chorar. 
A nica pessoa no acampamento que no tinha o menor problema com Tyson era Beckendorf, do chal 
de Hefesto. O deus ferreiro sempre trabalhara com ciclopes nas suas forjas, assim Beckendorf levou 
Tyson para o arsenal para ensin-lo a trabalhar com metais. Disse que faria Tyson fabricar itens mgicos 
como um mestre num piscar de olhos. 
Depois do almoo, eu treinava na arena com o chal de Apolo. A esgrima sempre fora meu ponto forte. As 
pessoas diziam que eu era melhor nisso do que qualquer campista nos ltimos cem anos, com exceo, 
talvez, de Luke. Eu era sempre comparado com Luke. 


#
Eu derrotava os caras de Apolo com facilidade. Devia praticar contra os chals de Ares e Atena, j que 
eles tinham os melhores espadachins, mas no me dava bem com Clarisse e seus irmos, e depois da 
discusso com Annabeth simplesmente no queria v-la. 
Eu ia s aulas de arco e flecha, muito embora fosse pssimo nisso, e no era a mesma coisa sem Quron 
ensinando. Nas artes e nos trabalhos manuais, comecei a esculpir um busto de Poseidon, mas estava 
ficando to parecido com Sylvester Stallone que o descartei. Escalava a parede de treinamento em nvel 
de dificuldade mximo, com lava e terremoto. E  noite fazia a patrulha de fronteira. Muito embora Tntalo 
tivesse insistido em que esquecssemos de tentar proteger o acampamento, alguns dos campistas 
mantiveram discretamente a vigia, montando uma escala em nossas horas vagas. 
Eu me sentava no topo da Colina Meio-Sangue e observava as drades indo e vindo, cantando para o 
pinheiro moribundo. Stiros levavam suas flautas de junco e tocavam melodias mgicas da natureza, e por 
algum tempo as agulhas do pinheiro pareciam ficar mais encorpadas. O aroma das flores da colina ficava 
um pouco mais doce e a grama parecia mais verde. Mas, assim que a msica parava, a doena tomava de 
novo o ar. A colina inteira parecia estar infectada, morrendo do veneno que se infiltrara nas razes da 
rvore. Quanto mais eu ficava l sentado, mais me enfurecia. 
Luke tinha feito aquilo. Eu me lembrei de seu sorriso dissimulado, da cicatriz de garra de drago que 
atravessava seu rosto. Ele fingira ser meu amigo e todo o tempo fora o servo nmero 1 de Cronos. 
Abri a palma da mo. A cicatriz que Luke me fizera no ltimo vero estava desaparecendo, mas eu ainda 
podia v-la - uma ferida branca em forma de asterisco onde seu escorpio das profundezas me dera uma 
ferroada. 
Pensei no que Luke dissera na noite antes de tentar me matar: Adeus, Percy. Uma nova Idade do Ouro est 
chegando. Voc no ser parte dela. 
A noite, eu tinha mais sonhos com Grover. As vezes ouvia apenas fragmentos da voz dele. Certa vez o 
ouvi dizer:  aqui. Em outra: Ele gosta de carneiros. 
Pensei em contar a Annabeth meus sonhos, mas eu me sentiria um bobo. Isto : Ele gosta de carneiros? 
Ela teria achado que eu estava maluco. 
Na noite anterior  corrida, Tyson e eu terminamos nossa biga. Ficou legal. Tyson tinha feito as partes 
metlicas nas forjas do arsenal. Eu havia lixado a madeira e montado a carruagem. Era azul e branca, 
com desenhos de ondas nas laterais e um tridente pintado na frente. Depois daquele trabalho, era mais 
do que justo que Tyson fosse meu copiloto, embora eu soubesse que os cavalos no iriam gostar disso e 
que o peso extra de Tyson me atrasaria. 
Quando estvamos indo para a cama, Tyson disse: 
- Voc est zangado? Percebi que estava de cara feia. 
- No. No estou zangado. 
Ele se deitou em seu beliche e ficou em silncio no escuro. Seu corpo era grande demais para a cama. 
Quando puxava as cobertas, os ps ficavam de fora. 
- Eu sou um monstro. 
- No diga isso. 
- Tudo bem. Eu vou ser um bom monstro. Assim voc no vai precisar ficar zangado. 
Eu no sabia o que dizer. Olhei para o teto e me senti como se tivesse morrendo devagar, junto com a 
rvore de Thalia. 

#
 -  s que... eu nunca tive um meio-irmo antes.  Tentei impedir que minha voz falhasse. -  mesmo 
diferente para mim. E estou preocupado com o acampamento. E um outro amigo meu, Grover... ele pode 
estar com problemas. Fico me sentindo como se devesse fazer alguma coisa para ajudar, mas no sei o 
qu. 
Tyson no disse nada. 
- Desculpe-me - falei. - No  sua culpa. Estou zangado com Poseidon. Sinto que ele est tentando me 
atrapalhar, tipo, est tentando nos confrontar ou coisa assim, e eu no entendo por qu. 
Ouvi um som surdo e profundo. Tyson estava roncando. Eu suspirei. 
- Boa noite, grando. 
E tambm fechei os olhos. 
***** 
No meu sonho, Grover estava usando um vestido de noiva. 
No lhe caa muito bem. O vestido era comprido demais e a barra estava encrostada de lama seca. O 
decote ficava escorregando dos ombros. Um vu esfarrapado cobria seu rosto. 
Ele estava em uma caverna mida, iluminada somente por tochas. Havia um catre num canto e um tear 
antiquado em outro, com um pedao de pano branco tecido na armao. E Grover olhava diretamente 
para mim, como se eu fosse um programa de tev que ele aguardava. 
- Graas aos deuses! - gemeu ele. -Voc pode me ouvir? 
Meu eu do sonho demorou a responder. Ainda estava olhando em volta, tentando entender o teto de 
estalactites, o mau cheiro de carneiros e bodes, os sons de rosnados, resmungos e balidos que pareciam 
vir de trs de uma rocha do tamanho de uma geladeira, que bloqueava a nica sada do recinto como se 
houvesse uma caverna muito maior atrs dela. 
- Percy? - disse Grover. - Por favor, no tenho foras para me projetar melhor. Voc precisa me ouvir! 
- Estou ouvindo - falei. - Grover, o que est acontecendo? De trs da rocha, uma voz monstruosa gritou: 
- Docinho! Voc j est pronta? 
Grover se encolheu. Ele gritou em falsete: 
- Ainda no, meu amor! Mais alguns dias! 
- Ah! J no se passaram duas semanas? 
- N-no, meu amor. S cinco dias. Ainda faltam mais doze. 
O monstro ficou em silncio, talvez tentando fazer a conta. Ele devia ser pior do que eu em aritmtica, 
porque disse: 
- Est bem, mas ande logo! Eu quero VEEEEER embaixo desse vu, he-he-he. 
Grover virou-se novamente para mim. 
- Voc precisa me ajudar! No h mais tempo! Estou preso nesta caverna. Em uma ilha, no mar. 

#
 - Onde? 
- No sei exatamente! Fui para a Flrida e entrei  esquerda. 
- O qu? Como voc... 
-  uma armadilha! - disse Grover. - Por isso nenhum stiro jamais retornou de sua misso. Ele  um 
pastor, Percy! E ele est com aquilo. Sua natureza mgica  to poderosa que cheira exatamente como o 
grande deus Pan! Os stiros vm aqui pensando que encontraram Pan e so apanhados e comidos por 
Polifemo! 
- Poli-quem? 
- O ciclope! - disse Grover, exasperado. - Quase escapei. Fui at Santo Agostinho. 
- Mas ele o seguiu - falei, lembrando meu primeiro sonho.  E o encurralou numa loja de noivas. 
-  isso - disse Grover. - Minha primeira conexo emptica deve ter funcionado, ento. Olhe, este vestido 
de noiva  a nica coisa que me mantm vivo. Ele gostou do meu cheiro, mas disse que era apenas um 
perfume com aroma de bode. Por sorte ele no enxerga muito bem. O olho ainda est meio cego, da 
ltima vez que algum o golpeou. Mas logo vai perceber quem eu sou. Est s me dando duas semanas 
para terminar a cauda do vestido, e est ficando impaciente! 
- Espere um minuto. O ciclope pensa que voc ... 
- Sim! - resmungou Grover. - Ele pensa que sou uma dama ciclope, e quer se casar comigo! 
Em circunstncias diferentes, eu teria explodido numa gargalhada, mas a voz de Grover era muito sria. 
Ele estava tremendo de medo. 
- Eu vou salv-lo - prometi. - Onde voc est? 
- No Mar de Monstros,  claro! 
- Mar de qu? 
- J disse! No sei exatamente onde fica! E, olhe, Percy... Ahn, eu sinto muito por isso, mas essa conexo 
emptica... bem, eu no tive escolha. Nossas emoes esto ligadas agora. Se eu morrer... 
- Nem me diga. Eu morro tambm. 
- Ah, bem, talvez no! Voc pode viver por anos em esta do vegetativo. Mas, ahn, seria muito melhor se 
voc me tirasse daqui. 
- Docinho! - berrou o monstro. -  hora do jantar! Ai, que delcia, carne de carneiro! 
Grover choramingou. 
- Preciso ir. Venha depressa! 
- Espere! Voc disse que "aquilo" estava a. Aquilo o qu? Mas a voz de Grover j ficava mais fraca. 
- Bons sonhos. No me deixe morrer! 
O sonho se apagou, e acordei assustado. Era o comeo da manh. Tyson estava me olhando, seu nico 
olho castanho cheio de preocupao. 

#
 - Voc est bem? - perguntou. 
A voz me deu um calafrio na espinha, pois era exatamente como a do monstro que eu ouvira em meu 
sonho. 
***** 
A manh da corrida estava quente e mida. A nvoa estava baixa sobre a terra, como vapor de sauna. 
Milhes de pssaros se empoleiravam nas rvores - gordos pombos cinza e brancos, s que eles no 
arruinavam como pombos comuns. Soltavam aqueles desagradveis guinchos metlicos que me 
lembravam radar de submarino. 
A pista da corrida fora construda em um campo gramado entre a linha de arco-e-fecha e os bosques. O 
chal de Hefesto usou os touros de bronze, completamente domesticados depois que as cabeas foram 
esmagadas, para preparar uma pista oval em questo de minutos. 
Havia fileiras de degraus de pedra para os espectadores  Tntalo, os stiros, algumas drades e todos os 
campistas que no estavam participando. O sr. D no apareceu. Ele nunca acordava antes das dez horas. 
- Certo! - anunciou Tntalo quando as equipes comearam a se reunir. Uma niade levara para ele um 
grande prato de doces, e enquanto Tntalo falava, sua mo direita perseguia uma bomba de chocolate 
pela mesa do juiz. - Vocs todos conhecem as regras. Uma pista de quatrocentos metros. Duas voltas 
para vencer. Dois cavalos por biga. Cada equipe ser composta de um auriga e um lutador. So 
permitidas armas. Esperem por truques sujos. Mas tentem no matar ningum!  Tntalo sorriu para ns 
como se todos fssemos crianas travessas. - Qualquer morte resultar em punio severa. Sem 
guloseimas junto  fogueira por uma semana. Agora, preparem suas carruagens! 
Beckendorf liderou a equipe de Hefesto at a pista. Eles tinham uma biga toda de bronze e ferro - inclusive 
os cavalos, que eram autmatos mgicos, como os touros da Clquida da histria dos argonautas. No 
tinha dvidas de que a carruagem deles tinha todos os tipos de armadilhas mecnicas, e itens mais 
sofisticados que os de uma super Maserati. 
A biga de Ares era vermelho-sangue, puxada por dois medonhos esqueletos de cavalo. Clarisse embarcou 
com um feixe de lanas, clavas, bolas de pregos e outros brinquedos detestveis. 
A de Apolo era elegante e graciosa, inteiramente dourada, puxada por dois belos cavalos baios. Seu 
lutador estava armado com um arco, embora tivesse prometido no disparar flechas comuns, com ponta, 
contra os aurigas oponentes. 
A de Hermes era verde e tinha aparncia de um pouco velha, como se no sasse da garagem havia anos. 
No parecia nada especial, mas era conduzida pelos irmos Stoll, e estremeci s de pensar nos truques 
sujos que eles haviam armado. 
Restavam duas carruagens: uma, conduzida por Annabeth, e outra, por mim. 
Antes do comeo da corrida, tentei me aproximar de Ann.i beth e lhe contar meu sonho. 
Ela se animou quando mencionei Grover, mas quando mencionei o que ele dissera, ela ficou distante outra 
vez, desconfiada. 
- Voc est tentando me distrair - concluiu. 
- O qu? No, no estou! 
- Ora! Como se Grover, por mero acaso, tivesse tropeado na nica coisa que poderia salvar o 
acampamento. 

#
 - O que voc quer dizer? Ela revirou os olhos. 
- Volte para sua biga, Percy. 
- Eu no estou inventando isso. Ele est em perigo, Annabeth. 
Ela hesitou. Pude perceber que tentava decidir se devia ou no confiar em mim. A despeito das brigas 
ocasionais, passamos por muita coisa juntos, e eu sabia que ela jamais desejaria que algo de ruim 
acontecesse a Grover. 
- Percy, uma conexo emptica  muito difcil de ser feita. Quer dizer,  mais provvel que voc estivesse 
mesmo sonhando. 
- O Orculo - disse eu. - Podamos consultar o Orculo. 
Annabeth franziu a testa. 
No ltimo vero antes de minha misso, eu visitara o estranho esprito que morava no sto da Casa 
Grande, e ele me fizera uma profecia que se realizara de um modo que eu jamais imaginaria. A 
experincia tinha me aterrorizado por meses. Annabeth sabia que eu nunca sugeriria voltar l se no 
estivesse falando realmente a srio. 
Antes que ela pudesse responder, a trombeta de concha soou. 
- Aurigas! - bradou Tntalo. - Aos seus lugares! 
- Conversamos mais tarde - disse Annabeth. - Depois que eu vencer. 
Enquanto eu caminhava de volta para a biga, notei que havia mais pombos nas rvores - guinchando 
como loucos, fazendo a floresta inteira farfalhar. Ningum mais parecia estar prestando ateno, mas eles 
me deixavam nervoso. Os bicos cintilavam de modo estranho. Os olhos pareciam mais brilhantes que os 
de pssaros comuns. 
Tyson estava tendo problemas em controlar nossos cavalos. Precisei conversar com eles por um bom 
tempo at se acalmarem. 
Ele  um monstro, senhor!, eles se queixaram para mim. 
Ele  um filho de Posedon, disse a eles. Assim como... bem, assim como eu. 
No!, eles insistiram. Monstro! Comedor de cavalos!No confiamos! 
Eu lhes darei torres de acar no final da corrida, falei. 
Torres de acar? 
Torres de acar muito grandes. E mas. Eu tinha falado das mas? 
Por fim, concordaram em deixar que eu os atrelasse. 
Agora, se voc nunca viu uma biga grega, ela  construda para ser veloz, no para conforto e segurana. 
 basicamente um cesto de madeira, aberto atrs, montado sobre um eixo entre duas rodas. Quem 
conduz fica em p o tempo todo, e a gente sente cada solavanco da estrada.  feita com uma madeira to 
leve que se voc perder o controle nas curvas fechadas em uma extremidade ou outra da pista 
provavelmente vai capotar, esmigalhando tanto a carruagem como a si mesmo. Tem mais adrenalina que 
andar de skate. 

#
 Segurei as rdeas e manobrei para a linha de partida. Entreguei a Tyson uma vara de trs metros e disse 
a ele que sua funo seria empurrar para longe as outras bigas se elas chegassem perto demais, e 
desviar qualquer coisa que tentassem atirar em ns. 
- Sem bater nos pneis com o pau - insistiu ele. 
- Certo - concordei. - Nem nas pessoas, se voc puder evitar. Vamos jogar limpo. Apenas afaste as 
distraes e deixe que eu me concentre em conduzir. 
- Vamos vencer! - ele alardeou. 
A gente ia perder feio, pensei comigo mesmo, mas eu tinha de tentar. Queria mostrar aos outros... bem, 
no sabia o qu, exatamente. Que Tyson no era um cara assim to mau? Que eu no estava 
envergonhado de ser visto com ele em pblico? Que eles no tinham me ofendido com todas as suas 
piadas e provocaes! 
Quando as carruagens se alinharam, mais pombos de olhos brilhantes se juntaram nos bosques. 
Guinchavam to alto que os campistas na arquibancada estavam comeando a reparar, olhando nervosos 
para as rvores, que tremiam sob o peso dos pssaros. Tntalo no parecia preocupado, mas teve de 
falar mais alto para ser ouvido. 
- Aurigas! - bradou ele. - Tomem suas posies! 
Ele ergueu a mo e o sinal de partida desceu. As carruagens dispararam, fazendo barulho. Cascos 
ressoaram contra o p. A multido vibrou. 
Quase imediatamente se ouviu um alto e desagradvel crac! Olhei para trs a tempo de ver a biga de 
Apolo virar de repente. Hermes colidira com ela - talvez por engano, talvez no. A equipe de Hermes - 
Travis e Connor - riu da boa sorte, mas no por muito tempo. Os cavalos de Apolo chocaram-se contra os 
dela, e a biga de Hermes tambm virou, deixando uma pilha de madeira quebrada e quatro cavalos 
empinando na poeira. 
Duas carruagens eliminadas nos primeiros seis metros. Adorei o esporte. 
Voltei a prestar ateno  minha frente. Nosso tempo era bom, estvamos na frente de Ares, mas a 
vantagem da biga de Annabeth era muito grande. Ela j estava contornando a primeira coluna, seu 
lanceiro com um sorriso arreganhado, acenando para ns e gritando: 
At mais! 
A carruagem de Hefesto tambm comeava a nos alcanar. Beckendorf apertou um boto e um painel se 
abriu na lateral da carruagem. 
- Desculpe-me, Percy! - gritou ele. Trs conjuntos de bolas e correntes foram atirados diretamente para 
nossas rodas. Teriam nos destroado por completo se Tyson no as tivesse desviado para o lado com um 
movimento rpido de sua vara. Ele deu um bom empurro na biga de Hefesto, que saiu deslizando de lado 
enquanto seguamos em frente. 
- Bom trabalho, Tyson! - gritei. 
- Passarinhos! - gritou. 
- O qu? 


#
Estvamos em tal disparada que era difcil ouvir ou ver alguma coisa, mas Tyson apontou para os 
bosques, e vi o que o preocupava. Os pombos tinham sado das rvores. Estavam voando em espiral 
como um enorme tornado, em direo  pista. 
E da, disse para mim mesmo. So apenas pombos. 
Tentei me concentrar na corrida. 
Completamos nossa primeira volta, as rodas rangendo embaixo de ns, a biga ameaando tombar, mas 
agora estvamos a apenas trs metros de Annabeth. Se ao menos pudesse chegar um pouco mais perto, 
Tyson poderia usar sua vara... 
O guerreiro de Annabeth no estava mais sorrindo. Puxou um dardo de sua coleo e mirou em mim. 
Estava prestes a lan-lo quando ouvimos os gritos. 
Os pombos estavam se aglomerando - milhares deles mergulhando sobre os espectadores na 
arquibancada, atacando as outras bigas. Beckendorf estava cercado. Seu guerreiro tentou espantar os 
pssaros a pauladas, mas no conseguia enxergar nada. A biga deu uma guinada e saiu rasgando um 
caminho no meio dos campos de morangos, os cavalos mecnicos soltando vapor. 
Na carruagem de Ares, Clarisse gritou uma ordem para seu guerreiro, que rapidamente jogou uma tela de 
camuflagem por cima de seu cesto. Os pssaros enxamearam em volta dela, bicando e arranhando as 
mos do guerreiro enquanto ele tentava segurar a rede no alto, mas Clarisse apenas trincou os dentes e 
continuou guiando. Seus cavalos esquelticos pareciam imunes  distrao. Os pombos bicavam 
inutilmente as rbitas vazias e voavam por entre suas costelas, mas os corcis continuavam correndo. 
Os espectadores no tiveram tanta sorte. Os pssaros atacavam qualquer pedao de carne exposta, 
levando todos ao pnico. Agora que os pssaros estavam mais perto, ficou claro que no eram pombos 
normais. Seus olhos eram pequenos, brilhantes e perversos. Os bicos eram de bronze e, a julgar pelos 
gritos dos campistas, deviam ser afiados como navalhas. 
- Pssaros de Estinflia! - gritou Annabeth. Ela reduziu a velocidade e emparelhou sua biga com a minha.- 
Vo descarnar todo o mundo at os ossos se no os espantarmos! 
- Tyson - disse eu -, meia-volta! 
- Pegamos o caminho errado? - perguntou ele. 
- Sempre - resmunguei, mas manobrei a biga na direo da arquibancada. 
Annabeth seguia bem ao meu lado. Ela gritou: 
- Heris, s armas! 
Mas eu no tinha certeza se algum poderia ouvi-la, com os guinchos dos pssaros e todo aquele caos. 
Segurei as rdeas com uma das mos e consegui empunhar Contracorrente, enquanto uma onda de 
pssaros mergulhava sobre meu rosto, os bicos metlicos batendo. Golpeei-os no ar, e eles explodiram 
em p e penas, mas ainda restavam milhes deles. Um me pegou no traseiro, e quase pulei para fora da 
biga. 

 

Annabeth no estava com muito mais sorte. Quanto mais perto chegvamos da arquibancada, mais 
compacta ficava a nuvem de pssaros. 


Alguns dos espectadores tentavam se defender. Os campistas de Atena gritavam por escudos. Os 
arqueiros do chal de Apolo carregaram seus arcos e flechas, prontos para exterminar a ameaa, mas 
com tantos campistas misturados com os pssaros no era seguro disparar. 

#
 - So pssaros demais! - gritei para Annabeth. - Como a gente se livra deles? 
Ela golpeou um pombo com a faca. 
- Hrcules usou barulho! Cmbalos de bronze! Ele os espantou com o som mais horrvel que conseguiu... 
Os olhos dela se arregalaram. 
- Percy... A coleo de Quron! 
Entendi imediatamente. 
- Acha que vai funcionar? 
Ela entregou as rdeas ao guerreiro e pulou de sua biga para a minha como se fosse a coisa mais fcil do 
mundo. 
- Para a Casa Grande!  nossa nica chance! 
Clarisse acabara de cruzar a linha de chegada, sem adversrios, e parecia s ento ter notado como era 
srio o problema dos pssaros. Quando viu que nos afastvamos, gritou: 
- Vocs esto fugindo? A luta  aqui, seus covardes! 
Ela puxou a espada e investiu para a arquibancada. 
Fiz os cavalos galoparem. A biga passou com barulho pelos campos de morangos, atravessou a quadra 
de vlei e parou bruscamente na frente da Casa Grande. Annabeth e eu corremos para dentro, disparando 
pelo corredor at o alojamento de Quron. 
O aparelho de som ainda estava na mesa-de-cabeceira, e tambm seus CDs favoritos. Agarrei o mais 
repulsivo que pude encontrar, Annabeth agarrou o aparelho e corremos juntos de volta para fora. 
Na pista, as carruagens estavam em chamas. Campistas feridos corriam em todas as direes, com 
pssaros dilacerando-lhes as roupas e arrancando-lhes os cabelos, enquanto Tntalo perseguia doces do 
caf-da-manh em volta da arquibancada, gritando de vez em quando: 
- Est tudo sob controle! No se preocupem! 
Paramos a carruagem na linha de chegada. Annabeth preparou o som. Rezei para as pilhas no estarem 
fracas. Apertei o PLAY, e o favorito de Quron comeou a tocar  Os maiores sucessos de Dean Martin. De 
repente o ar se encheu com o som violinos e de um bando de caras resmungando em italiano. 
Os pombos demonacos enlouqueceram. Comearam a voar crculos, colidindo uns com os outros como 
se quisessem explodir seus miolos. Depois, abandonaram de vez a pista e voaram para o cu em uma 
enorme onda escura. 
- Agora! - bradou Annabeth. - Arqueiros! 
Sem obstruo, a mira dos arqueiros de Apolo era infalvel. A maioria conseguia disparar cinco ou seis 
flechas de uma vez. Em minutos, o cho estava coalhado de pombos de bico de bronze mortos, e os 
sobreviventes eram um distante rasto de fumaa no horizonte. 
O acampamento estava a salvo, mas a devastao no era bonita de ver. A maioria das bigas tinha sido 
completamente destruda. Quase todos estavam feridos, sangrando com bicadas mltiplas dos pssaros. 
As meninas do chal de Afrodite gritavam porque seus penteados tinham sido arruinados e suas roupas 
estavam sujas de coc de pombo. 

#
 - Bravo! - disse Tntalo, mas no estava olhando para mim ou para Annabeth. - Temos nossa primeira 
vencedora! - Ele foi at a linha de chegada e premiou com os louros dourados uma Clarisse perplexa. 
Ele ento se virou e sorriu para mim. 
- E, agora, a punio para os desordeiros que tumultuaram a corrida. 


#
SETE - Eu aceito presentes de um estranho 
Na viso de Tntalo, os pssaros de Estinflia estavam simplesmente na deles, nos bosques, e no 
teriam atacado se Annabeth, Tyson e eu no os tivssemos perturbado ao conduzirmos mal nossas bigas. 
Aquilo foi to completamente injusto que mandei Tntalo ir perseguir um donut, o que no contribuiu para 
melhorar seu estado de esprito. Ele nos condenou a prestar servio na cozinha - lavar panelas e pratos a 
tarde inteira na cozinha subterrnea com as harpias da limpeza. As harpias lavavam com lava, em vez de 
gua, para obter aquele brilho extralimpo e matar noventa e nove vrgula nove por cento de todos os 
germes; portanto, Annabeth e eu tivemos de usar luvas e aventais de asbesto. 
Tyson no se importou. Mergulhou as mos sem proteo e comeou a esfregar, mas Annabeth e eu 
tivemos de sofrer durante horas de trabalho quente e perigoso, especialmente porque havia toneladas de 
pratos extras. Tntalo ordenara um banquete especial para celebrar a vitria da carruagem de Clarisse - 
uma refeio completa, incluindo pssaros-da-morte de Estinflia fritos  moda caipira. 
A nica coisa boa no nosso castigo foi ter proporcionado a Annabeth e a mim um inimigo comum e muito 
tempo para conversar. 
Depois de ouvir novamente meu sonho com Grover, ela pareceu comear a acreditar. 
Se ele encontrou mesmo aquilo - murmurou ela -, e se ns pudermos resgatar... 
- Espere a - disse eu. - Voc age como se aquilo... o que quer que Grover tenha encontrado, fosse a 
nica coisa do mundo capaz de salvar o acampamento. O que  aquilo? 
- Vou lhe dar uma dica. O que voc consegue quando arrancando pele de um carneiro? 
- Ficar todo sujo? 
Ela suspirou. 
- Um velocino. A pele do carneiro se chama velocino. E se por acaso o carneiro tem l de ouro... 
- O Velocino de Ouro. Voc est falando srio? 
Annabeth jogou um prato cheio de ossos de pssaro-da-morte na lava. 
- Percy, est lembrado das Irms Cinzentas? Elas disseram que sabiam onde estava aquilo que voc 
procura. E mencionaram Jaso. Trs mil anos atrs, elas disseram a ele como encontrar o Velocino de 
Ouro. Conhece a histria de Jaso e dos argonautas? 
- Sim - falei. - Aquele filme antigo com os esqueletos de barro. 


Annabeth revirou os olhos. 
- Ah, meus deuses, Percy! Voc no tem jeito mesmo. 
- O qu? - perguntei. 
- Apenas oua. A verdadeira histria do Velocino: havia aqueles dois filhos de Zeus, Cadmo e Europa, 
certo? Eles estavam para ser oferecidos como sacrifcio humano quando imploraram a Zeus que os 
salvasse. Ento Zeus enviou aquele carneiro voador mgico com sua l de ouro, que os recolheu na 
Grcia e os transportou at Clquida, na sia Menor. Bem, na verdade ele transportou Cadmo. Europa 
caiu e morreu no caminho, mas isso no  importante. 


#
- Provavelmente foi importante para ela. 
- A questo  que, quando Cadmo chegou a Clquida, sacrificou o carneiro de ouro aos deuses e 
pendurou o Velocino em um rvore no meio do reino. O Velocino levou prosperidade  terra. Os animais 
pararam de adoecer. As plantas cresceram melhor. Os lavradores tiveram colheitas fartas. Nunca havia o 
castigo das pragas.  por isso que Jaso queria o Velocino. Ele  capaz de revitalizar qualquer terra onde 
for colocado. Cura doenas, fortalece a natureza, limpa a poluio... 
- Poderia curar a rvore de Thalia. 
Annabeth assentiu. 
- E deixar as fronteiras do Acampamento Meio-Sangue muito mais fortes. Mas, Percy, o Velocino est 
desaparecido h sculos. Toneladas de heris j buscaram por ele e no tiveram sorte. 
- Mas Grover o encontrou - falei. - Ele saiu  procura de Pan e encontrou o Velocino em vez disso, porque 
ambos irradiam uma natureza mgica. Faz sentido, Annabeth. Podemos salv-lo e salvar o acampamento 
ao mesmo tempo.  perfeito! 
Annabeth hesitou. 
- Um pouco perfeito demais, no acha? E se for uma armadilha? 
Lembrei-me do ltimo vero, quando Cronos manobrou nossa misso. Ele quase nos enrolou, e amos 
ajud-lo a comear uma guerra que teria destrudo a civilizao ocidental. 
- Que escolha temos? - perguntei. - Voc vai me ajudar a salvar Grover ou no? 
Ela deu uma olhada para Tyson, que perdera o interesse na conversa e estava alegremente fazendo 
barcos de brinquedo com copos e colheres na lava. 
- Percy - disse ela em voz baixa -, vamos ter de lutar contra um ciclope. Polifemo, o pior deles. E s existe 
um lugar onde pode estar a ilha dele. O Mar de Monstros. 
- Onde fica isso? 
Ela me olhou como se pensasse que eu estava me fazendo de bobo. 
- O Mar de Monstros. O mesmo mar onde Ulisses navegou, e tambm Jaso, Eneias e todos os outros. 
- Voc quer dizer o Mediterrneo? 
- No. Bem, sim... mas no. 
- Mais uma resposta direta. Obrigado. 
- Veja, Percy, o Mar de Monstros  o mar que todos os heris atravessam em suas aventuras. Costumava 
ficar no Mediterrneo,sim. Mas, como tudo mais, muda de lugar quando muda o centro de poder do 
Ocidente. 
- Como o Monte Olimpo no alto do edifcio Empire State - disse eu. - E o Hades embaixo de Los Angeles. 
- Certo. 
- Mas um mar inteiro de monstros... como voc poderia esconder algo assim? Os mortais no teriam 
notado coisas estranhas acontecendo... tipo, navios sendo devorados e coisas do gnero? 


#
-  claro que eles notam. No entendem, mas sabem que algo  estranho naquela parte do oceano. O Mar 
de Monstros agora fica na Costa Leste dos Estados Unidos, logo a noroeste da Flrida. Os mortais at tm 
um nome para ele. 
- O Tringulo das Bermudas? 
- Exatamente. 
Deixei aquilo amadurecer na minha cabea. Acho que no era mais estranho do que as outras coisas que 
tinha aprendido desde que fora para o Acampamento Meio-Sangue. 
- Certo... ento pelo menos sabemos onde procurar. 
- Ainda assim,  uma rea enorme, Percy. Procurar uma ilha minscula em guas infestadas por 
monstros... 
- Ei, sou filho do deus do mar.  o meu territrio. No pode ser to difcil. 
Annabeth juntou as sobrancelhas. 
- Vamos precisar falar com Tntalo, conseguir aprovao para uma misso. Ele vai dizer no. 
- No se contarmos hoje  noite junto  fogueira, na frente de todo mundo. O acampamento inteiro ir 
ouvir. Vo pression-lo. Ele no vai poder recusar. 
- Talvez. - Um pouquinho de esperana surgiu na voz de Annabeth. -  melhor terminarmos com esses 
pratos. Passe o pulverizador de lava, por favor. 
***** 
Naquela noite, junto  fogueira, o chal de Apolo liderou a cantoria. Eles tentaram melhorar o humor de 
todos, mas no foi fcil depois do ataque dos pssaros naquela tarde. Sentamo-nos em um semicrculo de 
degraus de pedra, cantando sem entusiasmo c observando a fogueira arder, enquanto os caras de Apolo 
tocavam seus violes e tangiam suas liras. 
Cantamos todas as canes tradicionais do acampamento: As margens do Egeu, Eu sou meu prprio 
ta~ta~ta~ta~tarav, Esta terra  a terra de Minos. A fogueira era encantada - assim, quanto mais alto se 
cantava, mais alto ela queimava, a cor e o calor variando de acordo com o humor do pessoal. Num dia 
bom, eu a vira subir a seis metros, to quente que todos os marshmallows que estavam mais perto 
explodiram em chamas. Naquela noite, o fogo chegou a apenas um metro e meio de altura, quase morno, 
e as chamas tinham a cor de uma compressa de algodo. 
Dioniso foi embora cedo. Depois de agentar algumas canes, resmungou que at mesmo jogar pinoche 
com Quron era mais empolgante que aquilo. Ento deu uma olhada desagradvel para Tntalo e dirigiu-se 
de volta  Casa Grande. Quando a ltima cano acabou, Tntalo disse: 
- Bem, isso foi adorvel! 
Ele avanou com um marshmallow assado na ponta de um galho fino e tentou arranc-lo, com muita 
naturalidade. Mas, antes que pudesse toc-lo, o marshmallow saiu voando do galho. Tntalo tentou 
apanh-lo no ar, mas o marshmallow cometeu suicdio, mergulhando nas chamas. 
Tntalo voltou-se para ns sorrindo friamente. 
- Agora, ento, alguns avisos sobre a programao de amanh. 
- Senhor - disse eu. 

#
 O olho de Tntalo contraiu-se num espasmo. 
- Nosso menino da cozinha tem algo a dizer? 
Alguns dos campistas de Ares soltaram risadinhas, mas eu no pretendia deixar que ningum me 
deixasse sem graa a ponto de me calar. Fiquei de p e olhei para Annabeth. Graas aos deuses, ela se 
levantou comigo. 
Eu disse: 
- Temos uma idia para salvar o acampamento. 
Silncio mortal. Mas pude perceber que ganhara a ateno de todos, porque a fogueira chamejou em 
amarelo vivo. 
-  mesmo? - disse Tntalo, agradavelmente. - Bem, se tiver algo a ver com bigas... 
- O Velocino de Ouro - disse eu. - Sabemos onde ele est. 
As chamas arderam em cor laranja. Antes que Tntalo pudesse me impedir, despejei meu sonho com 
Grover e a ilha de Polifemo. Annabeth interveio e lembrou a todos o que o Velocino podem fazer. Pareceu 
mais convincente vindo dela. 
- O Velocino pode salvar o acampamento - concluiu. - Tenho certeza disso. 
- Bobagem, bobagem - disse Tntalo. - No precisamos ser salvos. 
Todos o olharam fixamente, at que ele comeou a parecer constrangido. 
- Alm disso - acrescentou depressa -, e o Mar de Monstros? Dificilmente se poderia dizer que esse  um 
local exato. Vocs no saberiam nem onde procurar. 
- Sim, eu saberia - falei. 
Annabeth se inclinou para mim e sussurrou: 
- Jura? 
Assenti, porque Annabeth refrescara algo na minha memria quando me lembrou da viagem de txi com 
as Irms Cinzentas. Naquela ocasio, a informao que elas me deram no fez sentido. Mas agora... 
- Trinta, 31, 75, 12 - disse eu. 
- Ah, legal! - disse Tntalo. - Obrigado por compartilhar esses nmeros sem sentido. 
- So coordenadas de navegao. Latitude e longitude. Eu, ahn, aprendi isso em estudos sociais. 
At Annabeth pareceu impressionada. 
- Trinta graus, 31 minutos Norte, 75 graus, 12 minutos Oeste. Ele est certo! As Irms Cinzentas nos 
deram essas coordenadas. Deve ser algum lugar do Atlntico, alm da costa da Flrida. O Mar de 
Monstros. Precisamos de uma misso! 
- Esperem s um minuto - disse Tntalo. 
Mas os campistas embarcaram no coro. 

#
 - Precisamos de uma misso! Precisamos de uma misso! 
As chamas se ergueram mais alto. 
- Isso no  necessrio! - insistiu Tntalo. 
- PRECISAMOS DE UMA MISSO! PRECISAMOS DE UMA MISSO! 
- timo! - gritou Tntalo, os olhos inflamados de raiva. - Vocs, moleques, querem que eu lhes atribua 
uma misso? 
- SIM! 
- Muito bem - concordou. - Vou autorizar um campeo a empreender essa perigosa jornada, resgatar o 
Velocino de Ouro e traz-lo para o acampamento. Ou morrer tentando. 
Meu corao se encheu de empolgao. Eu no ia deixar que aquilo me assustasse. Aquilo era o que eu 
precisava fazer. Iria salvar Grover e o acampamento. Nada iria me deter. 
- Vou permitir que nosso campeo consulte o Orculo!  anunciou Tntalo. - E escolha dois companheiros 
para a jornada. E acho que a escolha do campeo  bvia. 
Tntalo olhou para mim e Annabeth como se quisesse nos esfolar vivos. 
- O campeo dever ser algum que conquistou o respeito do acampamento, algum que provou ser 
capaz nas corridas de bigas, e corajoso na defesa do acampamento. Voc dever liderar a misso... 
Clarisse! 
O fogo tremeluziu em mil cores diferentes. O chal de Ares comeou a bater os ps e a aplaudir: 
- CLARISSE! CLARISSE! 
Clarisse levantou-se, parecendo atordoada. Ento engoliu em seco, e seu peito se inflou de orgulho. 
- Eu aceito a misso! 
- Espere! - gritei. - Grover  meu amigo. O sonho veio para mim! 
- Sente-se! - gritou um dos campistas de Ares. - Voc teve sua chance no ltimo vero! 
- Sim, ele s quer ser o centro das atenes outra vez! - disse outro. 
Clarisse olhou furiosamente para mim. 
- Aceito a misso! - repetiu ela. - Eu, Clarisse, filha de Ares, vou salvar o acampamento! 
Os campistas de Ares aplaudiram ainda mais. Annabeth protestou, e os outros campistas de Atenas se 
juntaram a ela. Todos comearam a tomar partido - gritando e discutindo, e atirando marshmallows. 
Pensei que aquilo fosse se transformar em uma completa guerra de guloseimas, at que Tntalo gritou: 
- Silncio, moleques! 
Seu tom impressionou at a mim. 
- Sentem-se! - ordenou. - E vou lhes contar uma histria de fantasma. 


#
Eu no sabia o que ele estava pretendendo, mas todos voltamos, indecisos, aos nossos lugares. A aura 
malvola que se irradiava de Tntalo era to forte quanto a de qualquer monstro que eu j enfrentara. 
- Era uma vez um rei mortal amado pelos deuses! - Tntalo ps a mo no peito, e eu tive a sensao de 
que falava de si mesmo. 
- Esse rei - disse - tinha permisso at para se banquetear no Monte Olimpo. Mas, quando tentou levar um 
pouco de nctar e ambrosia para a Terra, para descobrir a receita... apenas uma pequena quentinha, 
vejam s... os deuses o puniram. Eles o baniram de seus sales para sempre! Sua prpria gente zombou 
dele! Seus filhos o repreenderam! E, ah!, sim, campistas, ele tinha filhos horrveis. Filhos... iguaizinhos... a 
vocs! 
Ele apontou um dedo torto para diversas pessoas da platia, inclusive eu. 
- Sabem o que ele fez com os filhos ingratos?  perguntou Tntalo suavemente. - Sabem como ele 
retribuiu aos deuses sua punio cruel? Convidou os olimpianos para um banquete em seu palcio, s 
para mostrar que no havia rancor. Ningum reparou que seus filhos no estavam presentes. E quando 
ele serviu o jantar aos deuses, meus caros campistas, vocs podem adivinhar o que havia no cozido? 
Ningum ousou responder. A luz do fogo brilhou em azul profundo, refletindo-se de modo maligno no rosto 
deformado de Tntalo. 
- Ah! os deuses o castigaram na vida aps a morte - coaxou Tntalo. - Eles fizeram isso, ah!, se fizeram. 
Mas ele teve seu momento de satisfao, no teve? Os filhos nunca mais lhe responderam nem 
questionaram sua autoridade. E vocs sabem o que mais? Diz-se que o esprito do rei agora reside 
exatamente neste acampamento, aguardando uma oportunidade de se vingar das crianas ingratas e 
rebeldes. E agora... mais alguma reclamao antes que mandemos Clarisse em sua misso? 
Silncio. 
Tntalo acenou com a cabea para Clarisse. 
- O Orculo, querida. V em frente. 
Ela mudou de posio, constrangida, como se mesmo ela no quisesse a glria ao preo de ser a 
queridinha de Tntalo. 
- Senhor... 
- V! - rosnou ele. 
Ela fez uma reverncia desajeitada e correu para a Casa Grande. 
- E quanto a voc, Percy Jackson? - perguntou Tntalo. - Mais algum comentrio do nosso lavador de 
pratos? 
No falei nada. No ia lhe dar o prazer de me castigar de novo. 
- Bom - disse Tntalo. - E deixem-me lembrar a todos: ningum parte deste acampamento sem minha 
permisso. Qualquer um que tentar... bem, se sobreviver  tentativa, ser expulso para sempre. Mas as 
coisas no chegaro a esse ponto. As harpias iro reforar o toque de recolher de agora em diante, 
e elas esto sempre com fome! Boa noite, queridos campistas. Durmam bem. 
Com um aceno de Tntalo, o fogo se extinguiu, e os campistas seguiram devagar para seus chals, no 
escuro. 
***** 

#
 Eu no conseguia explicar a situao a Tyson. Ele sabia que eu estava triste. Sabia que eu queria sair 
numa viagem e que Tntalo no me deixava. 
- Voc vai de qualquer jeito? - perguntou ele. 
- No sei - admiti. - Seria difcil. Muito difcil. 
- Eu vou ajudar. 
- No. Eu... ahn, no poderia lhe pedir isso, grando.  perigoso demais. 
Tyson baixou os olhos para os pedaos de metal que estava montando no colo - molas e engrenagens, e 
pequenos arames. Beckendorf lhe dera algumas ferramentas e peas sobressalentes, e agora Tyson 
passava todas as noites trabalhando, embora eu no soubesse muito bem como suas mos enormes 
conseguiam manejar pecinhas to delicadas. 
- O que est construindo? - perguntei. 
Tyson no respondeu. Em vez disso, fez um som lamuriento no fundo da garganta. 
- Annabeth no gosta dos ciclopes. Voc... voc no me quer por perto? 
- Ah! no  isso - falei sem muito entusiasmo. - Annabeth gosta de voc. De verdade. 
Ele tinha lgrimas no canto dos olhos. 
Lembrei que Grover, como todos os stiros, podia ler as emoes humanas. Fiquei pensando se os 
ciclopes no teriam o mesmo dom. 
Tyson enrolou seu projeto em um oleado. Deitou-se na cama e abraou sua trouxa como se fosse um 
ursinho de pelcia. Quando se virou para a parede, pude ver as estranhas cicatrizes em suas costas, 
como se algum tivesse passado um arado por cima dele, com um trator. Me perguntei pela milionsima 
vez como teria se machucado. 
Papai sempre se preocupou comigo - fungou ele. - Agora... acho que ele foi malvado em ter um menino 
ciclope. Eu no devia ter nascido. 
- No fale assim! Poseidon o reclamou, no foi? Ento... ele deve se preocupar com voc... muito... 
Minha voz sumiu quando pensei em todos aqueles anos em que Tyson vivera nas ruas de Nova York, em 
uma caixa de geladeira de papelo. Como Tyson podia pensar que Poseidon se preocupava com ele? 
Que tipo de pai  esse que deixa aquilo acontecer com um filho, mesmo que ele seja um monstro? 
- Tyson... o acampamento ser um bom lar para voc. Os outros vo se acostumar com voc. Eu prometo. 
Tyson suspirou. Esperei que dissesse alguma coisa. Ento me dei conta de que ele j estava dormindo. 
Deitei-me em minha cama e tentei fechar os olhos, mas no consegui. Estava com medo de ter outro 
sonho com Grover. Se a conexo emptica fosse real... se algo acontecesse com Grover... ser que eu ia 
acordar? 
A lua cheia brilhava pela janela. O som das ondas rugia na distncia. Eu podia sentir o cheiro morno dos 
campos de morangos, e ouvir os risos das drades perseguindo corujas pela floresta. Mas algo parecia 
errado naquela noite - a doena da rvore de Thalia, se espalhando pelo vale. 


#
Ser que Clarisse poderia salvar a Colina Meio-Sangue? Pensei que seria mais fcil eu ganhar de Tntalo 
um prmio de "Melhor Campista". 
Levantei-me e me vesti. Peguei uma toalha de praia e uma embalagem de seis Coca-Colas embaixo da 
cama. As Cocas eram contra as regras. No eram permitidos lanches ou bebidas de fora do 
acampamento, mas se a gente falasse com o cara certo no chal de Hermes e lhe pagasse alguns 
dracmas de ouro, ele podia contrabandear quase tudo da loja de convenincia mais prxima. 
Dar uma fugida depois do toque de recolher tambm era contra as regras. Se fosse pego, estaria numa 
encrenca enorme, ou seria comido pelas harpias. Mas eu queria ver o oceano. Sempre me sentia melhor 
ali. Meus pensamentos ficavam mais claros. Sa do chal e fui em direo  praia. 
Estendi a toalha perto do mar e abri uma Coca. Por alguma razo, o acar e a cafena sempre 
acalmavam meu crebro hiperativo. Tentei decidir o que fazer para salvar o acampamento, mas no me 
ocorreu nada. Desejei que Poseidon falasse comigo, que me desse um conselho ou o que fosse. 
O cu estava claro e estrelado. Eu estava conferindo as constelaes que Annabeth me ensinara - 
Sagitrio, Hrcules, Coroa Boreal - quando algum disse: 
- Lindas, no so? 
Quase cuspi o refrigerante. 
Em p, bem ao meu lado, havia um cara de short de corrida de nilon e camiseta da Maratona de Nova 
York. Era magro, estava em boa forma, com cabelo grisalho e um sorriso zombeteiro. Parecia meio 
familiar, mas no consegui imaginar por qu. 
Meu primeiro pensamento foi que ele devia estar dando sua corrida da meia-noite na praia e fora parar 
dentro dos limites do acampamento. Isso no era para acontecer. Mortais comuns no podiam entrar no 
vale. Mas, talvez, com o enfraquecimento da magia da rvore, ele tivesse conseguido se infiltrar. Mas no 
meio da noite? E ali no havia nada a no ser terras de fazendas e reservas estaduais. De onde aquele 
cara poderia ter sado? 
- Posso acompanh-lo? - perguntou ele. - H eras que eu me sento. 
Bem, eu sei - um cara estranho no meio da noite. Pelo bom senso, eu deveria ter sado correndo e 
gritando por socorro etc. O cara agiu de modo to calmo em relao a tudo que achei difcil ficar com 
medo. 
Eu disse: 
- Ahn, claro. 
Ele sorriu. 
- Sua hospitalidade  louvvel. Ah, e Coca-Cola! Posso? 
Ele se sentou na outra ponta da toalha, abriu um refrigerante e deu um gole. 
- Ah!...  exatamente o de que eu precisava. Paz e sossego em... 
Um telefone celular tocou no bolso dele. 
O corredor suspirou. Puxou o telefone e meus olhos se arregalaram porque aquilo brilhava com uma luz 
azulada. Quando ele puxou a antena, duas criaturas comearam a se contorcer em volta dela - cobras 
verdes, no maiores do que minhocas. 


#
O corredor pareceu nem notar. Conferiu o visor e praguejou. 
- Vou ter de atender. S um segundo... 
E, ento, ao telefone: "Al?" 
Ele escutou. As minicobras se contorciam para cima e para baixo na antena bem ao lado do ouvido dele. 
"Sim", disse o corredor. "Escute... eu sei, mas... No me imporia se ele est acorrentado a uma rocha com 
abutres bicando seu fgado, se ele no tem um nmero de protocolo, no podemos localizar seu pacote... 
Um presente para a humanidade, grande... Tem idia de quantos desses ns entregamos... Ah, deixe para 
l! Escute, mande-o falar com ris, no atendimento ao cliente. Preciso desligar." 
Ele desligou. 
- Desculpe-me. O negcio de expresso noturno est em alta. Mas como eu ia dizendo... 
- Voc tem cobras no seu telefone. 
- O qu? Ah! elas no mordem. Digam ol, George e Martha. 
Ol, George e Martha, disse uma voz masculina estridente dentro da minha cabea. 
No seja sarcstico, disse uma voz feminina. 
Por que no?, perguntou George. Sou eu que fao todo o trabalho de verdade. 
- Ora, no vamos comear com isso outra vez! - O corredor enfiou o telefone de volta no bolso. - Agora, 
onde estvamos... Ah, sim! Paz e sossego. 
Ele cruzou os ps e olhou para as estrelas. 
- Faz tanto tempo desde que consegui relaxar pela ltima vez! Desde o telgrafo  s... correr, correr, 
correr. Voc tem uma constelao favorita, Percy? 
Eu ainda estava meio intrigado com as cobrinhas verdes que ele enfiara no bolso do short, mas disse: 
- Ahn, eu gosto de Hrcules. 
- Por qu? 
- Bem... porque ele tinha um azar desgraado. Pior ainda que o meu. Faz eu me sentir melhor. 
O corredor riu. 
- No  porque ele era forte, famoso e tudo isso? 
- No. 
- Voc  um jovem interessante. Ento, e agora? 
Entendi imediatamente o que ele estava perguntando. O que eu pretendia fazer a respeito do Velocino? 
Antes que pudesse responder, a voz abafada de Martha, a cobra, veio do bolso dele: Estou com Dmeter 
na linha dois. 
- Agora no - disse o corredor. - Diga a ela para deixar uma mensagem. 


#
Ela no vai gostar disso. Na ltima vez em que voc a dispensou, todas as flores da diviso de entregas 
florais murcharam. 
- Diga-lhe apenas que estou em uma reunio! - O corredor revirou os olhos. - Desculpe de novo, Percy. 
Voc estava dizendo... 
- Ahn... quem  voc, exatamente? 
- Ainda no adivinhou, um menino esperto como voc? 
Mostre a ele!, implorou Martha. No fico do tamanho normal h meses. 
No d ouvidos a ela!, disse George. Ela s quer se mostrar! 
O homem pegou o telefone de novo. 
- Forma original, por favor. 
O telefone luziu em azul brilhante. Alongou-se at virar um basto um metro de comprimento e asas de 
pombos brotando no topo. George e Martha, agora cobras verdes de tamanho real, estavam enrolados no 
meio. Era um caduceu, o smbolo do Chal 11. 
Senti um aperto na garganta. Percebi quem o corredor me lembrava, com suas feies de elfo, o brilho 
travesso nos olhos... 
- Voc  o pai de Luke - falei. - Hermes. 
O deus fez um muxoxo. Fincou o caduceu na areia como se fosse um cabo de guarda-sol. 
- "Pai de Luke." Normalmente no  esse o modo como as pessoas costumam me apresentar. Deus dos 
ladres, sim. Deus dos mensageiros e dos viajantes, se quiserem ser gentis. 
Deus dos ladres funciona, disse George. 
Ah! no ligue para George, Martha vibrou a lngua para mim. Ele s est azedo porque Hermes gosta mais 
de mim. 
No gosta! 
Gosta sim! 
- Comportem-se, vocs dois - advertiu Hermes -, ou vou transform-los de novo em um telefone e pr no 
vibra-call! Agora, Percy, voc ainda no respondeu  minha pergunta. O que pretende fazer com respeito 
 misso? 
- Eu... eu no tenho permisso para ir. 
- No, de fato no. Isso vai det-lo? 
- Eu quero ir. Preciso salvar Grover. 
Hermes sorriu. 
- Certa vez conheci um menino... Ah, de longe mais jovem que voc! Apenas um beb, na verdade. 
L vamos ns de novo, disse George. Sempre falando de si mesmo. 


#
Quieto!, disparou Martha. Quer ser posto no vibra-call? 
Hermes os ignorou. 
- Uma noite, quando a me do menino no estava olhando, ele se esgueirou para fora da caverna e 
roubou algumas cabeas de gado que pertenciam a Apolo. 
- Ele foi explodido em pedacinhos? - perguntei. 
- Humm... no. Na verdade, tudo acabou muito bem. Para compensar o roubo, o menino deu a Apolo um 
instrumento que inventara... uma lira. Apolo ficou to encantado com a msica que se esqueceu da raiva. 
- Ento, qual  a moral? 
- A moral? - perguntou Hermes. - Cus, voc age como se fosse uma fbula.  uma histria verdadeira. A 
verdade tem moral? 
- Ahn... 
- Que tal: "Roubar nem sempre  ruim?" 
- No acho que minha me fosse gostar disso. 
Ratos so deliciosos, comentou George. 
O que isso tem a ver com a histria?, perguntou Martha. 
Nada, disse George. Mas eu estou com fome. 
- J sei - disse Hermes. - Os jovens nem sempre fazem o que lhes mandam, mas se conseguem se dar 
bem e fazer algo maravilhoso, s vezes escapam do castigo. Que tal? 
- Voc est dizendo que eu deveria ir de qualquer jeito  falei -, mesmo sem permisso. 
Os olhos de Hermes brilharam. 
Martha, quer me passar o primeiro pacote, por favor? Martha abriu a boca... e continuou a abri-la at o vo 
ficar do tamanho do meu brao. Expeliu um recipiente de inox - uma garrafa trmica de lancheira  moda 
antiga, com tampa de plstico preto. Era decorada com cenas da Grcia Antiga em vermelho e amarelo - 
um heri matando um leo; um heri levantando Crbero, o co de trs cabeas. 
- Hrcules - disse eu. - Mas como... 
- Nunca questione um presente - repreendeu Hermes.  Isso  um item de colecionador de Hrcules 
arrebenta cabeas. Primeira temporada. 
- Hrcules arrebenta cabeas? 
- Uma grande srie - suspirou Hermes. - Da poca em que a tev Hefesto no era s reality shows.  claro 
que valeria muito mais se eu tivesse a lancheira completa... 
Ou se ela no tivesse estado na boca de Martha, acrescentou George. 
Vou peg-lo por isso. Martha comeou a persegui-lo em volta do caduceu. 
- Espere um minuto - falei. - Isso  um presente? 


#
- O primeiro de dois presentes - disse Hermes. - V e frente, pegue. 
Quase deixei a garrafa cair, porque estava fria de congelar do um lado e queimando de to quente do 
outro. O mais esquisito era que, quando eu virava a garrafa, o lado que ficava de frente para o oceano - o 
norte - era sempre o lado frio... 
-  uma bssola! - falei. 
Hermes pareceu surpreso. 
- Muito engenhoso. Eu nunca tinha pensado nisso. Mas sua utilidade  muito mais radical. Destampe-a e 
vai libertar os ventos dos quatro cantos da Terra para despach-lo mais depressa em seu caminho. Agora 
no! E, por favor, quando chegar o momento, desenrosque a tampa s um pouquinho. Os ventos so um 
pouco como eu - sempre inquietos. Se todos os quatro escaparem de uma vez... ah! mas tenho certeza 
de que voc vai tomar cuidado, E agora, meu segundo presente. George? 
Ela est encostando em mim, reclamou George enquanto ele e Martha deslizavam em volta do basto. 
- Ela est sempre encostando em voc - disse Hermes. - Vocs esto entrelaados. E se no pararem 
com isso vo acabar se dando um n outra vez! 
As cobras pararam de brigar. 
George desconjuntou a mandbula e tossiu um pequeno frasco li plstico cheio de pastilhas de vitaminas. 
- Voc est brincando - disse eu. - Tm formato de Minotauro? 
Hermes pegou o frasco e o chacoalhou. 
- As de limo, sim. As de uva so Frias, eu acho, Ou seriam ndias? De um jeito ou de outro, essas so 
poderosas. No tome uma delas a no ser que precise muito, muito mesmo. 
- Como vou saber se preciso muito, muito mesmo? 
- Voc saber, acredite. Nove vitaminas essenciais, minerais, aminocidos... ah! tudo o de que voc 
precisa para se sentir voc mesmo outra vez. 
Ele me jogou o frasco. 
- Ahn, obrigado - disse eu. - Mas Senhor Hermes, porque est me ajudando? 
Ele me deu um sorriso melanclico. 
- Talvez porque eu espere que voc possa salvar muitas pessoas nessa misso, Percy. No apenas seu 
amigo Grover. 
Olhei para ele. 
- Voc no quer dizer... Luke? 
Hermes no respondeu. 
- Olhe - falei. - Senhor Hermes, quer dizer, obrigado e tudo mais, mas voc pode pegar de volta seus 
presentes. Luke no pode ser salvo. Mesmo que eu conseguisse encontr-lo... Ele me disse que queria 
destruir o Olimpo pedra por pedra. Traiu todos os que conhecia. Ele... ele odeia voc, especialmente. 
Hermes olhou de modo contemplativo para as estrelas. 

#
 - Meu caro jovem primo, se h algo que aprendi ao longo das eras,  que voc no pode desistir da sua 
famlia, no importa quanto se sinta tentado a isso. No importa que eles o odeiem, o envergonhem ou 
simplesmente no apreciem seu gnio por ter inventado a Internet... 
- Voc inventou a Internet? 
Foi idia minha, disse Martha. 
Ratos so deliciosos, disse George. 
- Foi minha idia! - falou Hermes. - Quer dizer, a Internet, no os ratos. Mas isso no vem ao caso. Percy, 
voc entende o que estou dizendo sobre a famlia? 
- Eu... eu no tenho certeza. 
- Um dia entender. - Hermes levantou-se e sacudiu a areia das pernas. - Enquanto isso, preciso ir 
andando. 
Voc tem sessenta chamadas para retornar, disse Martha. 
E mil e trinta e oito e-mails, acrescentou George. Sem contar as ofertas para comprar ambrosia on-line 
com desconto. 
- E voc, Percy - disse Hermes -, tem um prazo mais curto do que imagina para completar sua misso. 
Seus amigos devem estar chegando mais ou menos... agora. 
Ouvi a voz de Annabeth chamando meu nome das dunas. Tyson, tambm, estava gritando um pouco 
mais longe. 
- Espero ter feito as malas para vocs direito - disse Hermes. - Tenho certa experincia com viagens. 
Ele estalou os dedos e trs sacos de viagem amarelos apareceram aos meus ps. 
- A prova d'gua,  claro. Se voc pedir educadamente, seu pai  capaz de ajud-los a chegar at o 
navio. 
- Navio? 
Hermes apontou.  claro: um grande navio de cruzeiro estava atravessando o estreito de Long Island, 
as luzes brancas e douradas brilhando na gua escura. 
- Espere - disse eu. - No estou entendendo nada disso. Eu nem mesmo concordei em ir! 
- Eu me decidiria nos prximos cinco minutos, se fosse voc aconselhou Hermes. -  quando as harpias 
chegaro para com-lo. Agora, boa noite, primo, e... ser que ouso dizer? Que os deuses o 
acompanhem. 
Ele abriu a mo e o caduceu voou para ela. 
Boa sorte, disse Martha. 
Traga para mim um rato, disse George. 
O caduceu se transformou no telefone celular e Hermes o enfiou no bolso. 


#
Ele saiu correndo pela praia. Vinte passos depois, tremeluziu e desapareceu, deixando-me sozinho com 
uma garrafa trmica, um frasco de vitaminas e cinco minutos para tomar uma deciso muito difcil. 


#
OITO - Ns embarcamos no princesa Andrmeda 
Eu estava olhando para as ondas quando Annabeth e Tyson me acharam. 
- O que est acontecendo? - perguntou ela. - Ouvi voc gritando por socorro! 
- Eu tambm! - disse Tyson. - Ouvi voc gritar: "Coisas ruins esto atacando!" 
- Eu no chamei vocs - falei. - Estou bem. 
- Mas ento quem... - Annabeth notou os trs sacos de viagem amarelos, depois a garrafa trmica e o 
frasco de vitaminas que eu estava segurando. - Que... 
- Ouam bem. No temos muito tempo. 
Contei-lhes minha conversa com Hermes. Quando terminei pude ouvir guinchos a distncia - a patrulha de 
harpias identificando nosso cheiro. 
- Percy - disse Annabeth. - Temos de partir na misso. 
- Vamos ser expulsos, voc sabe. Confie em mim, sou especialista em ser expulso. 
- E da? Se fracassarmos, no haver nenhum acampamento para voltar. 
- Sim, mas voc prometeu a Quron... 
Prometi que ia manter voc afastado do perigo. S posso fazer isso indo com voc! Tyson pode ficar e 
contar a eles... 
- Eu quero ir - disse Tyson. 
- No! - A voz de Annabeth soou quase em pnico.  Quer dizer... Vamos l, Percy. Voc sabe que  
impossvel. 
Outra vez me perguntei o porqu da antipatia dela pelos ciclopes. Havia alguma coisa que Annabeth no 
estava me contando. 
Ela e Tyson me olharam, esperando uma resposta. Enquanto isso, o navio de cruzeiro se afastava cada 
vez mais. 
A questo era que parte de mim no queria a companhia de Tyson. Eu passara os ltimos trs dias muito 
perto do cara, sendo ridicularizado pelos outros campistas e envergonhado um milho de vezes por dia, 
constantemente lembrado de que ramos parentes. Precisava de um pouco de espao. 
Alem disso, no sabia quanta ajuda ele poderia oferecer, ou como eu faria para mant-lo em segurana. 
Sem dvida, ele era forte, mas era uma criancinha em termos de ciclopes, talvez sete ou oito anos de 
idade mental. Eu podia imagin-lo perdendo o controle e comeando a chorar enquanto tentvamos 
passar por algum monstro ou coisa assim. amos ser mortos por causa dele. 
Por outro lado, o som das harpias estava chegando mais perto... 
- No podemos deix-lo - decidi. - Tntalo vai castig-lo por termos partido. 


- Percy - disse Annabeth, tentando manter a calma -, estamos indo para a ilha de Polifemo! Polifemo  um 
c-i-c... um c-i-c... - Ela bateu os ps de frustrao. Por mais esperta que fosse, Annabeth tambm era 

#
dislxica. Poderamos ficar l a noite inteira enquanto ela tentava soletrar ciclope. - Voc sabe o que eu 
quero dizer! 
- Tyson pode vir - insisti -, se ele quiser. 
Tyson bateu palmas. 
- Eu quero! 
Annabeth me fuzilou com o olhar, mas acho que ela percebeu que eu no ia mudar de idia. Ou talvez 
simplesmente soubesse que no tnhamos tempo para discutir. 
- Tudo bem - disse ela. - Como chegamos at aquele navio? 
- Hermes disse que meu pai ajudaria. 
- E ento, Cabea de Alga? Est esperando o qu? 
Eu sempre achei difcil chamar meu pai, ou rezar, ou o que seja, mas avancei para as ondas. 
- Ahn, pai? - chamei. - Como vo as coisas? 
- Percy! - sussurrou Annabeth. - Estamos com pressa! 
- Precisamos da sua ajuda - falei um pouco mais alto. - Precisamos chegar at aquele navio, tipo antes 
que sejamos comidos ou coisa parecida, ento... 
De incio, nada aconteceu. As ondas quebravam na praia, como sempre. As harpias pareciam estar logo 
atrs das dunas. Ento, cerca de cem metros mar adentro, trs linhas brancas apareceram na superfcie. 
Moveram-se com velocidade em direo  praia, como garras rasgando o oceano. 
Quando se aproximaram, as guas se abriram e as cabeas de trs corcis brancos se ergueram das 
ondas. 
Tyson prendeu a respirao. 
- Peixes-pneis! 
Ele estava certo. Quando as criaturas se arrastaram para a areia, vi que eram cavalos apenas na frente; a 
metade traseira era de corpos prateados de peixe, com escamas reluzentes e nadadeiras de arco-ris na 
cauda. 
- Cavalos-marinhos! - disse Annabeth. - So lindos. 
O mais prximo relinchou, agradecendo, e esfregou o focinho cm Annabeth. 
- Vamos admir-los depois - falei. - Vamos! 
- Ali! - guinchou uma voz atrs de ns. - Crianas ms fora dos chals! Hora do lanche para harpias 
sortudas! 
Cinco delas estavam pairando acima das dunas - pequenas bruxas gorduchas, com a cara chupada, 
garras e asas de penas, pequenas demais para o corpo. Elas me lembravam um cruzamento de 
atendente de lanchonete com passarinho. No eram muito rpidas, graas aos deuses, mas eram ferozes 
quando pegavam algum. 
- Tyson! - disse eu. - Agarre um saco de viagem! 

#
 Ele ainda estava olhando boquiaberto para os cavalos-marinhos. 
- Tyson! 
- Ahn? 
- Venha! 
Com a ajuda de Annabeth, consegui faz-lo se mexer. Recolhemos os sacos e montamos nossos corcis. 
Poseidon devia saber que Tyson era um dos passageiros, pois um dos cavalos-marinhos era muito maior 
que os outros dois - do tamanho certo para transportar um ciclope. 
- Eah! - disse eu. 
Meu cavalo-marinho se virou e mergulhou nas ondas. Annabeth e Tyson seguiram logo atrs. 
As harpias nos amaldioaram, implorando a seus lanches que voltassem, mas os cavalos-marinhos 
dispararam sobre a gua na velocidade de jet skis. As harpias ficaram para trs, e logo a praia do 
Acampamento Meio-Sangue nada mais era seno uma mancha escura. Ser que eu voltaria a ver aquele 
lugar? Naquele momento, porm, eu tinha outros problemas. 
O navio de cruzeiro agora crescia diante de ns - nossa carona para a Flrida e o Mar de Monstros. 
***** 
Montar o cavalo-marinho era ainda mais fcil do que montar um pgaso. Nos deslocamos depressa, com o 
vento no rosto, disparando nas ondas de modo to suave e firme que mal precisei me segurar. 
Quando nos aproximamos do navio, percebi quanto era enorme. Era como olhar para um edifcio em 
Manhattan. O casco branco tinha pelo menos dez andares, e acima dele havia mais uma dzia de 
conveses com balces e vigias iluminados. O nome do navio estava pintado logo acima da linha de proa, 
em letras pretas, iluminadas por um refletor. Levei alguns segundos para decifr-lo: 
PRINCESA ANDRMEDA 
Presa  proa havia uma enorme figura - uma mulher com trs andares de altura vestindo uma tnica grega 
branca, esculpida para parecer que estava acorrentada  frente do navio. Ela era jovem e linda, com 
cabelos pretos flutuantes, mas sua expresso era de terror absoluto. Por que algum iria querer uma 
princesa aos gritos na frente do navio de suas frias, eu no tinha idia. 
Lembrei-me do mito de Andrmeda e de como ela fora acorrentada a uma rocha pelos prprios pais, como 
sacrifcio a um monstro marinho. Talvez seu boletim fosse horrvel ou coisa assim. De qualquer modo, 
meu xar Perseu a salvara no ltimo minuto e transformara o monstro marinho em pedra usando a cabea 
da Medusa. 
Aquele Perseu sempre vencia.  por isso que minha me me deu seu nome, muito embora ele fosse um 
filho de Zeus, e eu, de Poseidon. O Perseu original foi um dos nicos heris dos mitos gregos que teve 
final feliz. Os outros morreram - trados, espancados, mutilados, envenenados ou amaldioados pelos 
deuses. Minha me esperava que eu herdasse a sorte dele. Do jeito como minha vida ia at ali, eu no 
estava l muito otimista. 
- Como vamos embarcar? - gritou Annabeth, mais alto que o barulho das ondas. 
Mas os cavalos-marinhos pareciam saber o que era preciso. Deslizaram ao longo do estibordo do navio, 
passando facilmente . Atravs da enorme esteira, e encostaram-se junto a uma escada de servio rebitada 
ao casco. 

#
 - Voc primeiro - disse a Annabeth. 
Ela jogou o saco de viagem no ombro e agarrou o primeiro degrau. Depois que ela se iou para a escada, 
seu cavalo-marinho relinchou uma despedida e mergulhou na gua. Annabeth comeou a escalar. Deixei-
a subir alguns degraus, e ento a segui. 
Por fim restara somente Tyson na gua. Seu cavalo-marinho o estava divertindo com areos de trezentos 
e sessenta graus e saltos para trs, e Tyson ria histericamente, o som reverberando no casco do navio. 
- Tyson, shhh! Venha, grando! 
- No podemos levar Arco-ris? - perguntou, o sorriso sumindo. 
Olhei para ele. 
- Arco-ris? 
O cavalo-marinho relinchou, como se tivesse gostado de seu novo nome. 
- Ahn, ns temos de ir - disse eu. - Arco-ris... bem, ele no pode subir escadas. 
Tyson fungou. Ele enterrou a cara na crina do hipocampo. - Vou sentir saudade, Arco-ris! 
O cavalo-marinho emitiu um som de relincho que eu podia jurar que era choro. 
- Quem sabe a gente encontra com ele de novo - sugeri. 
- Ah, por favor! - disse Tyson, animando-se imediatamente. - Amanh! 
No fiz nenhuma promessa, mas consegui convencer Tyson a dizer, adeus e a se agarrar  escada. Com 
um ltimo relincho triste, Arco-ris, o hipocampo, deu um salto-mortal para trs e mergulhou no mar. 
***** 
A escada levava a um convs de manuteno cheio de botes salva-vidas amarelos. Havia uma porta 
dupla trancada, que Annabeth conseguiu arrombar com sua faca e uma boa dose de pragas em grego 
antigo. 
Imaginei que teramos de nos esgueirar por ali, j que ramos clandestinos e tudo mais, mas depois de 
examinar alguns corredores e espiar, por cima de um balco, um enorme corredor central ladeado por 
lojas fechadas, comecei a me dar conta de que no havia ningum de quem nos esconder. Quer dizer,  
claro que estvamos no meio da noite, mas andamos metade da extenso do navio e no encontramos 
ningum. Passamos por quarenta ou cinqenta portas de cabines e no ouvimos rudo algum atrs delas. 
-  um navio-fantasma - murmurei. 
- No - disse Tyson, manuseando a ala do seu saco de viagem. - Cheiro ruim. 
Annabeth franziu o cenho. 
- No sinto cheiro de nada. 
- Os ciclopes so como os stiros - disse eu. - Eles podem farejar monstros. No  verdade, Tyson? 


Ele fez que sim, nervoso. Agora que estvamos longe do Acampamento Meio-Sangue, a Nvoa distorcia 
seu rosto de novo. A no ser que eu me concentrasse muito, parecia que ele tinha dois olhos, no um. 

#
 - Certo - disse Annabeth. - Ento est sentindo cheiro de qu, exatamente? 
- Coisa ruim - respondeu Tyson. 
- Beleza - resmungou ela. - Isso esclarece tudo. Fomos para fora, no deque da piscina. Havia fileiras de 
espreguiadeiras vazias e um bar fechado com uma cortina de correntes. A gua da piscina brilhava de 
modo fantasmagrico, ondulando de um lado para o outro com os movimentos do navio. 
Acima de ns,  frente e atrs, havia mais deques - uma parede de escalada, uma pista de minigolfe, um 
restaurante giratrio, mas nenhum sinal de vida. 
E no entanto... Eu senti algo familiar. Algo perigoso. Tinha a impresso de que, se no estivesse to 
cansado e exausto de tanta adrenalina por causa de nossa longa noite, talvez conseguisse dar um nome 
ao que estava errado. 
- Precisamos de um esconderijo - disse eu. - Algum lugar seguro para dormir. 
- Dormir - concordou Annabeth, cansada. 
Exploramos mais alguns corredores at chegarmos a uma sute vazia no nono deque. A porta estava 
aberta, o que me pareceu estranho. Havia uma cesta de chocolates sobre a mesa, uma garrafa gelada de 
cidra espumante sobre a mesa-de-cabeceira e uma pastilha de hortel em cima do travesseiro com um 
bilhete manuscrito que dizia: Aproveite seu cruzeiro! 
Abrimos nossos sacos de viagem e descobrimos que Hermes realmente pensara em tudo - roupas, artigos 
de toalete, raes de acampamento, um saco ziploc cheio de dinheiro, uma bolsa de couro cheia de 
dracmas de ouro. Conseguira at mesmo incluir o oleado de Tyson com suas ferramentas e pedaos de 
metal, bon de invisibilidade de Annabeth, o que fez os dois se sentirem um pouco melhor. 
- Vou estar na porta ao lado - disse Annabeth. - Voc garotos, no bebam nem comam nada. 
- Acha que este lugar  encantado? 
Ela franziu a testa. 
- No sei. Alguma coisa no est certa. De qualquer jeito tenham cuidado. 
Trancamos nossas portas. 
Tyson desabou na cama. Ele mexeu por alguns minutos em um projeto de trabalho em metal - que ainda 
no me mostrara -, mas logo comeou a bocejar. Enrolou seu oleado e adormeceu. 
Fiquei deitado na cama, olhando pela vigia. Pensei ter ouvido vozes no corredor, como sussurros. Sabia 
que no era possvel. Andamos pelo navio inteiro e no vimos ningum. Mas as vozes me mantiveram 
acordado. Elas me lembraram a viagem ao Mundo Inferior - os rudos que os espritos dos mortos faziam ao 
passarem. 
Por fim meu cansao levou a melhor. Ca no sono... e tive pior pesadelo at ento. 
***** 
Eu estava em uma caverna,  beira de um poo enorme. Conhecia muito bem o lugar. A entrada para o 
Trtaro. E reconheci a risada fria que ecoava da escurido abaixo. 


#
Ora, ora, o jovem heri. A voz era como a lmina de uma faca raspando pedra. A caminho de outra grande 
vitria. 
Eu quis gritar para que Cronos me deixasse em paz. Quis sacar Contracorrente e derrub-lo com um 
golpe. Mas no conseguia mover. E, mesmo que conseguisse, como iria matar algum que tinha sido 
destrudo - picado em pedacinhos e lanado nas eternas? 
No permita que eu o detenha, disse o tit. Talvez dessa vez, quando fracassar, v perguntar a si mesmo se 
vale a pena ser escravo dos deuses. Como foi mesmo que seu pai demonstrou agradecimento nos ltimos 
tempos? 
Sua gargalhada encheu a caverna, e subitamente a cena mudou. 
Era uma caverna diferente - o quarto-priso de Grover no covil do ciclope. 
Grover estava sentado junto ao tear usando seu vestido de noiva encardido, desfazendo em desespero os 
fios da cauda inacabada do vestido. 
- Docinhol - gritou o monstro de trs da rocha. Grover ganiu e comeou a tecer os fios de volta. 
O quarto estremeceu quando a rocha foi empurrada para o lado. Assomando  porta estava um ciclope to 
enorme que fazia Tyson parecer verticalmente desafiado. Tinha dentes amarelos e tortos e mos speras 
quase do meu tamanho. Usava uma camiseta desbotada que dizia EXPO MUNDIAL DE CARNEIROS 2001. 
Devia medir pelo menos cinco metros, porm o mais assustador era seu enorme olho leitoso, marcado e 
recoberto por uma teia de catarata no era completamente cego, estava muito perto disso. 
- O que est fazendo? - perguntou o monstro. 
- Nada! - disse Grover em sua voz de falsete. - S tecendo a cauda do meu vestido de noiva, como pode 
ver. 
O ciclope estendeu uma das mos para dentro do quarto e tateou at encontrar o tear. Apalpou o tecido. 
- No ficou nem um pouco maior! 
- Ah! ahn, sim, ficou, querido. Est vendo? Acrescentei pelo menos trs centmetros. 
- Est demorando demais! - urrou o monstro. Ento ele farejou o ar. - Voc tem um cheiro bom! Como os 
bodes! 
- Ah! - Grover forou uma fraca risadinha. - Voc gosta?  Eau de Chvre. Eu uso s para voc. 
- Mmrnm! - O ciclope mostrou os dentes pontudos. Bom de comer! 
- Ah, voc  to galanteador! 
- Chega de atrasos! 
- Mas, querido, eu no estou pronta! 
- Amanh! 
- No, no. Mais dez dias. 
- Cinco! 
- Ah! bem, ento sete. Se voc insiste. 

#
 - Sete! Isso  menos que cinco, certo? 
- Certamente. Ah, sim! 
O monstro resmungou, no muito satisfeito com sua negociao, mas deixou Grover continuar tecendo e 
rolou a rocha de volta a seu lugar. 
Grover fechou os olhos e respirou fundo, trmulo, tentando acalmar os nervos. 
- Depressa, Percy - murmurou ele. - Por favor, por favor, por favor! 
***** 
Acordei com um apito do navio e uma voz no alto-falante - algum com um sotaque australiano que 
parecia alegre demais. 
- Bom dia, passageiros! Hoje estaremos no mar o dia inteiro. Tempo excelente para a festa de mambo  
beira da piscina! No esqueam o bingo de um milho de dlares no Salo do Kraken  uma hora, e para 
os nossos hspedes especiais, exerccios de estripao no convs principal! 
Sentei-me na cama. 
- O que ele disse? 
Tyson gemeu, ainda meio dormindo. Estava deitado na cama de barriga para baixo, os ps to alm da 
beirada que foram parar no banheiro. 
- O homem alegre disse... exerccio com equipamentos? 
Esperava que ele estivesse certo, mas ento ouvi uma batida insistente na porta interna da sute. 
Annabeth enfiou a cabea para dentro - os cabelos loiros pareciam um ninho de rato. 
- Exerccio de estripao? 
Depois de vestidos nos aventuramos a caminhar pelo navio. Ficamos surpresos ao vermos outras 
pessoas. Uma dzia de idosos indo tomar o caf-da-manh. Um pai levando os filhos para um mergulho 
matinal na piscina. Tripulantes em impecveis uniformes IM incos tocando os chapus em saudao para 
os passageiros. 
Ningum perguntou quem ramos. Ningum prestou muita ateno em ns. Mas havia algo errado. 
Quando a famlia de nadadores passou por ns, o pai disse aos filhos: 
- Estamos num cruzeiro. Estamos nos divertindo. 
- Sim - disseram as trs crianas em unssono, a expresso vazia. - Estamos nos divertindo  beca. Vamos 
mergulhar na piscina. 
Afastaram-se. 
- Bom-dia! - disse-nos um tripulante, os olhos vidrados. Estamos nos divertindo a bordo do Princesa 
Andrmeda. Tenham um bom dia. - Ele se afastou. 
- Percy, isso  muito estranho - sussurrou Annabeth. - Esto todos em uma espcie de transe. 


#
Depois passamos por uma lanchonete e vimos nosso primeiro monstro. Era um co do inferno - um 
mastim preto, na fila do buf, apoiado nas patas traseiras e com o focinho enfiado nos ovos mexidos. 
Devia ser jovem, pois era pequeno em comparao com a maioria - no maior que um urso-escuro. Ainda 
assim, meu sangue gelou. Eu quase tinha sido morto por um daqueles antes. O que era mais estranho: um 
casal de meia-idade estava na fila do buf logo atrs do co-demnio, esperando pacientemente sua vez 
de se servir dos ovos. Pareciam no estar notando nada de extraordinrio. 
- Perdi a fome - murmurou Tyson. 
Antes que Annabeth ou eu pudssemos responder, uma voz reptiliana veio do corredor: 
- Maisss ssseisss chegaram ontem. 
Annabeth fez gestos frenticos em direo ao esconderijo mais prximo - o banheiro feminino -, e ns trs 
entramos depressa. Eu estava to apavorado que nem me ocorreu ficar com vergonha. 
Alguma coisa, ou melhor, duas coisas passaram deslizando pela porta do banheiro, fazendo um barulho 
como o de uma lixa esfregada contra o carpete. 
- Ssssim - disse uma segunda voz reptiliana.  Ele osss atrai. Logo essssstaremossss fortessss. 
As coisas deslizaram para dentro da lanchonete com um silvo frio que poderia bem ser risada de cobra. 
Annabeth olhou para mim. 
- Temos de dar o fora daqui. 
- Acha que eu quero ficar no banheiro das meninas? 
- Do navio, Percy! Temos de dar o fora do navio. 
- Cheira mal - concordou Tyson. - E os cachorros comem todos os ovos. Annabeth tem razo. Precisamos 
dar o fora do banheiro e do navio. 
Eu estremeci. Se Annabeth e Tyson estavam concordando em alguma coisa, calculei que seria melhor 
escut-los. 
Ento ouvi outra voz do lado de fora - uma voz que me deixou mais gelado que a de qualquer monstro. 
- ... s uma questo de tempo. No me pressione, Agrio! 
Era Luke, sem dvida alguma. Jamais esqueceria a voz dele. 
- No estou pressionando! - resmungou um outro cara. Sua voz era mais profunda e ainda mais zangada 
que a de Luke. 
S estou dizendo que se esse jogo no compensar... 
- Vai compensar - disparou Luke. - Eles vo morder a isca. Agora venha, temos de ir at a sute do 
almirantado e verificar o caixo. 
As vozes se afastaram pelo corredor. Tyson choramingou. 
- Samos agora? 
Annabeth e eu trocamos olhares e entramos num acordo silencioso. 
- No podemos - disse a Tyson. 

#
 - Temos de descobrir o que Luke est aprontando - concordou Annabeth. - E, se possvel, vamos lhe dar 
uma surra, acorrent-lo e arrast-lo para o Monte Olimpo. 


#
NOVE - Minha pior reunio de famlia de todos os tempos 
Annabeth se ofereceu para ir sozinha, j que tinha o bon invisibilidade, mas eu a convenci de que era 
perigoso demais, amos todos juntos, ou no ia ningum. 
- Ningum! - votou Tyson. - Por favor. 
Mas no fim ele foi junto, roendo nervosamente suas unhas enormes. Paramos na cabine s pelo tempo de 
juntar nossas coisas. Sabamos que, independentemente do que acontecesse, no passaramos outra 
noite a bordo do navio de zumbis, mesmo que eles tivessem um bingo de um milho de dlares. Conferi 
se Contracorrente estava no meu bolso, e se as vitaminas e a garrafa trmica de Hermes estavam logo na 
boca do saco de viagem. No queria que Tyson carregasse tudo, mas ele insistiu, e Annabeth disse que 
eu no me preocupasse com isso. Tyson era capaz de carregar no ombro trs sacos de viagem cheios 
com a mesma facilidade co que eu carregava uma mochila. 
Ns nos esgueiramos pelos corredores, seguindo as placas VOC EST AQUI em direo  sute do 
almirantado. Annabeth foi na frente, invisvel. Toda vez que passava algum a gente se escondia, mas a 
maioria das pessoas que vamos era apenas passageiro zumbis de olhos vidrados. 
Quando subimos as escadas para o convs 13, onde deveria estar a sute do almirantado, Annabeth 
sussurrou: 
- Escondam-se! - e nos empurrou para dentro de um pequeno almoxarifado. 
Ouvi dois caras descendo o corredor. 
- Voc viu aquele drago etope no poro de carga? - disse im deles. 
O outro riu. 
- Sim,  impressionante. 
Annabeth ainda estava invisvel, mas apertou meu brao com fora. Tive a impresso de que conhecia a 
voz do segundo cara. 
- Ouvi dizer que vm vindo mais dois - disse a voz familiar. - Se continuarem chegando nesse ritmo, rapaz! 
No haver concurso! 
As vozes foram sumindo no corredor. 
- Aquele era Chris Rodrigues! - Annabeth tirou o bon e ficou visvel. - Voc lembra... do Chal 11. 
Eu me lembrava vagamente de Chris, do vero anterior. Era um dos campistas indeterminados que 
ficaram empacados no chal de Hermes porque seu pai olimpiano, ou sua me, nunca o reclamaram. Ali, 
pensando nisso, percebi que no tinha visto Chris no acampamento. 
- O que um outro meio-sangue est fazendo aqui? 
Annabeth sacudiu a cabea, claramente perturbada. 
Continuamos seguindo pelo corredor. Eu no precisava mais de mapas para saber que estava chegando 
perto de Luke. Sentia algo frio e desagradvel - a presena do mal. 
- Percy. - Annabeth parou de repente. - Olhe. 


#
Ela estava diante de uma parede de vidro que dava para um cnion de vrios andares, que atravessava o 
meio do navio. No fundo estava o convs principal - um centro comercial cheio de lojas -, mas no foi isso 
que chamou a ateno de Annabeth. 
Um grupo de monstros estava reunido na frente da doceria: uma dzia de gigantes lestriges, como os 
que me atacaram com bolas de queimado, dois ces monstruosos com trs cabeas e cauda de drago e 
algumas criaturas ainda mais estranhas - fmeas humanides com caudas duplas de serpente, em vez de 
pernas. 
- Dracaenae da Ctia  sussurrou Annabeth.  Mulheres-drago. 
Os monstros estavam em um semicrculo em volta de um jovem de armadura grega que despedaava um 
boneco de palha. Fiquei com um n na garganta quando percebi que o boneco usava uma camiseta 
laranja do Acampamento Meio-Sangue. Enquanto olhvamos, o cara de armadura deu uma estocada na 
barriga do boneco e rasgou-o de baixo para cima. Voou palha para todos os lados. Os monstros 
aplaudiram e gritaram. 
Annabeth se afastou da janela. Seu rosto estava cinzento. 
- Vamos - disse-lhe, tentando parecer mais valente do que me sentia. - Quanto antes acharmos Luke, 
melhor. 
No fim do corredor havia uma porta dupla de carvalho que parecia levar a algum lugar importante. Quando 
estvamos a dez metros, Tyson parou. 
- Vozes l dentro. 
- Voc pode ouvir de to longe? - perguntei. 
Tyson fechou os olhos como se estivesse se concentrando ao mximo. Ento sua voz mudou, 
transformando-se numa imitao rouca da voz de Luke. 
-... a profecia ns mesmos. Os idiotas no vo saber para que lado virar. 
Antes que eu pudesse reagir, a voz de Tyson mudou de novo, agora mais profunda e rspida, como a do 
outro cara que ouvimos falando com Luke do lado de fora da lanchonete. 
- Acha mesmo que o velho homem-cavalo se foi para sempre? 
Tyson riu a risada de Luke. 
- No podem confiar nele. No com aqueles esqueletos no armrio dele. O envenenamento da rvore foi a 
ltima gota. 
Annabeth estremeceu. 
- Pare com isso, Tyson! Como voc faz isso?  sinistro! Tyson abriu o olho e pareceu confuso. 
- Estava s ouvindo. 
- Continue - disse eu. - O que mais eles esto dizendo? Tyson fechou o olho de novo. 
Ele sussurrou na voz do homem zangado: 
- Silncio! 
E, ento, na voz de Luke, cochichando: 

#
 - Voc tem certeza? 
- Sim - disse Tyson na voz rouca. - Bem a fora. 
Era tarde demais quando percebi o que estava acontecendo. 
- Corram! 
Foi s o que tive tempo de dizer, quando as portas do camarote se abriram violentamente e l estava 
Luke, ladeado por dois gigantes peludos armados com dardos, as pontas de bronze apontadas 
diretamente para os nossos peitos. 
- Bem - disse Luke, com um sorriso torto. - Ora, ora, so os meus dois primos favoritos. Vo entrando. 
***** 
O camarote era lindo, e era horrvel. 
A parte linda: enormes janelas curvas ao longo da parede dos fundos, dando para a popa do navio. Mar 
verde e cu azul se estendiam at o horizonte. Um tapete persa cobria o cho. Dois sofs de pelcia 
ocupavam o meio da sala, uma cama com dossel em um canto e uma mesa de jantar de mogno no outro. 
A mesa estava lotada de comida - caixas de pizza, garrafas refrigerante e uma pilha de sanduches de 
rosbife em cima de uma bandeja de prata. 
A parte horrvel: sobre uma plataforma de veludo no fundo sala havia um caixo dourado de trs metros. 
Um sarcfago, decorado com cenas de cidades da Grcia Antiga em chamas e heris morrendo de modo 
pavoroso. Apesar da luz do sol que se filtra pelas janelas, o caixo fazia a sala inteira parecer fria. 
- Bem - disse Luke, abrindo os braos com orgulho. Um pouco mais agradvel do que o Chal 11, hein? 
Ele mudara desde o ltimo vero. Em vez de bermudas camiseta, usava uma camisa toda abotoada, cala 
caqui e mocassins de couro. Seu cabelo cor de areia, que era to rebelde, agora estava aparado curto. 
Parecia um modelo do mal, mostrando que os viles fashion de idade universitria usavam em Harvard 
naquele vero. 
Ainda tinha a cicatriz embaixo do olho - uma linha branca irregular, de sua batalha com um drago. E 
encostada no sof estava sua espada mgica, Mordecostas, brilhando estranhamente com sua lmina 
meio-ao, meio-bronze celestial, que podia matar tanto mortais como monstros. 
- Sentem-se - disse-nos. Acenou com a mo, e trs cadeiras de jantar deslizaram sozinhas para o centro 
da sala. 
Nenhum de ns se sentou. 
Os amigos enormes de Luke ainda apontavam seus dardos da para ns. Pareciam gmeos, mas no 
eram humanos. Mediam cerca de dois metros e meio, para comear, e usavam apenas jeans, 
provavelmente porque os peitos enormes j eram recobertos por grossas felpas marrons. Tinham garras 
no lugar de unhas e os ps eram como patas. Os narizes eram focinhos animalescos e os dentes eram 
todos caninos pontudos. 
- Que falta de cortesia a minha - disse Luke, suavemente. Estes so meus assistentes, Agrios e Oreios. 
Talvez vocs j tenham ouvido falar deles, eu no disse nada. Apesar dos dardos apontados para mim, 
no eram os gmeos ursos que me assustavam. 


#
Tinha imaginado meu reencontro com Luke muitas vezes desde que ele tentara me matar no ltimo vero. 
Eu me via corajosamente de p diante dele, desafiando-o para um duelo. Mas, agora que estvamos cara 
a cara, eu mal conseguia impedir que minhas mos tremessem. 
- Vocs no conhecem a histria de Agrios e Oreios? - perguntou Luke. - A me deles... bem,  triste, de 
verdade. Afrodite ordenou  jovem mulher que se apaixonasse. Ela se recusou e correu para rtemis 
pedindo ajuda. rtemis deixou que ela se tornasse uma das suas caadoras virgens, mas Afrodite teve 
sua vingana. Enfeitiou a jovem para que se apaixonasse por um urso. Quando rtemis descobriu, ela 
abandonou a moa, enojada. Tpico dos deuses, no acha? Eles brigam entre si e os pobres humanos 
so apanhados no meio. Os filhos gmeos da moa, aqui, Agrios e Oreios, no morrem de amores pelo 
Olimpo. Mas gostam bastante de meios-sangues, contudo... 
- Para o almoo - rosnou Agrios. Sua voz rouca era a que eu tinha ouvido falando com Luke. 
-Hehe! Hehe! - riu seu irmo, Oreios, lambendo os beios peludos. Ele continuou rindo como se estivesse 
tendo uma crise de asma at que Luke e Agrios o olharam. 
- Cale a boca, seu idiota! - rosnou Agrios. - V se castigar! 
Oreios choramingou. Arrastou-se at o canto da sala, deixou-se cair em uma banqueta e bateu a testa 
contra a mesa de jantar, fazendo tilintar os pratos de prata. 
Luke agiu como se aquele fosse um comportamento perfeitamente normal. Acomodou-se no sof e ps os 
ps em cima da mesa de caf. 
- Bem, Percy, deixamos voc sobreviver mais um ano. Espero que tenha gostado. Como vai sua me? 
Como vai a escola? 
- Voc envenenou a rvore de Thalia. 
Luke suspirou. 
- Direto ao ponto, no ? Ok., envenenei mesmo a rvore. E da? 
- Como pde fazer isso? - Annabeth parecia to zangada que pensei que ela fosse explodir. - Thalia 
salvou sua vida! Nossas vidas! Como pde desonr-la... 
- Eu no a desonrei! - disparou Luke. - Os deuses a desonraram, Annabeth! Se Thalia estivesse viva, 
estaria do meu lado. 
- Mentiroso! 
- Se voc soubesse o que ia acontecer, entenderia... 
- Eu entendo que voc quer destruir o acampamento! - gritou ela. - Voc  um monstro! 
Luke sacudiu a cabea. 
- Os deuses a cegaram. Voc no consegue imaginar uni mundo sem eles, Annabeth? De que adianta a 
histria antiga que voc estuda? Trs mil anos de bagagem! O Ocidente est podre at a alma. Precisa 
ser destrudo. Junte-se a mim! Podemos refazer o mundo do zero. Podemos usar sua inteligncia, 
Annabeth. 
- Porque voc no tem inteligncia nenhuma! 


Os olhos dele se estreitaram. 


#
- Conheo voc, Annabeth. Voc merece coisa melhor do que ir atrs de uma misso sem chances para 
salvar o acampamento. A Colina Meio-Sangue ser invadida por monstros em menos de um ms. Os 
heris que sobreviverem no tero escolha seno juntar-se a ns ou ser caados at a extino. Voc 
realmente quer estar em um time perdedor... com uma companhia dessa? - Luke apontou para Tyson. 
- Ei! - disse eu. 
- Viajando com um ciclope - caoou Luke. - E falando sobre desonrar a memria de Thalia! Estou surpreso 
com voc, Annabeth. Voc, de todas as pessoas... 
- Pare com isso! - gritou ela. 
No sabia do que Luke estava falando, mas Annabeth enterrou a cabea nas mos como se estivesse a 
ponto de chorar. 
- Deixe-a em paz - disse eu. - E deixe Tyson fora disso. 
Luke riu. 
- Ah! sim, ouvi dizer. Seu pai o reclamou. 
Devo ter parecido surpreso, pois Luke sorriu. 
- Sim, Percy, eu sei tudo sobre isso. E sobre seu plano de encontrar o Velocino. Quais eram mesmo 
aquelas coordenadas... 30, 31, 75, 12? Como v, ainda tenho amigos no acampamento que me mantm 
informado. 
- Espies, voc quer dizer. 
Ele deu de ombros. 
- Quantos insultos de seu pai voc pode agentar, Percy? Acha que ele  grato a voc? Acha que 
Poseidon se importa com voc mais do que se importa com esse monstro? 
Tyson cerrou os punhos e fez um rudo surdo na garganta. 
Luke apenas deu uma risadinha. 
- Os deuses esto usando voc Percy. Tem idia do que est reservado para voc se chegar ao dcimo 
sexto aniversrio? Quron j lhe contou a profecia? 
Tive vontade de falar umas verdades na cara de Luke, mas, como  de praxe, ele conhecia a maneira de 
me deixar desconcertado. 
Dcimo sexto aniversrio? 
Quer dizer, eu sabia que Quron tinha recebido uma profecia do Orculo muitos anos atrs. Sabia que, 
parte, era sobre mim. Mas se eu chegar ao dcimo sexto aniversrio? No gostei muito de ouvir aquilo. 
- Eu sei o que preciso saber - consegui dizer. - Por exemplo, quem so os meus inimigos. 
- Ento voc  um bobo. 
Tyson reduziu a cadeira mais prxima a estilhaos. 
- Percy no  um bobo! 


#
Antes que eu pudesse det-lo, ele avanou para Luke. Seus punhos desceram na direo da cabea de 
Luke - uma pancada dupla que teria aberto um buraco em titnio, mas os gmeos ursos a interceptaram. 
Cada um segurou um dos braos de Tyson e eles o detiveram na hora. Empurraram-no para trs, e Tyson 
cambaleou. Caiu no tapete com tanta fora que o convs balanou. 
- Que pena, ciclope - disse Luke. - Parece que os meus amigos pardos juntos so mais do que preo para 
a sua fora. Talvez eu devesse deix-los... 
- Luke - interrompi. - Escute. Seu pai nos mandou. 
O rosto dele ficou da cor de pepperoni. 
- No se atreva a mencionar o nome dele. 
- Ele nos disse para pegar este navio. Achei que fosse s uma carona, mas ele nos mandou aqui para 
encontr-lo. Disse que no vai desistir de voc, no importa quanto voc esteja zangado. 
- Zangado? - rugiu Luke. - Desistir de mim? Ele me abandonou, Percy! Quero o Olimpo destrudo! Cada 
trono esmagado at virar entulho! E voc diga a Hermes que isso vai acontecer. A cada vez que um meio-
sangue se junta a ns, os olimpianos ficam mais fracos e ns ficamos mais fortes. Ele fica mais forte. - 
Luke apontou para o sarcfago de ouro. 
O caixo me apavorava, mas eu estava determinado a no demonstrar. 
- E da? - perguntei. - O que h de to especial... 
E ento caiu a ficha do que poderia estar dentro do sarcfago. A temperatura na sala pareceu baixar vinte 
graus. 
- Epa, voc no quer dizer... 
- Ele est se reconstituindo - disse Luke. - Pouco a pouco estamos resgatando sua fora vital para fora do 
poo. A cada recruta que se junta  nossa causa mais um pedacinho aparece... 
- Isso  nojento! - disse Annabeth. 
Luke a olhou com desprezo. 
- Sua me nasceu do crnio partido de Zeus, Annabeth. Eu no falaria nada. Logo haver o bastante do 
senhor tit para torn-lo inteiro de novo. Vamos montar um corpo novo para ele, um trabalho digno das 
forjas de Hefesto. 
- Voc  louco - disse Annabeth. 
- Junte-se a ns e ser recompensada. Temos amigos poderosos, patrocinadores bastante ricos para 
comprar este navio de cruzeiro e muito mais. Percy, sua me nunca mais precisar trabalhar. Voc poder 
comprar uma manso para ela. Voc poder ter poder, fama - tudo o que quiser. Annabeth, voc poder 
realizar seu sonho de ser arquiteta. Poder construir um monumento para durar mil anos. Um templo para 
os senhores nova era! 
- V para o Trtaro - disse ela. 
Luke suspirou. 
- Uma pena. 


#
Ele pegou algo que parecia um controle remoto de tev e apertou um boto vermelho. Em segundos a 
porta do camarote se abriu e dois tripulantes uniformizados entraram, armados com cassetetes. O olhar 
vidrado era o mesmo dos outros mortais que eu tinha visto, mas tive a impresso de que isso no os 
tornaria menos perigosos numa luta. 
- Ah! bom, seguranas! - disse Luke. - Infelizmente temos aqui alguns clandestinos. 
- Sim, senhor - disseram eles, com ar sonhador. 
Luke se virou para Oreios. 
- J  hora de alimentar o drago etope. Leve esses tolos para baixo e mostre-lhes como fazemos. 
Oreios sorriu de modo estpido. 
- Hehe! Hehe! 
- Deixe-me ir tambm - resmungou Agrios. - Meu irmo  um intil Aquele ciclope... 
- Ele no  uma ameaa - disse Luke. Deu uma olhadela para o caixo dourado, como se alguma coisa o 
incomodasse. - Agrios, fique aqui. Temos assuntos importantes a discutir. 
- Mas... 
- Oreios, no me desaponte. Fique no poro e certifique-se de que o drago seja alimentado como deve. 
Oreios nos cutucou com seu dardo e nos tocou para fora do camarote, seguido pelos dois seguranas 
humanos. 
***** 
Enquanto andava pelo corredor com o dardo de Oreios me cutucando nas costas, pensei no que Luke 
dissera - que os gmeos ursos juntos eram preo para a fora de Tyson. Mas quem sabe separados... 
Samos do corredor no meio do navio e caminhamos por um deque aberto ladeado por botes salva-vidas. 
Eu conhecia bem o navio para perceber que aquela seria nossa ltima viso da luz do sol. Uma vez do 
outro lado, tomaramos o elevador para descer ao poro, e seria o fim. 
Olhei para Tyson e disse: 
- Agora. 
Graas aos deuses, ele entendeu. Virou-se e lanou Oreios dez metros para trs, dentro da piscina, bem 
no meio da famlia de turistas-zumbis. 
- Ah! - gritaram as crianas em unssono. - Ns no estamos nos divertindo  beca na piscina! 
Um dos seguranas sacou o cassetete, mas Annabeth o deixou sem flego com um pontap bem dado. O 
outro segurana correu para o alarme mais prximo. 
- Pegue-o! - gritou Annabeth, mas foi tarde demais. 
Um instante antes que eu o atingisse na cabea com uma cadeira ele tocou o alarme. 
Luzes vermelhas piscaram. Sirenes uivaram. 
- Bote salva-vidas! - gritei. 

#
 Corremos para o mais prximo. 
Quando conseguimos descobri-lo, monstros e mais seguranas invadiram o convs, empurrando turistas e 
garons com bandejas de drinques tropicais. Um cara de armadura grega sacou a espada e investiu, mas 
escorregou em uma poa de pina colada. Arqueiros lestriges se reuniram no convs acima de ns, 
alinhando flechas em seus arcos enormes. 
- Como se lana esta coisa? - gritou Annabeth. 
Um daqueles ces monstruosos pulou para cima de mim, mas Tyson o atirou para o lado com um extintor 
de incndio. 
- Entrem! - gritei. Tirei a tampa de Contracorrente e com um golpe desviei uma saraivada de flechas no ar. 
A qualquer segundo seramos vencidos. 
O bote salva-vidas estava pendurado na lateral do navio, muito acima da gua. Annabeth e Tyson no 
conseguiam manejar a polia de lanamento. 
Pulei para dentro ao lado deles. 
- Segurem-se! - gritei, e cortei as cordas. 
Uma chuva de flechas assobiou por cima de nossas cabeas enquanto amos em queda livre na direo 
do oceano. 


#
DEZ - Pegamos uma carona com confederados mortos 
- A garrafa trmica! - gritei enquanto despencvamos para a gua. 
- O qu? - Annabeth deve ter pensado que eu tinha perdido a cabeca. Estava agarrada s alas do bote 
como se sua vida dependesse disso, os cabelos voando para o alto, como uma tocha. 
Mas Tyson entendeu. Conseguiu abrir meu saco de viagem e tirar de l a garrafa mgica sem largar o 
saco nem o bote. Flechas e dardos passaram por ns assobiando. Agarrei a garrafa trmica e torci para 
estar fazendo a coisa certa. 
- Segurem firme! 
- Eu estou segurando firme! - gritou Annabeth. 
- Mais firme! 
Enganchei o p embaixo do banco inflvel do bote, e enquanto Tyson nos segurava pelas costas das 
camisas dei um quarto de volta na tampa da garrafa. 
No mesmo instante, uma lufada branca de vento escapou e nos arremessou para o lado, transformando o 
mergulho vertical em uma aterrissagem de emergncia a quarenta e cinco graus. 
O vento pareceu dar risadas quando escapou da garrafa trmica, como se estivesse contente por se ver 
livre. Quando atingimos o oceano, batemos uma, duas vezes, quicando como uma pedra, ento 
disparamos como uma lancha, com gua salgada borrifando o rosto e nada alm de mar  nossa frente. 
Ouvi um grito de indignao vindo do navio atrs de ns, mas j estvamos fora do alcance das armas. O 
Princesa Andrmeda ia ficando menor a distncia, at parecer um barquinho branco brinquedo, e depois 
desapareceu. 
Enquanto disparvamos pelo mar, Annabeth e eu tentamos enviar uma mensagem de ris para Quron. 
Pensamos que seria importante contar a algum o que Luke estava fazendo, e no sabiam em quem mais 
confiar. 
O vento da garrafa agitou um timo borrifo de mar que formou um arco-ris  luz do sol - perfeito para uma 
mensagem de ris -, mas nossa conexo ainda era fraca. Quando Annabeth atirou um dracma de ouro na 
nvoa e rezou  deusa do arco-ris para nos mostrar Quron, o rosto dele apareceu, mas havia algum tipo 
estranho de luz estroboscpica ao fundo e rock em volume alto, como se ele estivesse em alguma casa 
noturna. 
Contamos a ele sobre a fuga do acampamento e sobre Luke, o Princesa Andrmeda e o caixo dourado 
para os restos de Crono, mas com o barulho do lado dele e o rudo do vento e da gua do nosso lado, no 
sabia o que ele tinha ouvido. 
- Percy - gritou Quron -, voc precisa tomar cuidado com... 
Sua voz foi abafada por uma gritaria alta atrs dele - um poro de vozes aos berros, como guerreiros 
comanches. 
- O qu? - gritei. 
- Malditos parentes! - Quron desviou-se quando um motor passou voando por cima da sua cabea e se 
estilhaou em algum lugar fora de vista. - Annabeth, voc no devia ter deixado Percy sair do 
acampamento! Mas se vocs de fato conseguirem pegar o Velocino... 


#
- Yeah, baby! - berrou algum atrs de Quron. - Iuuhuuuuu! 
O volume da msica aumentou, os subwoofers ficaram to altos fizeram o bote vibrar. 
- ...Miami - gritava Quron. - Vou tentar ficar atento... 
Nossa tela de nvoa se despedaou como se algum do outro lado tivesse atirado uma garrafa contra ela, 
e Quron se foi. 
***** 
Uma hora depois, avistamos terra - uma longa extenso de praia com edifcios altos de hotis. A gua se 
tornou abarrotada de barcos de pesca e petroleiros. Uma lancha da guarda costeira passou a estibordo, 
depois virou como se quisesse dar uma segunda olhada. Acho que no  todos os dias que eles vem um 
bote salva-vidas amarelo sem motor navegando a cem ns por hora, tripulado por trs crianas. 
- Aquela  Virgnia Beach! - disse Annabeth quando nos aproximamos do litoral. - Ah! meus deuses, como 
o Princesa Andrmeda chegou to longe em uma noite? So cerca de... 
- Quinhentas e trinta milhas nuticas - disse eu. 
Ela olhou para mim. 
- Como voc sabe? 
- Eu... eu no tenho certeza. 
Annabeth pensou um momento. 
- Percy, qual  a nossa posio? 
- Trinta e seis graus e 44 minutos Norte, 76 graus e 2 minutos Oeste - falei, imediatamente. Ento sacudi a 
cabea. - Epa! como  que eu soube isso? 
- Por causa de seu pai - sups Annabeth. - Quando voc est no mar, tem um senso de orientao 
perfeito. Isso  muito legal. 
Eu no estava to certo daquilo. No queria ser um GPS humano. Mas, antes que eu pudesse dizer 
alguma coisa, Tyson bateu em meu ombro. 
- Um outro barco vem vindo. 
Olhei para trs. O barco da guarda costeira sem dvida estava agora atrs de ns. As luzes piscavam e 
ele ganhava velocidade. 
- No podemos deixar que nos peguem - falei. - Vo fazer perguntas demais. 
- Continue na direo da baa de Chesapeake - disse Annabeth. - Sei de um lugar onde podemos nos 
esconder. 
No perguntei o que ela queria dizer, ou como conhecia to bem a rea. Arrisquei afrouxar a tampa da 
garrafa trmica mais um pouco, e uma nova lufada de vento nos arremessou como um foguete, 
contornamos a extremidade norte de Virgnia Beach e entramos na baa de Chesapeake. O barco da 
guarda costeira ficava cada vez mais para trs. No reduzimos a velocidade at as margens da baa se 
estreitarem dos dois lados, e percebi que estavamos adentrando o esturio de um rio. 


#
Pude sentir a passagem da gua salgada para a gua doce. De repente me senti exausto e irritado, como 
se tivesse acabado de sair de uma overdose de acar. No sabia mais onde estava nem para que 
direo guiar o barco. Felizmente, Annabeth estava me orientando. 
- Ali - disse ela. - Depois daquele banco de areia. 
Desviamos para uma rea pantanosa coberta de capim-d'gua. 
Atraquei o barco ao p de um cipreste gigante. 
Arvores cobertas de trepadeiras cresciam acima de ns. Insetos faziam rudos no mato. O ar estava 
quente e mido, e o vapor sub do rio. Em essncia, aquilo no era Manhattan, e eu no gostei. 
- Vamos - disse Annabeth -,  s seguirmos a margem. 
- O qu? 
- Siga-me apenas. - Ela agarrou um saco de viagem. - E  melhor cobrirmos o bote. No queremos 
chamar ateno. 
Depois de esconder o bote salva-vidas com galhos, Tyson e eu seguimos Annabeth ao longo da margem, 
os ps afundando na lama vermelha. Uma cobra deslizou perto do meu sapato e desapareceu no meio do 
capim. 
- No  um bom lugar - disse Tyson. Ele matava os mosquitos que estavam formando uma fila para jantar 
no seu brao. 
Depois de mais alguns minutos, Annabeth disse: 
- Aqui. 
Tudo o que vi foi uma moita espinhenta. Ento Annabeth empurrou para o lado um crculo de ramos 
entrelaados, como uma porta, e percebi que estava olhando para um abrigo camuflado. 
O lado de dentro era grande o suficiente para trs, mesmo com terceiro sendo Tyson. As paredes eram 
feitas com partes de plantas, como uma cabana de nativos, mas pareciam ser bem  prova dgua. 
Empilhadas em um canto havia todas as coisas que a gente poderia querer em um acampamento - sacos 
de dormir, cobertores, uma geladeira porttil e um lampio a querosene. Havia tambm provises para 
semideuses - ponteiras de bronze para dardos, uma aljava cheia de flechas, uma espada sobressalente e 
uma caixa de ambrosia. O lugar tinha cheiro de mofo, como se tivesse vazio havia muito tempo. 
- Um esconderijo de meio-sangue. - Olhei para Annabeth, pasmado. -Voc este lugar? 
- Thalia e eu - disse ela, baixinho. - E Luke. Aquilo no deveria me incomodar. Quer dizer, eu sabia que 
Thalia e Luke tinham cuidado de Annabeth quando ela era pequena. Sabia que os trs, juntos, eram 
fugitivos se escondendo de monstros, sobrevivendo sozinhos antes que Grover os encontrasse e tentasse 
lev-los para a Colina Meio-Sangue. Mas, sempre que Annabeth falava do tempo que passara com eles, 
eu me sentia... no sei. Desconfortvel? 
No. No  esta a palavra. 
A palavra era enciumado. 
- Ento... - falei. - No acha que Luke vai nos procurar aqui? 
Ela sacudiu a cabea. 


#
- Fizemos uma dzia de abrigos como este. Duvido que Luke sequer se lembre de onde ficam. Ou que se 
importe. 
Ela se jogou em cima dos cobertores e comeou a revirar o saco de viagem. Sua linguagem corporal 
deixava muito claro que ela no queria conversar. 
- Hum, Tyson? - falei. - Voc se incomodaria em dar um volta de reconhecimento l fora? Tipo procurar 
uma loja de convenincia silvestre ou coisa assim? 
- Loja de convenincia? 
- Sim, para comprar lanches. Donuts polvilhados com acar ou sei l. S no v muito longe. 
- Donuts com acar - disse Tyson muito srio. - Vou procurar donuts polvilhados com acar no mato. - 
Ele foi saindo e comeou a chamar: - Donuts! Aqui! 
Depois que ele se foi, sentei-me em frente a Annabeth. 
- Ei, sinto muito, sabe, por voc ter visto Luke. 
- A culpa no  sua. - Ela desembainhou sua faca comeou a limp-la com um trapo. 
- Ele nos deixou partir com muita facilidade - falei. 
Eu torcia para estar imaginando aquilo, mas Annabeth assentiu. 
Estava pensando a mesma coisa. Aquilo que o ouvimos falar, sobre um jogo e que "eles vo morder a 
isca"... Acho que estava falando de ns. 
- O Velocino  a isca? Ou Grover? 
Ela estudou o fio da faca. 
- No sei, Percy. Talvez ele queira o Velocino. Talvez espere que faamos o trabalho para depois roub-lo 
de ns. No consigo acreditar que ele fosse capaz de envenenar a rvore. 
- O que ele quis dizer - perguntei - quando falou que Thalia teria ficado do lado dele? 
- Ele est errado. 
- Voc no parece segura. 
Annabeth me olhou com raiva, e comecei a desejar que no tivesse falado aquilo enquanto ela segurava 
uma faca. 
- Percy, voc sabe quem voc me lembra muito? Thalia. Vocs so to parecidos que chega a assustar. 
Quer dizer, ou vocs seriam melhores amigos ou teriam se estrangulado. 
- Vamos ficar com "melhores amigos". 
- Thalia, s vezes, ficava zangada com o pai dela. Como voc. Voc se voltaria contra o Olimpo por causa 
disso? 
Olhei para a aljava cheia de flechas no canto. 
- No. 


#
- Certo. Ela tambm no. Luke est errado. 
Annabeth fincou a lmina da faca na terra. 
Quis perguntar sobre a profecia que Luke mencionara, e o que aquilo tinha a ver com meu dcimo sexto 
aniversrio. Mas imaginei que ela no fosse me contar. Quron deixara claro que eu no tinha permisso 
para ouvi-la at que os deuses decidissem o contrrio. 
- Ento, o que Luke quis dizer a respeito de ciclopes?  perguntei. - Ele disse que voc, entre todas as 
pessoas... 
- Eu sei o que ele disse. Ele... ele estava falando sobre a verdadeira razo de Thalia ter morrido. 
Esperei, sem saber muito bem o que dizer. 
Annabeth respirou fundo, indecisa. 
- A gente nunca pode confiar em ciclopes, Percy H seis anos, na noite em que Grover estava nos 
levando para a Colina Meio-Sangue... 
Ela foi interrompida quando a porta da cabana se abriu com um rangido. Tyson se arrastou para dentro. 
- Donuts com acar! - disse, orgulhoso, mostrando uma caixa de doces. 
Annabeth olhou para ele espantada. 
- Onde conseguiu isso? Estamos no meio do mato. No h nada num raio de... 
- Quinze metros - disse Tyson. - Uma loja Donuts Monstro, logo depois da colina. 
***** 
- Isso  mau - murmurou Annabeth. 
Estvamos agachados atrs de uma rvore, olhando para a loja de donuts no meio do mato. Parecia nova 
em folha, com janelas iluminadas, uma rea de estacionamento e uma estradinha conduzindo para dentro 
da floresta, mas no havia mais nada em volta, nenhum carro estacionado. Conseguimos ver um 
empregado que lia uma revista atrs da caixa registradora. E era tudo. Sobre marquise da loja, em 
enormes letras pretas que at eu consegui ler, estava escrito: 
DONUTS MONSTRO 
Um ogro de desenho animado estava dando uma mordida no O de MONSTRO. O lugar cheirava bem, 
como donuts de chocolate fresquinhos. 
- Isso no deveria estar aqui - sussurrou Annabeth.  Est errado. 
- O que est errado? - perguntei. -  uma loja de donuts. 
- Psiu! 
- Por que estamos sussurrando? Tyson entrou e comprou uma dzia. No aconteceu nada com ele. 
- Ele  um monstro. 
- Ora, vamos, Annabeth. Donuts Monstro no quer dizer monstros.  uma rede. Ns temos em Nova York. 


#
- Uma rede - concordou. - E no acha estranho que uma loja dessas tenha aparecido imediatamente 
depois de voc mandar Tyson comprar donuts! Bem aqui, no meio do mato? 
Pensei naquilo. De fato parecia meio estranho, mas, quer dizer, lojas de donuts realmente no estavam no 
topo da minha lista de foras sinistras. 
- Pode ser um ninho - explicou Annabeth. 


Tyson choramingou. Duvido que ele tenha entendido o que Annabeth estava dizendo muito melhor do que 
eu, mas o tom dela o deixava nervoso. Ele havia avanado em meia dzia de donuts da caixa e estava 
com acar polvilhado na cara inteira. 
- Um ninho do qu? - perguntei. 
- Voc j se perguntou como essas lojas de franquia surgem to depressa? - perguntou ela. - Um dia no 
existe nada, e ento, no dia seguinte... bum, surge uma nova casa de hambrgueres ou uma cafeteria, ou 
o que for. Primeiro uma nica loja, depois duas, depois quatro... rplicas exatas se espalhando por todo o 
pas. 
- Ahn, no. Nunca pensei nisso. 
- Percy, algumas redes se multiplicam to depressa porque todos os seus pontos esto magicamente 
ligados  fora vital de um monstro. Algumas crianas de Hermes descobriram como fazer isso j nos 
anos 1950. Elas procriam... 
Ela ficou paralisada. 
- O qu? - perguntei. - Elas criam o qu? 
- No... se... mexa - disse Annabeth, como se a vida dela dependesse disso. - Muito devagar, d meia-
volta. 
Ento eu ouvi: o barulho de algo raspando, como se algo grande se arrastasse de barriga pelas folhas. 
Virei-me e vi uma coisa do tamanho de um rinoceronte se movendo pelas sombras das rvores. Estava 
sibilando, a metade da frente se retorcendo em todas as direes. De incio no consegui entender o que 
era. Ento percebi que a coisa tinha mltiplos pescoos - pelo menos sete, cada um com uma cabea de 
rptil, sibilando. A pele era coricea, e os pescoos usavam babadores nos quais estava escrito: EU SOU 
UMA CRIANA MONSTER DONUTS! 
Tirei do bolso minha caneta esferogrfica, mas Annabeth fixou os olhos nos meus - um aviso silencioso. 
Ainda no. 
Eu entendi. Muitos monstros tm pssima viso. Era possvel que a Hidra passasse por ns sem nos 
notar. Mas, se eu destampasse minha espada, o brilho do bronze certamente chamaria sua ateno. 
Ns esperamos. 
A Hidra estava a apenas alguns metros. Parecia farejar a terra e as rvores como se estivesse caando 
alguma coisa. Ento notei que duas das cabeas estavam dilacerando um pedao de lona amarela - um 
dos nossos sacos de viagem. A coisa j estivera nosso acampamento. Estava seguindo nosso cheiro. 
Meu corao bateu forte. Eu j tinha visto uma cabea de Hidra empalhada como trofu no acampamento, 
mas aquilo no me preparara para a coisa real. Cada cabea tinha forma de losango como a de uma 
cascavel, mas nas bocas havia fileiras irregulares de dentes de tubaro. 


#
Tyson estava tremendo. Ele recuou um passo e sem querer quebrou um graveto. Imediatamente, as sete 
cabeas se viraram para ns e sibilaram. 
- Espalhem-se! - gritou Annabeth. Ela mergulhou para a direita. 
Eu rolei para a esquerda. Uma das cabeas da Hidra cuspiu um arco de lquido verde que passou rente ao 
meu ombro e atingiu o tronco de um olmo. O tronco fumegou e comeou a se desintegrar. A rvore inteira 
tombou na direo de Tyson, que ainda no tinha se movido, petrificado pelo monstro que agora estava 
bem na frente dele. 
- Tyson! - Eu o empurrei com toda a minha fora, derrubando-o de lado bem no momento em que a Hidra 
investia e a rvore desmoronava em cima de duas de suas cabeas. 
A Hidra cambaleou para trs, puxando violentamente as duas cabeas e soltando-as, e depois urrando 
indignada para a rvore cada. Todas as sete cabeas lanaram cido, e o olmo se derreteu em uma poa 
fumegante de imundcie. 
- Mexa-se! - disse a Tyson. Corri para um lado e destampei Contracorrente, esperando chamar a ateno 
do monstro. 
Funcionou. 
A viso do bronze celestial  odiosa para a maioria dos monstros. Assim que minha lmina reluzente 
apareceu, a Hidra moveu todas as cabeas como chicotes na direo dela, sibilando e mostrando os 
dentes. 
A boa notcia: Tyson por enquanto estava fora de perigo. A m notcia: eu estava prestes a ser derretido 
em uma poa de lquido pegajoso. 
Uma das cabeas tentou me abocanhar. Sem pensar, ergui a espada. 
- No! - gritou Annabeth. 
Tarde demais. Cortei a cabea da Hidra. Aquilo rolou para longe, no meio do capim, deixando um coto 
descontrolado se agitando no ar, o qual logo parou de sangrar e comeou a inflai como um balo. 
Em questo de segundos o pescoo ferido se dividiu em dois, e em cada um brotou uma cabea 
completa. Agora eu estava olhando para uma Hidra de oito cabeas. 
- Percy! - repreendeu Annabeth. - Voc acaba de abrir mais uma loja Donuts Monstro em algum lugar! 
Desviei-me de um jato de cido. 
- Estou prestes a morrer, e voc est preocupada com isso? Como a matamos? 
- Fogo! - disse Annabeth. - Precisamos de fogo! 
Assim que ela disse isso lembrei a histria. As cabeas da Hidra s parariam de se multiplicar se 
queimssemos os cotos antes que crescessem de novo. Bem, foi o que Heracles fez. Mas no tnhamos 
fogo. 
Recuei em direo ao rio. A Hidra me seguiu. 
Annabeth ficou  minha esquerda e tentou distrair uma das cabeas, duelando com seus dentes com a 
faca, mas outra cabea se moveu para um lado e, como um porrete, derrubou-a na gosma. 


#
- No pode bater nos meus amigos! -Tyson investiu, interpondo-se entre a Hidra e Annabeth. Quando 
Annabeth se ps de p, Tyson comeou a socar as cabeas do monstro to depressa que me lembrou um 
jogo de fliperama. Mas nem mesmo Tyson poderia combater a Hidra para sempre. 
Continuamos recuando centmetro a centmetro, desviando-nos dos jatos de cido e nos esquivando das 
cabeas que tentavam nos morder sem decep-las, mas eu sabia que estvamos apenas adiando nossa 
morte. No final, acabaramos cometendo um erro, e a coisa nos mataria. 
Ento ouvi um som estranho - um chug-chug-chug que de incio achei que fosse meu corao. Era to 
potente que sacudiu a margem do rio. 
- Que barulho  esse? - gritou Annabeth, sem tirar os olhos da Hidra. 
- Mquina a vapor - disse Tyson. 
- O qu? - Eu me esquivei enquanto a Hidra cuspia cido por cima da minha cabea. 
Ento, do rio atrs de ns, uma voz feminina familiar gritou: 
- Ali! Preparem o canho de dez quilos! 
No ousei desviar os olhos da Hidra, mas se quem estava atrs de ns era quem eu pensava, calculei que 
agora tnhamos inimigos em duas frentes. 
Uma voz masculina spera disse: 
- Eles esto muito perto, miladyl 
- Danem-se os heris! - disse a garota. - Em frente a todo o vapor! 
- Sim, milady. 
- Dispare  vontade, capito! 
Annabeth entendeu o que estava acontecendo uma frao de segundo antes de mim. Ela gritou: 
- Para o cho! 
E ns mergulhamos quando um BUUUM ensurdecedor ecoou, vindo do rio. Houve um claro, uma coluna 
de fumaa, e a Hidra explodiu bem na nossa frente, fazendo chover um muco verde repugnante que se 
vaporizou assim que nos atingiu, como costuma acontecer com as tripas dos monstros. 
- Que nojo! - gritou Annabeth. 
- Navio a vapor! - berrou Tyson. 
Levantei, tossindo por causa da nuvem de fumaa de plvora que rolava das margens do rio. 
Avanando ruidosamente pelo rio em nossa direo estava o navio mais estranho que j vira. Navegava 
baixo como um submarino, o convs revestido de ferro. No meio havia uma casamata na forma de 
trapzio, com aberturas laterais para canhes. Uma bandeira oscilava no topo - um javali selvagem e uma 
lana em um campo vermelho-sangue. Enfileirados no convs havia zumbis de uniformes cinzentos - 
soldados mortos com feies tremeluzentes que escondiam o crnio apenas em parte, como os ghouls 
que eu tinha visto no Mundo Inferior, guardando o palcio de Hades. 
O navio era um encouraado. Um cruzador da Guerra Civil. Mal pude distinguir o nome na proa em letras 
cobertas de musgo: Navio Confederado Birmingham. 

#
 E plantada junto ao canho fumegante que quase nos matara, usando uma armadura de batalha grega 
completa, estava Clarisse. 
- Perdedores - zombou ela. - Mas acho que preciso salv-los. Subam a bordo. 


#
ONZE - Clarisse detona tudo 
- Vocs esto muito encrencados - disse Clarisse. 
Tnhamos acabado de fazer uma excurso que no queramos pelo navio, por acomodaes escuras 
lotadas de marinheiros mortos. Vimos o depsito de carvo, as caldeiras e o motor, que bufava e gemia 
como se fosse explodir a qualquer minuto. Vimos a casa do leme, o paiol de plvora e o convs de 
artilharia (o favorito de Clarisse), com dois canhes Dahlgren de cano liso a bombordo e a estibordo e um 
canho Brooke estriado de nove polegadas na proa e na popa - todos especialmente adaptados para 
disparar lulas de bronze celestial. 
Em todos os lugares aonde amos, marinheiros confederados mortos nos olhavam fixamente, as caras 
barbadas fantasmagricas tremeluzindo nos crnios. Eles aprovaram Annabeth, porque ela lhes disse que 
era da Virgnia. Tambm estavam interessados em mim, porque meu nome era Jackson - como o do general 
sulista -, mas ento estraguei tudo dizendo que era de Nova York. Todos vaiaram e resmungaram pragas 
contra os ianques. 
Tyson ficou aterrorizado com eles. Durante toda a excurso insistiu para que Annabeth segurasse sua 
mo, o que no a deixou muito feliz. 
Finalmente, fomos escoltados para o jantar. O alojamento do capito do Birmingham era mais ou menos 
do tamanho de um closet, mas ainda assim muito maior do que qualquer outro recinto bordo. A mesa 
estava posta com linho branco e porcelana. Manteiga de amendoim, sanduches de gelia, batatas fritas e 
refrigerantes foram servidos por tripulantes esquelticos. Eu no queria comer nada que fosse servido por 
fantasmas, mas minha fome foi maior que o medo. 
- Tntalo expulsou vocs por toda a eternidade - disse Clarisse, com ar de superioridade. - O senhor D 
disse que se mostrarem a cara de novo no acampamento vai transform-los em esquilos e passar por 
cima com sua caminhonete. 
- Foram eles que deram este navio a voc? - perguntei. 
- Claro que no. Foi meu pai. 
- Ares? 
Clarisse sorriu, sarcstica. 
- Acha que seu pai  o nico que tem poderes no mar? Os espritos do lado perdedor em todas as guerras 
devem tributo a Ares. E sua maldio por terem sido derrotados. Pedi a meu pai um transporte naval, e 
aqui est ele. Esses caras vo fazer tudo que eu mandar. No , capito? 
O capito estava em p atrs dela, rgido e zangado. Seus olhos verdes e brilhantes me fixaram com um 
olhar faminto. 
- Se isso significa dar fim a essa guerra infernal, madame, finalmente a paz, vamos fazer qualquer coisa. 
Destruir qualquer um. 
Clarisse sorriu. 
- Destruir qualquer um. Eu gosto disso. 
Tyson engoliu em seco. 
- Clarisse - disse Annabeth. - Luke tambm pode estar atrs do Velocino. Ns o vimos. Ele tem as 
coordenadas e est indo em direo ao sul. Tem um navio de cruzeiro cheio de monstros... 

#
 - Bom! Vou explodi-lo para fora da gua. 
- Voc no est entendendo - disse Annabeth. - Precisamos unir nossas foras. Deixe-nos ajud-la... 
- No! - Clarisse deu um murro na mesa. - Esta  a minha misso, garota esperta! Finalmente chegou 
minha vez de ser a herona, e vocs dois no vo roubar minha chance. 
- Onde esto seus colegas de chal? - perguntei. - Voc teve permisso de trazer dois amigos, no teve? 
- Eles no... Eu os deixei para trs. Para proteger o acampamento. 
- Voc quer dizer que nem mesmo as pessoas do seu prprio chal quiseram ajud-la? 
- Cale a boca, Percy! Eu no preciso deles! Nem de voc! 
- Clarisse - falei. - Tntalo est usando voc. Ele no importa com o acampamento. Adoraria v-lo 
destrudo. Est armando para voc fracassar. 
- No! No me importa o que o Orculo... - ela se interrompeu. 
- O qu? - disse eu. - O que o Orculo lhe contou? 
- Nada. - As orelhas de Clarisse ficaram rosadas.  Tudo o que vocs precisam saber  que vou terminar 
essa misso e vocs no vo ajudar. Por outro lado, no posso deix-los ir... 
- Ento somos prisioneiros? - perguntou Annabeth. 
- Hspedes. Por enquanto. - Clarisse apoiou os ps na toalha branca de linho e abriu outro refrigerante. - 
Capito, leve-os para baixo. Ceda redes para eles no convs-dormitrio. Se eles no se comportarem 
bem, mostre-lhes como lidamos com espies inimigos. 
O sonho veio assim que adormeci. 
Grover estava sentado ao tear, desmanchando desesperadamente a cauda de seu vestido, quando a 
porta de rocha rolou para o lado e o ciclope berrou: 
- Aha! 
Grover ganiu. 
- Querido! Eu no... voc entrou to quieto! 
- Desmanchando! - rugiu Polifemo. - Ento  esse o problema! 
- Ah, no! Eu... eu no estava... 
- Venha! - Polifemo agarrou Grover pela cintura e carregou, em parte arrastou o stiro pelos tneis da 
caverna. Grover lutou para manter os sapatos de salto alto nos cascos. Seu vu balanando na cabea, 
ameaando cair. 
O ciclope o puxou para dentro de uma caverna do tamanho de um armazm decorada com bugigangas de 
carneiros. Havia uma cadeira reclinvel e um televisor cobertos de l, toscas estantes de livros cheias de 
objetos colecionveis sobre carneiros - canecas de caf com o formato de cabea de carneiro, estatuetas 
de gesso de carneiros, jogos de tabuleiro de carneiros, livros ilustrados e bonecos. O cho estava atulhado 
de pilhas de ossos de carneiro e outro no muito parecidos com os de carneiros - ossos de stiros que 
tinham ido  ilha  procura de Pan. 

#
 Polifemo ps Grover no cho apenas por tempo suficiente para mover outra rocha enorme. A luz do dia se 
infiltrou na caverna e Grover choramingou, saudoso. Ar fresco! 
O ciclope o arrastou para fora at o topo de uma colina de onde se avistava a ilha mais bonita que eu j 
vira. 
Tinha a forma de uma sela partida ao meio por um machado. Havia colinas verdes luxuriantes dos dois lados 
e um largo vale entre elas, cortado por uma ravina atravessada por uma ponte de corda. Lindos riachos 
corriam at a beira do cnion e caam em cascatas nas cores do arco-ris. Papagaios voavam entre as 
rvores. Flores cor-de-rosa e roxas floresciam nos arbustos. Centenas de carneiros pastavam nas campinas, 
a l brilhando de modo estranho, como moedas de cobre e prata. 
E no centro da ilha, bem ao lado da ponte de corda, havia um carvalho enorme e retorcido, com alguma 
coisa reluzindo em seu galho mais baixo. 
O Velocino de Ouro. 
Mesmo em sonho, pude sentir seu poder se irradiando pela ilha, tornando a grama mais verde, as flores 
mais bonitas. Era quase possvel sentir o cheiro da magia da natureza fazendo seu trabalho. Fiquei 
imaginando como aquele perfume seria poderoso para um stiro. 
Grover choramingou. 
- Sim - disse Polifemo com orgulho. - Est vendo ali adiante? O Velocino  o trofu mais valioso da minha 
coleo! 
Roubei-o dos heris muito tempo atrs, e desde ento... comida de graa! Chegam aqui stiros do mundo 
inteiro, como traas atradas pelas chamas. Stiros so boa comida! E agora... 
Polifemo pegou uma tosquiadeira de bronze de aparncia ameaadora. 
Grover gemeu, mas Polifemo agarrou o carneiro mais prximo como se fosse um animal empalhado e 
cortou rente sua l. Ele entregou a massa fofa para Grover. 
- Ponha isso na roca! - disse ele, arrogante. -  mgica. No pode ser desfeita. 
- Ah!... bem... 
- Pobre docinho! - sorriu Polifemo. - Tecedeira ruim. H-ha! No se preocupe. Esse fio resolver o 
problema. Acabe a cauda do vestido at amanh! 
- Muito... atencioso da sua parte. 
- Hehe. 
- Mas... mas, querido - Grover engoliu em seco. - E se algum quisesse salvar... digo, atacar esta ilha? - 
Grover olhou diretamente para mim, e eu sabia que estava querendo minha ajuda. - O que os impediria de 
marchar direto para c, para a sua caverna? 
- Esposinha assustada! Que gracinha! No se preocupe. Polifemo tem um sistema de segurana de ltima 
gerao. Eles tero de passar pelos meus bichinhos de estimao. 
- Bichinhos de estimao? 
Grover correu os olhos pela ilha, mas no havia nada para ver, exceto carneiros pastando em paz nas 
campinas. 

#
 - E depois - rosnou Polifemo -, tero de passar por mim! 
Deu um murro na rocha mais prxima, que rachou e se partiu ao meio. 
- Agora venha! - bradou ele. - De volta  caverna. 
Grover pareceu a ponto de chorar - to perto da liberdade, mas to irremediavelmente longe. Lgrimas 
brotaram de seus olhos enquanto a porta de rocha se fechava rolando, aprisionando-o de novo na 
fedorenta caverna iluminada por tochas do ciclope. 
***** 
Acordei com sirenes soando pelo navio. A voz spera do capito: 
- Todos para o convs superior! Encontrem lady Clarisse! Onde est aquela garota? 
Ento sua cara fantasmagrica apareceu acima de mim. 
- Levante-se, ianque. Seus amigos j esto l em cima. Estamos nos aproximando da entrada. 
- A entrada do qu? 
Ele me deu um sorriso esqueltico. 
- Do Mar de Monstros,  claro. 
Enfiei meus poucos pertences que haviam sobrevivido  Hidra em um saco de marinheiro de lona e o 
pendurei no ombro. Tinha a leve suspeita de que, de um jeito ou de outro, no passaria outra noite a bordo 
do Birmingham. 
Eu estava subindo quando alguma coisa me fez congelar. Uma presena prxima - algo familiar e 
desagradvel. Sem nenhuma razo especial, tive vontade de arrumar uma briga. Queria esmurrar um 
confederado morto. A ltima vez que tinha sentido esse tipo de raiva... 
Em vez de subir, eu me arrastei at a beira da grade de ventilao e espiei l embaixo, no convs das 
caldeiras. 
Clarisse estava logo abaixo de mim, falando com uma imagem que tremeluzia no vapor das caldeiras - um 
homem musculoso, com roupas de motociclista de couro preto, corte de cabelo militar, culos escuros de 
lentes vermelhas e uma faca presa do lado por uma correia. 
Meus punhos se fecharam. Era meu olimpiano menos favorito: Ares, o deus da guerra. 
- No quero saber de desculpas, garotinha! - rosnou ele. 
- S... sim, pai - murmurou Clarisse. 
- Voc no quer me ver zangado, quer? 
- No, pai. 
- No, pai - Ares imitou-a. - Voc  pattica. Eu devia ter deixado um dos meus filhos assumir essa 
misso. 
- Eu vou conseguir! - prometeu Clarisse, com a voz trmula. - Vou deix-lo orgulhoso. 


#
-  melhor mesmo - advertiu ele. - Voc me pediu essa misso, garota. Se deixar aquele desprezvel do 
Jackson roub-la de voc... 
- Mas o Orculo disse... 
- NO ME IMPORTA O QUE O ORCULO DISSE. - urrou Ares, com tamanha fora que sua imagem 
tremeu. - Voc vai conseguir. Se no... 
Ele ergueu o punho. Muito embora fosse apenas uma figura no vapor, Clarisse se encolheu. 
- Estamos entendidos? - rosnou Ares. 
As sirenes tocaram de novo. Ouvi vozes vindo em minha direo, oficiais gritando ordens para preparar os 
canhes. 
Eu me afastei da grade de ventilao engatinhando e fui encontrar Annabeth e Tyson no convs superior. 
***** 
- Qual  o problema? - perguntou-me Annabeth. - Outro sonho? 
Fiz que sim, mas no falei nada. No sabia o que pensar a respeito do que vira l embaixo. Aquilo me 
incomodara quase tanto quanto o sonho com Grover. 
Clarisse subiu as escadas logo atrs de mim. Tentei no olhar para ela. 
Ela agarrou o par de binculos de um oficial zumbi e olhou na direo do horizonte. 
- At que enfim. Capito, adiante, a todo o vapor! 
Olhei na mesma direo que ela, mas no consegui ver muita coisa. O cu estava encoberto. O ar era 
nevoento e mido, como vapor de um ferro de passar. Se eu apertasse os olhos com muita fora, podia 
apenas distinguir um par de manchas escuras indistintas a distncia. 
Meu senso de orientao nutico dizia que estvamos em algum lugar na costa norte da Flrida; portanto, 
tnhamos avanado uma longa distncia durante a noite, mais longe do que qualquer navio mortal seria 
capaz de navegar. 
O motor gemeu quando aumentamos a velocidade. 
Tyson murmurou, nervoso: 
- Presso demais nos pistes. O motor no foi feito para guas profundas. 
No tinha a menor idia de como ele sabia disso, mas aquilo me deixou nervoso. 
Depois de mais alguns minutos, as manchas escuras  nossa frente entraram em foco. Ao norte, uma 
enorme massa de rocha se erguia do mar - uma ilha com falsias de pelo menos trinta metros de altura. 
Cerca de um quilmetro ao sul, a outra mancha de escurido era uma tempestade que se formava. O cu 
e o mar ferviam juntos em uma massa trovejante. 
- Furaco? - perguntou Annabeth. 
- No - disse Clarisse. - Carbdis. 
Annabeth empalideceu. 


#
- Voc est louca? 
-  a nica entrada para o Mar de Monstros. Bem entre Carbdis e sua irm Squila. 
Clarisse apontou para o topo das falsias e minha impresso foi a de que l em cima vivia algo que eu no 
tinha vontade de conhecer. 
- O que voc quer dizer com nica entrada? - perguntei. - O mar  to largo! E s contorn-las. 
Clarisse revirou os olhos. 
- Voc no sabe nada? Se eu tentar contornar elas vo simplesmente aparecer no meu caminho de novo. 
Se quer entrar no Mar de Monstros precisa navegar por entre as duas. 
- E as Simplgadas, as Rochas Colidentes? - disse Anna-beth. - So outro portal. Jaso o usou. 
- Eu no consigo explodir rochas com os meus canhes - disse Clarisse. - Mas monstros, por outro lado... 
- Voc  louca - concluiu Annabeth. 
- Observe e aprenda, Garota Esperta. - Clarisse voltou-se para o capito. - Em curso para Carbdis! 
- Sim, milady. 
O motor gemeu, as chapas de ferro chacoalharam e o navio comeou a ganhar velocidade. 
- Clarisse - falei -, Carbdis suga o mar. No  essa a histria? 
- E o cospe de volta depois, sim. 
- E Squila? 
- Ela vive em uma caverna, no alto daquelas falsias. Se chegarmos perto demais, suas cabeas de 
serpente vo descer e comear a arrancar marinheiros do navio. 
- Ento escolha Squila - disse. - Todo mundo vai para o convs de baixo e passamos direto. 
- No! - insistiu Clarisse. - Se Squila no conseguir sua comida facilmente, poder pegar o navio inteiro. 
Alm disso, fica muito no alto para conseguirmos uma boa mira. Meus canhes no conseguem atirar para 
cima. Carbdis fica sentada l, no centro do seu redemoinho. Vamos avanar diretamente para ela, mirar 
nossos canhes e mand-la para o Trtaro! 
Ela disse isso com tanto gosto que quase tive vontade de acreditar. 
O motor zumbia. As caldeiras estavam esquentando tanto que eu podia sentir o convs se aquecendo 
embaixo de meus ps, As chamins vomitavam rolos de fumaa. A bandeira vermelha de Ares tremulava 
ao vento. 
 medida que nos aproximvamos dos monstros, o som de Carbdis era cada vez mais alto - um horrvel 
rugido molhado, como a descarga do maior vaso sanitrio da galxia. A cada vez que Carbdis inspirava, o 
navio estremecia e era arremessado para a frente. A cada vez que ela expirava, subamos na gua e 
ramos castigados por ondas de trs metros. 
Tentei cronometrar o redemoinho. At onde pude perceber, Carbdis levava cerca de trs minutos para 
sugar e destruir tudo num raio de um quilmetro. Para evit-la, teramos de passar bem perto das falsias 
de Squila. E, por pior que Squila pudesse ser, aquelas falsias no estavam me parecendo nada boas. 


#
Os marinheiros mortos vivos realizavam com calma suas tarefas no convs superior. Imagino que j 
tivessem lutado por uma causa perdida antes, portanto aquilo no os incomodava. Ou talvez no se 
preocupassem com a possibilidade de ser destrudos, porque j eram defuntos. Nenhum dos dois 
pensamentos fez com que me sentisse melhor. 
Annabeth estava ao meu lado, agarrando-se  amurada. 
- Voc ainda tem sua garrafa trmica cheia de vento? 
Fiz que sim. 
- Mas  perigoso demais us-la no meio de um redemoinho como aquele. Liberar mais vento s vai tornar 
as coisas ainda piores. 
- E que tal controlar a gua? - perguntou ela. - Voc  filho de Poseidon. J fez isso antes. 
Annabeth estava certa. Fechei os olhos e tentei acalmar o oceano, mas no conseguia me concentrar. O 
rudo de Carbdis era alto e forte demais. As ondas no me respondiam. 
- Eu... eu no consigo - falei com tristeza. 
- Precisamos de um plano B - disse Annabeth. - Isso no vai dar certo. 
- Annabeth est certa - disse Tyson. - O motor no est bom. 
- O que voc quer dizer? - perguntou ela. 
- Presso. Os pistes precisam de conserto. 
Antes que ele pudesse explicar, o vaso sanitrio csmico deu descarga com um possante chu! O 
navio se lanou para a frente, e eu fui arremessado no convs. Estvamos no redemoinho. 
- Retaguarda total! - gritou Clarisse mais alto que o barulho. 
O mar se agitava  nossa volta, as ondas arrebentavam no convs. As chapas de ferro agora estavam to 
quentes que fumegavam. 
- Levem-nos  linha de tiro! Preparem os canhes de estibordo! 
Os confederados mortos corriam de um lado para o outro. O motor entrou em reverso ruidosamente, 
tentando reduzir a marcha do navio, mas continuamos a deslizar em direo ao centro do vrtice. 
Um marinheiro-zumbi de repente saiu do poro e correu at Clarisse. Seu uniforme cinzento fumegava. A 
barba estava em chamas. 
- A sala da caldeira est superaquecendo, madame! Vai explodir! 
- Bem, desa at l e conserte! 
- Impossvel! - gritou o marinheiro. - Estamos nos vaporizando com o calor. 
Clarisse deu um murro na lateral da casamata. 
- S preciso de mais alguns minutos! S o bastante para chegar  linha de tiro! 
- Estamos indo depressa demais - disse o capito em tom sinistro. - Preparem-se para morrer. 


#
- No! - Tyson urrou. - Eu posso consertar. Clarisse olhou para ele, incrdula. 
- Voc? 
- Ele  um ciclope - disse Annabeth. -  imune ao fogo. E entende de mecnica. 
- V! - berrou Clarisse. 
- Tyson, no! - agarrei o brao dele. -  perigoso demais! 
Ele deu uma palmadinha na minha mo. 
- E o nico jeito, irmo. - Sua expresso era determinada... confiante, at. Eu nunca o vira daquele jeito. - 
Vou consertar. Volto j. 
Enquanto o olhava seguindo o marinheiro incandescente pela escotilha, tive uma sensao terrvel. Quis 
correr atrs dele, mas o navio de novo foi lanado para a frente - e, ento, vi Carbdis. 
Ela surgiu algumas centenas de metros adiante, em meio a um turbilho de nvoa, fumaa e gua. A 
primeira coisa que notei foi o recife - um rochedo negro de coral com uma figueira agarrada ao topo, algo 
estranhamente tranqilo no meio da confuso. Por roda a volta, a gua girava como num funil, como luz 
ao redor de um buraco negro. Ento vi a coisa horrvel ancorada no recife logo abaixo do nvel da gua - 
uma enorme boca com lbios vistosos e dentes cobertos de musgo do tamanho de botes a remo. li, pior, 
os dentes tinham um aparelho, tiras de metal corrodo e infecto com pedaos de peixes, madeira podre e 
lixo flutuante presos entre eles. 
Carbdis era o pesadelo de um ortodontista. Nada mais que uma enorme boca negra, com dentes 
estragados e mal alinhados, os caninos e os incisivos exageradamente projetados sobre os dentes de 
baixo, e que havia sculos no fazia nada a no ser comer sem escovar os dentes depois das refeies. 
Enquanto eu olhava, todo o mar  sua volta foi sugado para o vazio - tubares, cardumes de peixes, uma 
lula gigante. E percebi que em poucos segundos o Birmingham seria o prximo. 
- Lady Clarisse! - bradou o capito. - Canhes de estibordo e de proa ao alcance! 
- Fogo! - ordenou Clarisse. 
Trs projteis foram disparados para dentro da boca do monstro. Um arrancou um pedao de um incisivo. 
Outro desapareceu em sua garganta. O terceiro atingiu o metal do aparelho e ricocheteou de volta, 
arrancando do mastro a bandeira de Ares. 
- De novo! - ordenou ela. 
Os artilheiros recarregaram os canhes, mas eu sabia que seria intil. Teramos de golpear o monstro cem 
vezes mais para causai algum dano real, e no tnhamos todo esse tempo. Estvamos sendo sugados 
depressa demais. 
Ento as vibraes no convs mudaram. O zumbido do motor ficou mais forte e mais firme. O navio 
estremeceu e comeamos a nos afastar da boca. 
- Tyson conseguiu! - disse Annabeth. 
- Espere! - disse Clarisse. - Precisamos ficar perto! 
- Vamos morrer! - falei. - Temos de nos afastar. 


Agarrei-me  amurada enquanto o navio lutava para no ser sugado. A bandeira arrancada de Ares passou 
voando por ns e se alojou no aparelho de Carbdis. No estvamos fazendo muito progresso, mas ao 

#
menos mantnhamos a posio. De algum modo, Tyson nos dera fora suficiente apenas para impedir que 
o navio fosse tragado. 
De repente, a boca se fechou. O mar ficou absolutamente calmo. A gua encobriu Carbdis. 
Ento, com a mesma rapidez com que se fechara, a boca se abriu numa exploso, cuspindo uma muralha 
de gua, ejetando tudo o que no era comestvel, inclusive nossas balas de canho, uma das quais atingiu 
o costado do Birmingham com um plim!, como o da sineta de um brinquedo de parque de diverses. 
Fomos lanados para trs em uma onda que devia medir uns doze metros. Usei todo o meu poder para 
impedir que o navio emborcasse, mas ainda estvamos rodopiando fora de controle, movendo-nos a toda 
na direo das falsias no lado oposto do estreito. 
Outro marinheiro incandescente saiu de repente do poro e foi de encontro a Clarisse, quase lanando 
ambos ao mar. 
- O motor est a ponto de explodir! 
- Onde est Tyson? - perguntei. 
- Ainda l embaixo - disse o marinheiro. - Segurando as pontas, no sei como, mas acho que no por 
muito mais tempo. 
O capito disse: 
- Temos de abandonar o navio. 
- No! - berrou Clarisse. 
- No temos escolha, milady. O casco j est rachando. Ela no pode... 
No chegou a terminar a frase. Rpida como um raio, alguma coisa marrom e verde desceu do cu, 
agarrou o capito e o levou embora. Tudo o que restou foram suas botas de couro. 
- Squila! - gritou um marinheiro, enquanto outra coluna de carne reptiliana se lanava da falsia e o 
arrastava para cima. Aconteceu to depressa que era como ver um raio laser, e no um monstro. No 
pude nem distinguir a cara da coisa, s um relance de dentes e escamas. 
Destampei Contracorrente e tentei golpear o monstro quando ele levou mais um tripulante, mas fui lento 
demais. 
- Todo o mundo para baixo! - berrei. 
- No podemos! - Clarisse sacou sua espada. - O convs inferior est em chamas. 
- Botes salva-vidas! - disse Annabeth. - Depressa! 
- Eles nunca passaro pelas falsias - disse Clarisse. - Vamos ser todos comidos. 
- Temos de tentar. Percy, a garrafa trmica. 
- No posso abandonar Tyson! 
- Temos de preparar os botes! 


#
Clarisse aceitou a ordem de Annabeth. Ela e alguns dos seus marinheiros mortos vivos removeram a 
cobertura de um dos dois botes de emergncia enquanto as cabeas de Squila despencavam do cu 
como uma chuva de meteoros com dentes, catando um marinheiro confederado aps outro. 
- Pegue o outro barco. - Joguei a garrafa para Annabeth. - Vou buscar Tyson. 
- Voc no pode! - disse ela. - O calor vai mat-lo! 
No dei ouvidos. Corri para a escotilha da sala das caldeiras, mas de repente meus ps no estavam mais 
tocando o convs, Eu estava voando para cima, o vento assobiando em meus ouvidos, a parede da falsia 
a apenas alguns centmetros do rosto. 
De algum modo Squila me pegara pelo saco de viagem, e me iava para sua cova. Sem pensar, dei um 
golpe para trs com a espada e consegui acertar a coisa em seu olho amarelo e redondo. Ela grunhiu e 
me soltou. 
A queda j teria sido bastante ruim, considerando que eu i tava a trinta metros de altura, mas, enquanto eu 
caa, o Birmingham explodiu l embaixo. 
CA-BUUUUUM! 
A casa de mquinas foi pelos ares, lanando pedaos de couraa de ferro em todas as direes, como 
asas flamejantes. 
- Tyson! - gritei. 
Os botes tinham conseguido escapar do navio, mas no para muito longe. Choviam destroos em chamas. 
Clarisse e Annabeth seriam esmagadas, queimadas ou arrastadas para o fundo pelo movimento do casco 
que afundava, e isso sendo otimista - presumindo que escapassem de Squila. 
Ento ouvi um tipo diferente de exploso - o som da garrafa mgica de Hermes sendo aberta um pouco 
demais. Um vendaval branco soprou em todas as direes, espalhando os botes, erguendo-me da queda 
livre e me atirando pelo oceano. 
No consegui ver mais nada. Girei no ar, fui atingido na cabea por alguma coisa dura e ca na gua com 
um impacto que teria quebrado todos os ossos do meu corpo se eu no fosse filho do deus do mar. 
A ltima coisa de que me lembro foi ter afundado em um mar em chamas, sabendo que Tyson se fora para 
sempre e desejando ser capaz de me afogar. 


#
DOZE - Nossa estada no spa e resort da C.C. 
Acordei em um bote a remo com uma vela improvisada, costurada com tecido de uniformes cinzentos. 
Annabeth estava sentada ao meu lado, ajustando a posio da vela ao vento. Tentei me sentar e 
imediatamente senti tontura. 
- Descanse - disse ela. - Voc vai precisar. 
- Tyson...? 
Ela sacudiu a cabea. 
- Percy, sinto muito, mesmo. 
Ficamos em silncio enquanto as ondas nos jogavam para cima e para baixo. 
- Ele pode ter sobrevivido - disse ela, num tom desanimado. - Quer dizer, o fogo no pode mat-lo. 
Assenti, mas no havia motivo para ter esperanas. Tinha visto aquela exploso rasgar o ferro slido. 
Se Tyson estava embaixo, na casa de mquinas, no era possvel que tivesse escapado vivo. 
Ele dera a vida por ns, e tudo em que eu conseguia pensar era nas vezes em que me senti 
envergonhado por causa dele, em que tinha negado que ramos irmos. 
As ondas batiam suavemente no barco. Annabeth me mostrou algumas coisas que salvara dos destroos 
- a garrafa de Hermes (ento vazia), um saquinho com ziper cheio de ambrosia, duas camisas de 
marinheiro e uma garrafa de refrigerante. Ela me tirara da gua e achara meu saco de viagem, mordido no 
meio pelos dentes de Squila. A maior parte das minhas coisas havia sido levada pela gua, mas eu ainda 
tinha o frasco de multivitaminas de Hermes e,  claro, tinha Contracorrente. A caneta esferogrfica sempre 
aparecia de volta em meu bolso, no importava onde eu a perdesse. 
Navegamos por horas. Agora que estvamos no Mar de Monstros, a gua reluzia em um verde mais 
brilhante, como o cido da Hidra. O vento tinha um cheiro fresco e salgado, mas trazia tambm um odor 
metlico - como se uma tempestade se aproximasse. Ou algo ainda mais perigoso. Eu sabia em que 
direo devamos seguir. Sabia que estvamos a exatamente cento e trinta milhas nuticas a os-noroeste 
do nosso destino. Mas isso no fazia com que me sentisse menos perdido. 
No importava para que lado nos virssemos, o sol parecia incidir bem nos meus olhos. Ns nos 
revezamos dando goles no refrigerante, tentando, do jeito que dava, ficar  sombra da vela. E 
conversamos sobre meu ltimo sonho com Grover. 
Pela estimativa de Annabeth, tnhamos menos de vinte e quatro horas para encontrar Grover, supondo 
que meu sonho estivesse correto, e supondo tambm que o ciclope Polifemo no tivesse mudado de idia 
e tentado se casar com Grover mais cedo. 
-  - disse com amargura. - No se pode confiar em um ciclope. 
Annabeth olhou fixamente para a gua. 
- Desculpe-me, Percy. Eu estava errada sobre Tyson, o.k.? Queria poder dizer isso a ele. 
Tentei continuar zangado com ela, mas no era fcil. Passamos por muita coisa juntos. Ela salvara minha 
vida uma poro de vezes. Era tolice da minha parte ficar ressentido com ela. 
Baixei os olhos para os nossos magros pertences - a garrafa de vento vazia, o frasco de multivitaminas. 
Pensei na cara de raiva de Luke quando tentei falar com ele sobre seu pai. 

#
 - Annabeth, qual  a profecia de Quron? 
Ela apertou os lbios. 
- Percy, eu no devia... 
- Sei que Quron prometeu aos deuses que no iria me contar. Mas voc no prometeu, no ? 
- Saber de uma coisa nem sempre  bom para a gente. 
- Sua me  a deusa da sabedoria! 
- Eu sei! Mas cada vez que os heris ficam sabendo o futuro tentam mud-lo, e isso nunca d certo. 
- Os deuses esto preocupados com alguma coisa que vou fazer quando ficar mais velho - sugeri. - Algo 
quando eu fizer dezesseis anos. 
Annabeth torceu seu bon dos Yankees nas mos. 
- Percy, eu no sei da profecia completa, mas ela avisa sobre um filho meio-sangue dos Trs Grandes... o 
prximo a viver at os dezesseis anos.  a verdadeira razo de Zeus, Poseidon e Hades terem feito o 
juramento, depois da Segunda Guerra Mundial, de no ter mais filhos. O prximo filho dos Trs Grandes 
que chegar aos dezesseis anos ser uma arma perigosa. 
- Por qu? 
- Porque esse heri ir decidir o destino do Olimpo. Ele ou ela, vai tomar uma deciso que poder salvar a 
Era dos Deuses, ou destru-la. 
Deixei aquilo amadurecer na minha cabea. No costumo ficar mareado, mas de repente senti enjo. 
- Foi por isso que Cronos no me matou no ltimo vero. 
Ela fez que sim. 
- Voc poderia ser muito til para ele. Se conseguir voc como aliado, os deuses tero srios problemas. 
- Mas se sou eu na profecia... 
- S vamos saber se voc sobreviver mais trs anos. O que pode ser bastante tempo para um meio-
sangue. Quando Quron soube de Thalia, imaginou que a profecia se referisse a ela.  por isso que estava 
to desesperado para lev-la ao acampamento em segurana. Ento ela morreu lutando e foi 
transformada em pinheiro, e nenhum de ns sabia o que pensar. At voc aparecer. 
A bombordo do nosso barco uma nadadeira dorsal pontiaguda com cerca de cinco metros de comprimento 
surgiu na gua e desapareceu. 
- Essa criana na profecia... ele, ou ela, no poderia ser, tipo, um ciclope? - perguntei. - Os Trs Grandes 
tm uma poro de filhos monstros. 
Annabeth sacudiu a cabea. 
- O Orculo disse "meio-sangue". Isso sempre significa meio-humano, meio-deus. Na verdade no existe 
ningum vivo que se encaixe na definio a no ser voc. 
- Ento, por que os deuses me deixam viver? Seria mais seguro que me matassem. 

#
 - Voc tem razo. 
- Muito obrigado. 
- Percy, eu no sei. Acho que alguns dos deuses gostariam de mat-lo, mas eles provavelmente tm 
medo de ofender Poseidon. Outros deuses... talvez o estejam observando, tentando perceber que tipo de 
heri voc vai ser. Voc poderia ser uma arma para a sobrevivncia deles, afinal. A verdadeira questo 
... o que voc vai fazer em trs anos? Que deciso vai tomar? 
- A profecia deu alguma dica? 
Annabeth hesitou. 
Talvez ela fosse me contar mais, mas bem nesse momento uma gaivota mergulhou saindo do nada e 
pousou no nosso mastro improvisado. Annabeth pareceu perplexa quando a ave deixou cair uma pequena 
poro de folhas no colo dela. 
- Terra - disse ela. - H terra por perto! 
Sentei. E havia mesmo uma linha azul e marrom a distncia. Mais um minuto e pude distinguir uma ilha 
com uma pequena montanha no centro, um ajuntamento de prdios de um branco deslumbrante, uma 
praia pontilhada de palmeiras e um porto cheio de um estranho agrupamento de barcos. 
A corrente estava puxando nosso bote na direo daquilo que parecia ser um paraso tropical. 
**** 
- Bem-vindos! - disse a moa com a prancheta. 
Ela parecia uma comissria de bordo - tailleur azul, maquiagem perfeita, cabelo puxado para trs em um 
rabo-de-cavalo. Apertou nossas mos quando desembarcamos no cais. Pelo sorriso deslumbrante que ela 
nos deu, dava para pensar que acabvamos de descer do Princesa Andrmeda, e no de um bote a remo 
desconjuntado. 
Mas, por outro lado, nosso bote no era a embarcao mais esquisita no porto. Juntamente com um grupo 
de agradveis iates, havia um submarino da Marinha dos Estados Unidos, diversas noas escavadas em 
troncos e um antiquado veleiro de trs mastros. Havia um heliporto com um helicptero da base area de 
Fort Lauderdale pousado e uma curta pista de pouso e decolagem com um Learjet e um avio a hlice 
que parecia um caa da Segunda Guerra Mundial. Talvez fossem rplicas para os turistas verem, ou coisa 
assim. 
- Primeira vez conosco? - perguntou a moa da prancheta. 
Annabeth e eu trocamos olhares. Annabeth disse: 
- Ahn... 
- Primeira vez no spa - disse a moa, escrevendo na sua prancheta. - Vejamos... 
Ela nos olhou criteriosamente de cima a baixo. 
- Humm. Para comear, um emplastro de ervas para a mocinha. E,  claro, uma transformao completa 
para o jovem cavalheiro. 
- O qu? - perguntei. 


#
Ela estava atarefada demais tomando notas para responder. 
- Certo! - disse ela com um sorriso jovial. - Bem, estou certa de que C. C. vai querer falar com vocs 
pessoalmente antes do luau. Venham, por favor. 
O negcio era o seguinte: Annabeth e eu estvamos acostumados com armadilhas, e usualmente aquelas 
armadilhas pareciam coisas boas no comeo. Portanto, esperava que a qualquer minuto a prancheta da 
moa se transformasse em uma serpente, um demnio ou coisa assim. Mas, por outro lado, tnhamos 
passado a maior parte do dia flutuando em um bote a remo. Eu estava encalorado, cansado e faminto, e 
quando a moa mencionou um luau, meu estmago sentou nas patas traseiras e implorou como um 
cachorrinho. 
- Acho que mal no pode fazer - murmurou Annabeth. 
 claro que podia, mas ns seguimos a moa assim mesmo. Mantive as mos nos bolsos onde eu 
guardava minhas nicas defesas mgicas - as multivitaminas de Hermes e Contracorrente -, mas quanto 
mais adentrvamos o balnerio mais eu me esquecia delas. 
O lugar era surpreendente. Havia mrmore branco e gua azul para onde quer que eu olhasse. Havia 
terraos na encosta da montanha, com piscinas em todos os nveis, conectadas por tobogs de gua, e 
cascatas, e tubos pelos quais dava para nadar. Fontes aspergiam gua no ar, tomando formas 
impossveis, como guias voando e cavalos galopando. 
Tyson adorava cavalos, e eu sabia que ele iria adorar aquelas fontes. Quase me virei para ver a expresso 
em seu rosto antes de lembrar que Tyson se fora. 
- Voc est bem? - perguntou Annabeth. - Parece plido. 
- Estou bem - menti. -  s... Vamos seguir andando. 
Passamos por todo tipo de animal domesticado. Uma tartaruga marinha cochilava em uma pilha de toalhas 
de praia. Um leopardo dormia esticado no trampolim. Os hspedes do resort - s mulheres jovens, at 
onde eu podia ver - descansavam em espreguiadeiras, bebendo coquetis de frutas ou lendo revistas 
enquanto substncias pegajosas de ervas secavam em seus rostos e manicures de uniforme branco 
faziam suas unhas. 
Quando subimos uma escadaria em direo ao que parecia ser o edifcio principal, ouvi uma mulher 
cantando. Sua voz pairava no ar como uma cano de ninar. A letra era em alguma lngua que no o 
grego antigo, mas igualmente velha - minico, talvez, ou algo assim. Eu conseguia entender sobre o que 
era - luar em olivais, as cores da aurora. E mgica. Algo sobre mgica. A voz parecia me erguer dos 
degraus e me transportar em sua direo. 
Entramos em um grande salo cuja parede da frente era toda de janelas. A parede de trs estava coberta 
de espelhos, assim o salo parecia no acabar nunca. Havia um conjunto de mveis brancos 
aparentemente caros, e sobre uma mesa em um canto havia uma grande gaiola de arame. A gaiola 
parecia deslocada, mas pensei muito nisso, porque justamente nesse instante vi a moa que estava 
cantando... e, uau! 
Estava sentada em frente a um tear do tamanho de uma tev de tela grande, as mos tecendo fios 
coloridos para cima e para baixo com espantosa habilidade. A tapearia cintilava como se fosse 
tridimensional - o cenrio de uma cascata to real que eu podia ver a gua se movendo e as nuvens 
pairando em um cu de tecido. 
Annabeth tomou flego. 
-  lindo. 


#
A mulher se virou. Era ainda mais bonita que seu tecido. Os longos cabelos escuros estavam tranados 
com fios de ouro. Tinha olhos verdes penetrantes e usava um vestido preto sedoso com formas que 
pareciam mover-se no tecido: sombras de animais, preto sobre preto, como cervos correndo por uma 
floresta  noite. 
- Voc gosta de tecelagem, minha querida? - perguntou a mulher. 
- Ah, sim, senhora. - disse Annabeth. - Minha me ... 
Ela se interrompeu. Voc no pode simplesmente sair por a anunciando que sua me  Atena, a deusa 
que inventou o tear. A maioria das pessoas iria tranc-lo em um quarto de hospcio. 
Nossa anfitri apenas sorriu. 
- Tem bom gosto, minha querida. Estou to contente por voc ter vindo. Meu nome  C. C. 
Os animais na gaiola do canto comearam a guinchar. Pelo som, deviam ser porquinhos-da-ndia. 
Ns nos apresentamos a C. C. Ela me examinou com um qu de desaprovao, como se eu no tivesse 
passado em algum tipo de teste. Eu imediatamente me senti mal. Por alguma razo, queria muito agradar 
quela moa. 
- Ah! cus - suspirou ela. - Voc realmente precisa da minha ajuda. 
- Senhora? - perguntei. 
C. C. chamou a moa de tailleur. 
- Hylla, quer levar Annabeth para dar uma volta? Mostre a ela o que temos disponvel. As roupas 
precisaro ser trocadas. E o cabelo, cus! Faremos uma consultoria de imagem completa depois que eu 
falar com este jovem cavalheiro. 
- Mas... - O tom de Annabeth pareceu magoado. - O que h de errado com meu cabelo? 
C. C. deu um sorriso bondoso. 
- Minha querida, voc  adorvel. Sem dvida! Mas no est mostrando a si mesma ou seus talentos nem 
um pouco.  muito potencial desperdiado! 
- Desperdiado? 
- Bem, voc certamente no est feliz do jeito que ! Cus, no existe uma nica pessoa que esteja. Mas 
no se preocupe. Podemos melhorar qualquer um aqui no spa. Hylla vai lhe mostrar o que quero dizer. 
Voc, minha querida, precisa revelar seu verdadeiro eu! 
Os olhos de Annabeth brilharam de ansiedade. Eu nunca a tinha visto to sem palavras. 
- Mas... e Percy? 
- Ah! sem a menor dvida - disse C. C, lanando-me um olhar triste. - Percy requer minha ateno 
pessoal. Ele vai dai muito mais trabalho que voc. 
Normalmente, se algum me dissesse aquilo eu ficaria zangado, mas quando C. C. falou eu senti tristeza. 
Eu a desapontara. Tinha de descobrir como me sair melhor. 
Os porquinhos-da-ndia guincharam como se estivessem com fome. 


#
- Bem... - disse Annabeth. - Acho que... 
- Por aqui, querida - disse Hylla. 
E Annabeth permitiu que a levassem embora para o jardim com cascatas do spa. 
C. C. pegou meu brao e me guiou em direo  parede de espelhos. 
- Como v, Percy... para liberar seu potencial voc vai precisar de uma grande ajuda. O primeiro passo  
admitir que voc no  feliz do jeito que . 
Fiquei inquieto na frente do espelho. Odiava pensar na minha aparncia - como a primeira espinha que 
surgira no meu nariz no comeo do ano letivo, ou o fato de que meus dois dentes da frente no eram 
perfeitamente iguais, ou que meu cabelo nunca assentava direito. 
A voz de C. C. me trouxe  lembrana todas essas coisas, como se ela estivesse me observando por um 
microscpio. E minhas roupas no eram legais, eu sabia disso. 
Quem se importa? Pensou uma parte de mim. Mas, de p diante do espelho de C. C, era difcil ver algo de 
bom em mim mesmo. 
- Vamos, vamos... - consolou-me C. C. - Que tal se tentarmos... isso. 
Ela estalou os dedos e uma cortina azul-cu desceu diante do espelho. Ela cintilava como o tecido em seu 
tear. 
- O que voc v? - perguntou C. C. 
Olhei para o pano azul, sem saber muito bem o que ela queria dizer. 
- Eu no... 
Ento ele mudou de cor. Eu vi a mim mesmo - um reflexo, nus no um reflexo. Ali cintilando no pano 
estava uma verso melhorada de Percy Jackson - com as roupas certas, um sorriso confiante no rosto. 
Meus dentes estavam alinhados. Nenhuma espinha. Um bronzeado perfeito. Mais atltico. Talvez alguns 
centmetros mais alto. Era eu, sem os defeitos. 
- Uau - consegui dizer. 
- Voc quer assim? - perguntou C. C. - Ou devo tentar um diferente... 
- No - falei. - Isso ... isso  incrvel. Voc pode realmente... 
- Posso lhe proporcionar uma transformao completa - prometeu C. C. 
- Qual  o truque? Eu preciso, tipo... entrar numa dieta especial? 
- Ah!  muito fcil - disse C. C. - Muitas frutas frescas, um leve programa de exerccios e  claro... isso. 
Ela foi at seu bar e encheu um copo com gua. Depois rasgou um envelope de mistura para refresco e 
despejou um pouco de p vermelho. A mistura comeou a brilhar. Depois que o brilho se extinguiu, a 
bebida parecia exatamente um milk-shake de morango. 
- Um desses no lugar de uma refeio normal - disse C. C. - Garanto que vai ver os efeitos imediatamente. 
- Como  possvel? 


#
Ela riu. 
- Por que questionar? Quer dizer, voc no quer o seu perfeito agora mesmo? 
Alguma coisa l no fundo me incomodava. 
- Por que no h nenhum homem neste spa? 
- Ah! mas h, sim - assegurou-me C. C. - Logo voc encontrar. Apenas experimente a mistura. Voc vai 
ver. 
Olhei para a tapearia azul, para o reflexo que era eu mas no era eu. 
- Agora, Percy - repreendeu C. C. - A parte mais difcil do processo de transformao  abrir mo do 
controle. Voc tem de decidir: quer confiar no seu julgamento sobre o que voc deve ser ou no meu 
julgamento? 
Senti a garganta seca. Eu me ouvi dizendo: 
- No seu julgamento. 
C. C. sorriu e me entregou o copo. Levei-o aos lbios 
Tinha o sabor que aparentava - milk-shake de morango. Quase imediatamente uma sensao calorosa se 
espalhou pelas minhas entranhas: agradvel de incio, depois dolorosamente quente, escaldante, como se 
a mistura estivesse fervendo dentro de mim. 
Eu me curvei e deixei o copo cair. 
- O que voc... o que est acontecendo? 
- No se preocupe, Percy - disse C. C. - A dor vai passar. Olhe! Como eu prometi. Resultados imediatos. 
Alguma coisa estava terrivelmente errada. 
A cortina caiu, e no espelho eu vi minhas mos murchando, se encurvando, enquanto cresciam garras 
compridas e delicadas. Pelos brotaram em meu rosto, embaixo da camisa, em todos os lugares mais 
constrangedores que voc possa imaginar. Os dentes pareciam muito pesados na minha boca. Minhas 
roupas estavam ficando grandes demais, ou C. C. estava ficando alta demais - no, eu estava 
encolhendo. 
Num flash medonho, afundei em uma caverna escura de pano. Estava enterrado em minha prpria 
camisa. Tentei correr, mas mos me agarraram - mos do meu tamanho. Tentei gritar por socorro, mas 
tudo o que saiu da minha boca foi: 
- Iiik, iiik, iiik! 
As mos gigantes me espremeram pelo tronco, me erguendo no ar. Eu me debati e esperneei com pernas 
e braos que pareciam muito curtos e grossos, e ento eu estava olhando, aterrorizado, para a enorme 
cara de C. C. 
- Perfeito! - retumbou a voz dela. 
Eu me contorci, alarmado, mas ela apenas me apertou mais em volta da barriga peluda. 
- Est vendo, Percy? Voc revelou seu verdadeiro eu! 


#
Ela me segurou diante do espelho, e o que vi me fez gritar de terror. 
- liik, iiik, iiik! 
Ali estava C. C, linda e sorrindo, segurando uma criatura fofa, dentua, de garras pequeninas e pelagem 
branca e laranja. Quando me torci, a criatura peluda no espelho fez o mesmo. Eu era... eu era... 
- Um porquinho-da-ndia - disse C. C. - Adorvel, no ? Os homens so porcos, Percy Jackson. Eu 
costumava transform-los em porcos de verdade, mas eles eram to fedidos e grandes, e difceis de 
manter... Porquinhos-da-ndia so muito mais convenientes! Agora venha, e conhea os outros homens. 
- Iiik!- protestei, tentando arranh-la, mas C. C. me apertou com tanta fora que eu quase desmaiei. 
- Nada disso, pequenino - repreendeu ela -, seno vou oferec-lo s corujas. Entre na gaiola como um 
bom animalzinho. Amanh, se voc se comportar, poder ir embora. H sempre uma sala de aula 
precisando de um novo porquinho-da-ndia. 
Minha cabea estava to disparada quanto meu coraozinho. Precisava voltar at as minhas roupas, que 
estavam amontoadas no cho. Se conseguisse fazer isso, poderia tirar Contracorrente do bolso e... e o 
qu? Eu no conseguiria destampar a caneta. E, mesmo que conseguisse, no poderia segurar a espada. 
Eu me contorci, indefeso, enquanto C. C. me levava para a gaiola de porquinhos-da-ndia e abria a porta 
de arame. 
- Conhea os meus problemas de disciplina, Percy - advertiu ela. - Eles nunca sero bons animaizinhos de 
sala de aula, mas podem lhe ensinar algo sobre boas maneiras. A maioria j est nessa gaiola h 
trezentos anos. Se no quiser ficar com eles para sempre, sugiro que voc... 
A voz de Annabeth chamou: 
- Senhorita C. C.? 
C. C. praguejou em grego antigo. Ela me jogou dentro da gaiola e fechou a porta. Guinchei e arranhei as 
barras, mas no adiantava nada. Fiquei olhando enquanto C. C. chutava depressa minhas roupas para 
baixo do tear bem no momento em que Annabeth entrou. 
Eu quase no a reconheci. Estava usando um vestido de seda sem mangas como o de C. C, s que 
branco. O cabelo loiro estava recm-lavado e tranado com ouro. E o pior de tudo era que ela estava 
maquiada, coisa que eu pensava que Annabeth nunca seria pega usando. Quer dizer, ela estava bonita. 
Bonita  beca. Talvez eu ficasse sem fala se fosse capaz de dizer qualquer coisa alm de iiik, iiik, iiik. Mas 
havia algo de totalmente errado naquilo. Aquilo no era Annabeth. 
Ela olhou em volta e franziu a testa. 
- Onde est Percy? 
Eu guinchei uma tempestade, mas ela pareceu no me ouvir. 
C. C. sorriu. 
- Ele est passando por um dos nossos tratamentos, minha querida. No se preocupe. Voc est 
maravilhosa! O que achou da sua excurso? 
Os olhos de Annabeth brilharam. 
- Sua biblioteca  impressionante! 


#
- Sim, de fato - disse C. C. - O melhor da sabedoria dos trs ltimos milnios. Qualquer coisa que voc 
queira estudar, qualquer coisa que queira ser, minha querida. 
- Quero ser arquiteta. 
- Bah! - disse C. C. - Voc, minha querida, tem tudo o que  preciso para ser uma feiticeira. Como eu. 
Annabeth deu um passo atrs. 
- Uma feiticeira? 
- Sim, minha querida. - C. C. ergueu a mo. Uma chama apareceu na palma e danou entre as pontas dos 
seus dedos. - Minha me  Hcata, a deusa da mgica. Conheo uma filha de Atena quando a vejo. No 
somos to diferentes, voc e eu. Ambas buscamos o conhecimento. Ambas admiramos a grandeza. 
Nenhuma de ns precisa ficar  sombra de homens. 
- Eu... eu no entendo. 
Outra vez, guinchei o melhor que podia, tentando chamar a ateno de Annabeth, mas ou ela no podia 
me ouvir ou no achava que os rudos fossem importantes. Nesse meio-tempo, os outros porquinhos-da-
ndia estavam saindo de sua casinha para me examinar. No imaginava que porquinhos-da-ndia 
pudessem parecer maus, mas aqueles pareciam. Havia meia dzia, com o pelo sujo, dentes rachados e 
olhos redondos e vermelhos. Estavam cobertos de serragem e o cheiro era de quem realmente estava ali 
havia trezentos anos, sem que ningum limpasse a gaiola. 
- Fique comigo - C. C. estava dizendo a Annabeth. - Estude comigo. Voc pode se juntar  nossa equipe, 
tornar-se uma feiticeira, aprender a dobrar os outros  sua vontade. Voc se tornar imortal! 
- Mas... 
- Voc  inteligente demais, minha querida - disse C C - Pode fazer mais do que apostar naquele 
acampamento bobo de heris. Quantas grandes mulheres heronas meio-sangue voc pode citar? 
- Ahn, Atalanta, Amlia Earhart... 
- Bah! Os homens ficam com toda a glria. - C. C. fechou o punho e extinguiu a chama mgica. - O nico 
caminho das mulheres para o poder  a feitiaria. Medeia, Calipso, essas eram mulheres poderosas! E eu, 
 claro. A maior de todas. 
- Voc... C. C... Circe! 
- Sim, minha querida. Annabeth recuou, e Circe riu. 
- No precisa se preocupar. No lhe farei mal. 
- O que fez com Percy? 
- S o ajudei a concretizar sua verdadeira forma. Annabeth esquadrinhou a sala. Finalmente, viu a gaiola, 
e me viu arranhando as barras, com todos os outros porquinhos-da-ndia  minha volta. Seus olhos se 
arregalaram. 
- Esquea-o - disse Circe. - Junte-se a mim e aprenda os caminhos da feitiaria. 
- Mas... 


- Seu amigo ser bem cuidado. Ele ser despachado para um maravilhoso novo lar no continente. As 
crianas do jardim-de-infncia vo ador-lo. Enquanto isso, voc ser sbia e poderosa. Tera tudo o que 

#
sempre quis. 
Annabeth ainda olhava fixamente para mim, mas estava com uma expresso sonhadora no rosto. Estava 
do mesmo jeito que eu quando Circe me enfeitiou para beber o milk-shake de porquinho-da-ndia. Eu 
guinchei e arranhei, tentando alert-la para despertar, mas estava absolutamente impotente. 
- Deixe-me pensar a respeito - murmurou Annabeth. - S... preciso de um minuto sozinha. Para dizer 
adeus. 
-  claro, minha querida - arrulhou Circe. - Um minuto. Ah!... e para que voc tenha privacidade absoluta... 
Ela acenou a mo e barras de ferro desceram nas janelas. Saiu da sala e ouvi as trancas da porta se 
fecharem atrs dela. O ar sonhador derreteu-se do rosto de Annabeth. Ela correu at minha gaiola. 
- Muito bem, qual  voc? 
Eu guinchei, mas todos os outros porquinhos-da-ndia tambm guincharam. Annabeth parecia 
desesperada. Esquadrinhou a sala e avistou a barra dos meus jeans aparecendo embaixo do tear. 
- Sim! 
Correu para l e vasculhou os bolsos. 
Mas, em vez de puxar Contracorrente, encontrou o frasco de multivitaminas de Hermes e comeou a lutar 
com a tampa. 
Tive vontade de gritar para ela que aquele no era o momento para tomar suplementos! Ela tinha de sacar 
a espada! 
Ela jogou uma pastilha de limo na boca no momento em que a porta se abriu e Circe voltou, a seu lado 
duas das assistentes de tailleur. 
- Bem - suspirou Circe -, como um minuto passa depressa! Qual  sua resposta, minha querida? 
- Esta - disse Annabeth, e sacou sua faca de bronze. 
A feiticeira deu um passo atrs, mas sua surpresa logo passou Olhou-a com desprezo. 
- Realmente, menininha, uma faca contra a minha mgica? Ser que isso  sensato? 
Circe olhou para as assistentes atrs dela, que sorriram. Elas ergueram as mos como se estivessem se 
preparando para lanar um feitio. 
Corra!, eu quis dizer a Annabeth, mas tudo o que consegui fazer foram rudos de roedor. Os outros 
porquinhos-da-ndia guincharam aterrorizados e correram pela gaiola. Meu impulso foi entrar em pnico e 
me esconder tambm, mas tinha de pensar em alguma coisa! No ia suportar perder Annabeth como 
perdera Tyson. 
- Como ser a transformao de Annabeth? - refletiu Circe. - Algo pequeno e mal-humorado. J sei... um 
musaranho! 
Chamas azuis se contorceram saindo de seus dedos e se enrascaram como serpentes em Annabeth. 
Eu fiquei olhando, horrorizado, mas nada aconteceu. Annabeth continuou sendo Annabeth, s que mais 
zangada. Ela saltou para a frente e colocou a ponta da faca no pescoo de Circe. 
- Que tal me transformar em uma pantera, em vez disso? Uma pantera que est com as garras na sua 
garganta! 

#
 - Como? - gemeu Circe. 
Annabeth ergueu meu frasco de vitaminas para a feiticeira ver. Circe uivou de frustrao. 
- Maldito seja Hermes, com suas multivitaminas! Elas no passam de uma moda passageira! No podem 
fazer nada por voc. 
- Faa Percy voltar a ser humano, seno... - disse Annabeth. 
- Eu no posso! 
- Ento voc vai ter o que pediu. 
As assistentes de Circe avanaram um passo, mas sua senhora disse: 
- Recuem! Ela  imune  mgica at que passe o efeito daquela maldita vitamina. 
Annabeth arrastou Circe at a gaiola dos porquinhos-da-ndia, derrubou a parte de cima e despejou o 
restante das pastilhas l dentro. 
- No! - gritou Circe. 
Eu fui o primeiro a conseguir uma vitamina, mas todos os outros porquinhos-da-ndia tambm correram 
para experimentar o novo alimento. 
A primeira mordida, eu me senti pegando fogo por dentro. Ro a vitamina at que ela no parecesse mais 
to enorme. E a gaiola ficou menor. E ento, de repente, hum!, a gaiola explodiu. Eu estava sentado no 
cho, humano de novo - de algum modo, de volta a minhas roupas normais, graas aos deuses -, com 
seis outros caras que pareciam todos desorientados, piscando e sacudindo a serragem dos cabelos. 
- No! - gritou Circe. - Voc no entende! Aqueles so os piores! 
Um dos homens se ps em p - um cara enorme, com uma barba comprida e emaranhada, preta como 
piche, e dentes da mesma cor. Usava roupas que no combinavam, de l e couro, botas at os joelhos e 
um chapu de feltro mole. Os outros homens estavam vestidos de maneira mais simples - cales 
amarrados abaixo do joelho e camisas brancas manchadas. Todos estavam descalos. 
- Argggh! - urrou o homenzarro. - O que a bruxa fez comigo! 
- No! - gemeu Circe. 
Annabeth respirou fundo. 
- Eu conheo voc! Edward Teach, filho de Ares? 
- Sim, garota - rosnou o homenzarro. - Mas a maioria me chama de Barba-Negra! E aquela  a feiticeira 
que nos capturou, rapazes. Acabem com ela, e depois quero arranjar uma grande tigela de aipo para mim. 
Arggggh! 
Circe gritou. Ela e suas assistentes saram correndo da sala, perseguidas pelos piratas. 
Annabeth embainhou sua faca e olhou para mim. 
- Obrigado... - balbuciei. - Realmente, sinto muito... 


#
Antes que eu pudesse pensar em um jeito de me desculpar por ter sido to idiota, ela me pegou em um 
abrao, depois se afastou com igual velocidade. 
- Estou feliz por voc no ser um porquinho-da-ndia. 
- Eu tambm. - Esperei que meu rosto no estivesse to vermelho quanto me parecia. 
Ela desfez as trancas de ouro em seu cabelo. 
- Venha, Cabea de Alga. Precisamos dar o fora enquanto Circe est ocupada. 
Corremos colina abaixo pelos terraos, passando por funcionrias do spa aos berros e piratas saqueando 
o resort. Os homens do Barba-Negra quebraram as tochas polinsias do luau, jogaram emplastros de 
ervas na piscina e chutaram mesas com toalhas de sauna. 
Eu quase me senti mal por deixar os piratas rebeldes escapar, mas achei que eles mereciam algum 
divertimento melhor do que a roda de exerccios dos porquinhos-da-ndia depois de ficarem presos em 
uma gaiola por trs sculos. 
- Qual navio? - disse Annabeth quando chegamos ao cais. 
Olhei em volta atordoado. No podamos pegar nosso velho bote a remo. Tnhamos de escapar da ilha 
depressa, mas o que mais poderamos usar? Um submarino? Um caa a jato? Eu no sabia pilotar 
nenhuma daquelas coisas. E ento eu vi. 
- Ali - falei. 
Annabeth piscou. 
- Mas... 
- Posso faz-lo funcionar. 
- Como? 
No consegui explicar. De algum modo eu sabia que uma velha embarcao a vela seria a melhor aposta. 
Agarrei a mo de Annabeth e a puxei para o navio de trs mastros. Pintado na proa estava o nome que eu 
s iria decifrar mais tarde: Vingana da Rainha Ana. 
- Argggh! - berrou Barba-Negra em algum lugar atrs de ns. - Aqueles patifes esto tomando meu navio! 
Peguem-nos, rapazes! 
- Nunca vamos conseguir zarpar a tempo! - gritou Annabeth enquanto embarcvamos. 
Olhei em volta para o impossvel emaranhado de velas e cordas. O navio estava em timas condies 
para seus trezentos anos, mas mesmo uma tripulao de cinqenta homens levaria vrias horas para 
coloc-lo em movimento. No tnhamos vrias horas. Eu podia ver os piratas correndo escadas abaixo, 
agitando tochas e talos de aipo. 
Fechei os olhos e me concentrei nas ondas que batiam no casco, nas correntes ocenicas, nos ventos 
que me cercavam. De repente, a palavra certa apareceu em minha cabea. 
- Mastrodamezena! - gritei. 
Annabeth me olhou como se eu fosse maluco, mas no segundo seguinte o ar se encheu com o assobio 
das cordas sendo bruscamente esticadas, o barulho de lonas se desfraldando e polias de madeira 
rangendo. 

#
 Annabeth se esquivou quando um cabo voou por cima da sua cabea e se enroscou nos gurups. 
- Percy, como... 
Eu no tinha uma resposta, mas podia sentir o navio reagindo como se fosse parte do meu corpo. Fiz com 
que as velas se iassem to facilmente como se estivesse movendo um brao. E fiz o leme virar. 
O Vingana da Rainha Ana afastou-se do cais numa guinada, e quando os piratas chegaram perto da gua j 
estvamos navegando o Mar de Monstros. 


#
TREZE - Annabeth tenta ir nadando para casa 
Por fim eu encontrara alguma coisa em que era realmente bom. 
O Vingana da Rainha Ana respondia ao meu comando. Eu sabia que cordas iar, que velas levantar, em 
que direo pilotar. Avanamos nas ondas a uma velocidade que estimei em cerca de dez ns. Eu at 
entendia perfeitamente como aquilo era rpido. Para um navio  vela, extremamente veloz. 
Tudo parecia perfeito - o vento no rosto, as ondas quebrando na proa. 
Mas, agora que estvamos fora de perigo, eu s pensava na falta que Tyson me fazia, e em como estava 
preocupado com Grover. 
No conseguia me recuperar da tremenda trapalhada que tinha leito na ilha de Circe. Se no fosse por 
Annabeth, ainda seria um roedor, escondido em uma casinha com um bando de piratas fofinhos e peludos. 
Ficava pensando no que Circe dissera: Est vendo, Percy? Voc revelou seu verdadeiro eu! 
Eu ainda me sentia transformado. No s porque de repente tinha vontade de comer alface. Estava 
inquieto, como se o instinto de ser um animalzinho assustado fosse agora parte de mim. Ou talvez sempre 
tivesse estado ali.  o que de fato me preocupava. 
Navegamos noite adentro. 
Annabeth tentou me ajudar a manter a vigilncia, mas navegar no era para ela. Depois de algumas horas 
balanando de um lado para outro, seu rosto estava da cor de guacamole e ela foi para baixo, deitar numa 
rede. 
Eu observava o horizonte. Avistei monstros mais de uma vez. Um jorro de gua alto como um arranha-cu 
foi cuspido  luz da lua. Uma fileira de salincias verdes e pontudas serpenteou nas ondas - algo com 
talvez trinta metros de comprimento, reptiliano. Eu no queria saber. 
Uma vez vi nereidas, os espritos femininos luminescentes do mar. Tentei acenar, mas elas 
desapareceram nas profundezas e fiquei sem saber se tinham ou no me visto. 
Pouco depois da meia-noite Annabeth subiu para o convs. Estvamos passando por uma ilha vulcnica 
fumegante. Na costa, o mar borbulhava e o vapor subia. 
- Uma das forjas de Hefesto - disse Annabeth.  Onde ele faz seus monstros de metal. 
- Como os touros de bronze? Ela fez que sim. 
- D a volta. Passe bem longe. 
Ela no precisou dizer duas vezes. Navegamos afastados M ilha, que logo era apenas uma mancha 
vermelha de neblina atrs de ns. 
Olhei para Annabeth. 
- A razo da raiva que tem dos ciclopes... a histria sobre como Thalia realmente morreu. O que 
aconteceu? 
Era difcil ver sua expresso no escuro. 
- Acho que voc merece saber - disse ela afinal. - noite em que Grover estava nos escoltando para o 
acampamento, ele ficou confuso, errou o caminho algumas vezes. Lembra que ele lhe contou isso? 


#
Eu concordei. 
- Bem, o pior erro levou  cova de um ciclope no Brooklyn. 
- Eles tm ciclopes no Brooklyn? - perguntei. 
- Voc no acreditaria quantos, mas no se trata disso. Esse ciclope, ele nos enganou. Conseguiu nos 
separar dentro de um labirinto de corredores em uma casa velha em Flatbush. E conseguia falar com a 
voz de qualquer um, Percy. Exatamente como Tyson fez a bordo do Princesa Andrmeda. Ele nos atraiu, 
um de cada vez. Thalia pensou que estava correndo para salvar Luke. Luke pensou ter me ouvido gritar 
por socorro. E eu... eu fiquei sozinha no escuro. Tinha sete anos. No conseguia nem achar a sada. 
Ela afastou o cabelo do rosto. 
- Lembro que encontrei a sala principal. Havia ossos espalhados por todo o piso. E l estavam Thalia, Luke 
e Grover, com as mos amarradas e amordaados, pendurados no teto como presunto defumado. O 
ciclope estava acendendo um fogo bem ali no piso. Puxei minha faca, mas ele me ouviu. Virou-se e sorriu. 
Ele falou e, de algum modo, conhecia a voz do meu pui. Acho que simplesmente a extraiu da 
minha cabea. Ele disse: "Agora, Annabeth, no se preocupe. Eu amo voc. Voc pode ficar aqui comigo. 
Voc pode ficar para sempre." 
Eu estremeci. O modo como ela contou aquilo - mesmo ali, seis anos depois - me apavorou mais que 
qualquer histria de fantasma que j ouvira. 
- O que voc fez? 
- Eu o esfaqueei no p. Olhei para ela. 
- Voc est brincando? Tinha sete anos e esfaqueou um ciclope adulto no p? 
- Ah! ele teria me matado. Mas eu o surpreendi. Isso s me deu tempo de correr at Thalia e cortar as 
cordas das mos dela. Da em diante, ela assumiu. 
- Sim, mas ainda assim... foi muita coragem, Annabeth. 
Ela sacudiu a cabea. 
- Foi por pouco que escapamos. Ainda tenho pesadelos, Percy. O modo como o ciclope falou com a voz 
do meu pai. Foi por causa dele que demoramos tanto para chegar ao acampamento. Todos os monstros 
que estavam nos perseguindo tiveram tempo de nos alcanar. Na verdade, foi por isso que Thalia morreu. 
Se no fosse aquele ciclope, ela ainda estaria viva. 
Ns nos sentamos no convs, observando a constelao de Hrcules erguer-se no cu. 
- V para baixo - disse Annabeth por fim. - Voc precisa descansar um pouco. 
Eu assenti. Meus olhos estavam pesados. Mas quando cheguei embaixo e encontrei uma rede levei muito 
tempo para adormecer. Fiquei pensando na histria de Annabeth. Se eu fosse ela, pensei, ser que teria 
coragem para partir naquela misso, de navegar para a cova de outro ciclope? 
***** 
Eu no sonhei com Grover. 
Em vez disso, estava de volta ao camarote de Luke a bordo do Princesa Andrmeda. As cortinas estavam 
abertas. Do lado de fora era noite. Sombras giravam no ar. Vozes sussurravam  minha volta - espritos 
dos mortos. 

#
 Cuidado, elas sussurravam. Armadilhas. Ardis. 
O sarcfago de ouro de Cronos brilhava discretamente - a nica fonte de luz no recinto. 
Um riso frio me assustou. Parecia vir de quilmetros abaixo do navio. Voc no tem coragem, jovenzinho. 
No pode me deter. 
Eu sabia o que tinha de fazer. Precisava abrir aquele caixo. 
Destampei Contracorrente. Fantasmas esvoaavam  minha volta como um tornado. Cuidado! 
Meu corao batia forte. Eu no conseguia obrigar meus ps a se mexer, mas tinha de deter Cronos. 
Precisava destruir o que quer que estivesse naquela caixa. 
Ento uma menina falou bem ao meu lado: 
- E ento, Cabea de Alga? 
Olhei, esperando ver Annabeth, mas a menina no era ela. Usava roupas estilo punk com correntes de 
prata nos pulsos. Tinha cabelo preto espetado, delineador escuro em volta dos olhos azuis tempestuosos 
e sardas espalhadas no nariz. Parecia conhecida, mas eu no sabia muito bem por qu. 
- E ento? - perguntou. - Voc vai det-lo ou no? 
Eu no conseguia responder. No conseguia me mexer. 
A menina revirou os olhos. 
- timo. Deixe comigo e Aegis. 
Ela tocou seu pulso e as correntes de prata se transformaram - achatando-se e se expandindo em um 
enorme escudo. Era de prata e bronze, com a cara monstruosa da Medusa se projetando do centro. 
Parecia uma mscara morturia, como se a verdadeira cabea da grgona tivesse sido prensada no 
metal. Eu no sabia se aquilo era de verdade ou se o escudo podia de fato me transformar em pedra, mas 
desviei o olhar. S o fato de estar perto daquilo me deixava gelado de medo. Tive a sensao de que, 
numa luta de verdade, derrotar o portador daquele escudo seria quase impossvel. Qualquer inimigo daria 
meia-volta e sairia correndo. 
A menina puxou sua espada e avanou para o sarcfago. Os fantasmas escuros se separaram para 
deix-la passar, espalhando-se frente  terrvel aura de seu escudo. 
- No - tentei adverti-la. 
Mas ela no me deu ouvidos. Marchou direto para o sarcfago e empurrou a tampa dourada para o lado. 
Por um momento ficou ali parada, olhando fixamente para o que havia dentro da caixa. 
O caixo comeou a brilhar. 
- No. - A voz da menina tremia. - No pode ser. 
Das profundezas do oceano, Cronos riu to alto que fez tremer o navio inteiro. 
- No! - A menina gritou, e o sarcfago a engoliu em uma exploso de luz dourada. 
- Ah! - Sentei na rede em um salto. 

#
 Annabeth me sacudia. 
- Percy, voc estava tendo um pesadelo. - Precisa levantar! 
- O que... o que foi? - esfreguei os olhos. - O que est errado? 
- Terra - disse ela num tom soturno. - Estamos nos aproximando da ilha das sereias. 
***** 
Mal pude distinguir a ilha  nossa frente - apenas um ponto escuro na nvoa. 
- Quero que me faa um favor - disse Annabeth. - sereias... estaremos ao alcance do canto delas em 
breve. 
Lembrei-me das histrias sobre as sereias. Elas cantavam modo to encantador que sua voz enfeitiava 
os marinheiros e os seduzia para a morte. 
- Sem problemas - assegurei-lhe. - Podemos simplesmente tapar os ouvidos. H um grande barril de cera 
de vela no convs de baixo... 
- Eu quero ouvi-las. 
Eu pisquei. 
- Por qu? 
- Dizem que as sereias cantam a verdade sobre o que a gente deseja. Contam coisas a seu respeito que 
nem voc mesmo percebe.  isso que  to encantador. Se voc sobrevive... se torna mais sbio. Eu 
quero ouvi-las. Quantas vezes terei uma oportunidade dessas? 
Vindo da maioria das pessoas, aquilo no teria feito sentido. Mas sendo Annabeth quem era - bem, ela se 
empenhava em livros de arquitetura grega antiga e gostava de documentrios do History Channel, acho 
que as sereias tambm podiam interessar. 
Ela me contou seu plano. Com relutncia, ajudei-a a se preparar. 
Assim que avistamos a costa rochosa da ilha, ordenei a uma das cordas que se enrolasse na cintura de 
Annabeth, amarrando-a ao mastro principal. 
- No me desamarre - disse ela -, no importa o que acontea nem quanto eu implore. Minha vontade vai 
ser correr para a amurada e me jogar. 
- Voc est querendo me tentar? 
- Ha-ha. 
Prometi que a manteria segura. Ento peguei duas grandes bolas de cera de vela e amassei at que 
tivessem o formato de tampes, que enfiei nos ouvidos. 
Annabeth assentiu com sarcasmo, dando a entender que os tampes de ouvido eram a ltima moda. Fiz 
uma careta para ela e fui para o timo. 


O silncio era assustador. Eu no conseguia ouvir nada a no ser o sangue correndo na minha cabea. 
Quando nos aproximamos da ilha, rochas pontiagudas assomaram no nevoeiro. Ordenei ao Vingana da 

#
Rainha Ana que as contornasse. Se chegssemos mais perto, aquelas rochas iriam retalhar o casco como 
lminas de liquidificador. 
Dei uma olhada para trs. De incio, Annabeth pareceu totalmente normal. Depois ficou com uma 
expresso intrigada. Seus olhos se arregalaram. 
Ela forou as cordas. Chamou meu nome - eu sabia s de ler seus lbios. Sua expresso era clara: 
precisava se soltar. Era questo de vida ou morte. Eu tinha de solt-la das cordas imediatamente. 
Parecia to infeliz que foi difcil no libert-la. 
Forcei-me a desviar os olhos. Encorajei o Vingana da Rainha Ana a ir mais depressa. 
Eu ainda no conseguia ver a ilha muito bem - apenas nevoeiro e rochas -, mas flutuando na gua havia 
pedaos de madeira e fibra de vidro, destroos de velhos navios, e at alguns assentos flutuantes de 
avies. 
Como a msica podia desviar tantas vidas de seu curso? Quer dizer, com certeza havia algumas canes 
entre as mais tocadas que me faziam querer mergulhar nas chamas em queda livre, mas ainda assim... 
Sobre o que as sereias deviam cantar? 
Por um momento perigoso entendi a curiosidade de Annabeth. Fiquei tentado a tirar os tampes de 
ouvido, s para ter idia da cano. Podia sentir as vozes das sereias vibrando no madeirame do navio, 
pulsando em meus ouvidos junto com o rudo do sangue. 
Annabeth implorava. Lgrimas escorriam em seu rosto. Lutava com as cordas como se a estivessem 
impedindo de alcanar tudo que mais importava para ela. 
Como pode ser to cruel?, parecia me perguntar. Pensei que fosse meu amigo. 
Olhei fixamente para a ilha enevoada. Tive vontade de destampar minha espada, mas no havia nada 
contra o que lutar. Como se luta contra uma cano? 
Tentei muito no olhar para Annabeth. Consegui fazer isso por cerca de cinco minutos. 
Foi meu grande erro. 
Quando no pude agentar mais, olhei para trs e encontrei... uma pilha de cordas cortadas. Um mastro 
vazio. A faca de bronze de Annabeth estava cada no convs. De algum modo, ela conseguira se 
contorcer at peg-la. Tinha me esquecido completamente de desarm-la. 
Corri para a amurada do barco e a vi dando braadas desesperadas em direo  ilha, as ondas a 
arrastando direto para as rochas pontiagudas. 
Gritei seu nome, mas, se ela me ouviu, de nada adiantou. Estava hipnotizada, nadando rumo  morte. 
Olhei para o timo atrs de mim e gritei: 
- Pare! 
E ento pulei da amurada. 
Ca na gua e ordenei que a correnteza contornasse meu corpo, num fluxo que me atirou para a frente. 
Cheguei  superfcie e avistei Annabeth, mas uma onda a pegou, arrastando-a por entre duas presas de 
pedra afiadas como navalhas. 


#
No tive escolha. Lancei-me atrs dela. 
Mergulhei por baixo do casco destroado de um iate, trancei por entre uma coleo de bolas flutuantes de 
metal presas a correntes que, depois, percebi que eram minas.Tive de usar todo o meu poder sobre as 
guas para evitar que fosse esmagado contra as rochas ou preso nas redes de arame farpado esticadas 
logo abaixo da superfcie. 
Atirei-me entre as duas presas de pedra e me vi em uma baa em forma de meia-lua. A gua estava 
atulhada de mais rochas, destroos de navios e minas flutuantes. A praia era de areia negra vulcnica. 
Olhei em volta desesperado,  procura de Annabeth. 
Ali estava ela. 
Por sorte ou por azar, era boa nadadora. Conseguira passar pelas minas e pelas rochas. Estava quase na 
praia negra. 
Ento o nevoeiro se espalhou e eu as vi - as sereias. 
Imagine um bando de abutres do tamanho de pessoas - com plumagem preta enlameada, garras 
cinzentas e pescoo rosado e enrugado. Agora imagine cabeas humanas em cima desses pescoos, 
mas as cabeas humanas ficavam mudando. 
Eu no conseguia ouvi-las, mas podia ver que estavam cantando. Enquanto as bocas se moviam, os 
rostos se transformavam nos de pessoas que eu conhecia - minha me, Poseidon, Grover, Tyson, Quron. 
Todas as pessoas que eu mais queria ver. Elas sorriam de modo tranqilizador, convidando-me a 
prosseguir. Mas, no importava que forma tomassem, as bocas eram gordurosa. recobertas de restos de 
antigas refeies. Como abutres, enfiavam a cara na comida, e tudo levava a crer que no tinham se 
banqueteado na Donuts Monstro. 
Annabeth nadava na direo delas. 
Eu sabia que no podia deix-la sair da gua. O mar era minha nica vantagem. Sempre me protegera, de 
um jeito ou de outro. Impeli o corpo para a frente e agarrei o tornozelo dela. 
No momento em que a toquei, um choque atravessou meu corpo, e vi as sereias do modo como Annabeth 
devia estar vendo. 
Trs pessoas sentadas sobre uma toalha de piquenique no Central Park. Havia um banquete espalhado 
na frente delas. Reconheci o pai de Annabeth pelas fotos que ela me mostrara - um cara de aparncia 
atltica, cabelos cor de areia, com seus quarenta anos. Estava de mos dadas com uma linda mulher 
muito parecida com Annabeth. Ela estava vestida de modo informal - cala jeans, blusa de algodo e 
botas de caminhada -, mas algo na mulher irradiava poder. Sabia que estava olhando para a deusa Atena. 
Ao lado dela sentava-se um rapaz... Luke. 
Toda a cena estava iluminada por uma luz clida, amanteigada. Os trs conversavam e riam, e quando 
viram Annabeth seus rostos se iluminaram de satisfao. A me e o pai estenderam as mos de modo 
convidativo. Luke sorriu e fez um gesto para que Annabeth sentasse a seu lado - como se ele nunca a 
tivesse trado, como se ainda fosse seu amigo. 
Atrs das rvores do Central Park erguia-se a silhueta de uma cidade. Perdi o flego, porque era 
Manhattan, mas no era Manhattan. Estava totalmente reconstruda em mrmore branco, deslumbrante, 
maior e mais grandiosa que nunca - com janelas douradas e jardins suspensos. Era melhor que Nova 
York. Melhor que o Monte Olimpo. 
Soube imediatamente que Annabeth a projetara inteira. Ela era a arquiteta de todo um novo mundo. Ela 
reunira os pais. Salvara Luke. Tinha feito tudo o que sempre quis. 

#
 Pisquei com fora. Quando abri os olhos, tudo o que vi ali foram as sereias - abutres horrendos com 
feies humanas, prontos para devorar mais uma vtima. 
Puxei Annabeth de volta para as ondas. No pude ouvi-la, mas percebi que estava gritando. Ela me 
chutou no rosto, mas continuei segurando. 
Ordenei s correntes que nos arrastassem para dentro da baa. Annabeth me esmurrava e me chutava, 
dificultando minha concentrao. Ela se debateu tanto que quase colidimos com uma mina flutuante. Eu 
no sabia o que fazer. Jamais chegaria ao navio, vivo, se ela continuasse lutando. 
Afundamos, e Annabeth parou de se debater. Sua expresso ficou confusa. Ento nossas cabeas 
afloraram e ela comeou a lutar de novo. 
A gua! O som no se propagava bem embaixo d'gua. Se eu conseguisse submergi-la por tempo 
suficiente, poderia quebrar o encantamento da msica.  claro, Annabeth no ia conseguir respirar, mas 
naquele momento isso parecia ser um problema menor. 
Agarrei-a pela cintura e ordenei s ondas que nos empurrassem para baixo. 
Mergulhamos nas profundezas - trs metros, seis metros. Eu sabia que teria de tomar cuidado, porque era 
capaz de suportar muito mais presso do que Annabeth. Ela lutou e se debateu para respirar enquanto 
bolhas subiam  nossa volta. 
Bolhas. 
Eu estava desesperado. Tinha de manter Annabeth viva. Imaginei todas as bolhas do mar - sempre se 
agitando, subindo Imaginei-as se juntando, sendo empurradas at mim. 
O mar obedeceu. Houve um turbilho de branco, uma sensao de ccegas, e quando minha viso 
clareou Annabeth e eu tnhamos uma enorme bolha de ar ao nosso redor. Apenas as pernas continuavam 
mergulhadas em gua. 
Ela engasgou e tossiu. Seu corpo todo estremeceu, mas quando ela me olhou soube que o encantamento 
tinha sido quebrado. 
Annabeth comeou a soluar - quer dizer, soluos horrveis, de partir o corao. Encostou a cabea em 
meu ombro e eu a abracei. 
Os peixes se juntaram para nos olhar - um cardume de barracudas, alguns espadartes curiosos. 
Fora!, disse a eles. 
Eles se afastaram, mas pude perceber que saram relutantes. Juro que entendi as intenes deles. 
Estavam prestes a espalhar boatos pelo mar sobre o filho de Poseidon e uma garota no fundo da baa das 
sereias. 
- Vamos voltar ao navio. Est tudo bem. Apenas agente firme. 
Annabeth balanou a cabea para me dizer que estava melhor, depois murmurou algo que no pude ouvir 
por causa da cera nos ouvidos. 
Fiz a corrente manobrar nosso pequeno e estranho submarino de ar por entre as rochas e o arame 
farpado, e de volta para o casco do Vingana da Rainha Ana, que mantinha o curso lento e estvel, fugindo 
do alcance da voz das sereias. Ento subi para a superfcie e nossa bolha de ar se desfez. 
Ordenei que uma escada de corda descesse por cima do costado do navio, e subimos a bordo. 


#
Mantive meus tampes de ouvido, s por garantia. Navegamos at a ilha ficar completamente fora de 
vista. Annabeth ficou sentada, aconchegando-se em um cobertor no convs dianteiro. Por fim eIa ergueu 
os olhos, confusa e triste, e murmurou, salvos. 
Removi os tampes. Nenhuma cantoria. A tarde estava silenciosa, a no ser pelo som das ondas batendo 
no casco. O nevoeiro desfizera e o cu estava azul, como se a ilha das sereias nunca tivesse existido. 
- Voc est bem? - perguntei. No momento em que disse isso, percebi a besteira que tinha falado.  claro 
que ela no estava bem. 
- Eu no sabia - murmurou ela. 
- O qu? 
Seus olhos estavam da mesma cor que a nvoa sobre a ilha das sereias. 
- Como a tentao seria poderosa. 
No queria admitir que tinha visto o que as sereias haviam prometido a ela. Eu me sentia um intruso. Mas 
imaginei que devesse isso a Annabeth. 
- Eu vi o modo como voc reconstruiu Manhattan - contei. - E Luke e os seus pais. 
Ela corou. 
- Voc viu aquilo? 
- O que Luke lhe disse no Princesa Andrmeda, sobre refazer o mundo do zero... aquilo de fato 
impressionou voc, no ? 
Ela se enrolou no cobertor. 
- Meu defeito mortal. Foi isso que as sereias me mostraram. Meu defeito mortal  o hbris. 
Eu pisquei. 
- Aquela coisa marrom que passam nos sanduches vegetarianos? 
Ela revirou os olhos. 
- No, Cabea de Alga. Aquilo  homus. Hbris  pior. 
- O que poderia ser pior do que homus? 
- Hbris quer dizer orgulho, insolncia, Percy. Achar que voc pode fazer as coisas melhor do que 
qualquer um... inclusive os deuses. 
Voc se sente assim? 
Ela baixou os olhos. 
- Nunca teve a impresso de que... que o mundo realmente est todo errado? E se pudssemos refazer 
tudo do comeo? Guerras nunca mais. Ningum sem teto. Nunca mais dever de casa no vero. 
- Estou ouvindo. 


#
- Quer dizer, o Ocidente representa muitas das melhores coisas que a humanidade j fez...  por isso que 
a chama ainda arde. E por isso que o Olimpo ainda existe. Mas, s vezes, a gente s v o que no presta, 
entende? E comea a pensar do mesmo jeito que Luke: "Se conseguir destruir tudo isso, posso fazer 
melhor." Nunca se sentiu assim? Como se voc pudesse fazer um servio melhor se fosse o dono do 
mundo? 
- Humm... no. Eu governando o mundo seria uma espcie de pesadelo. 
- Ento voc tem sorte. O hbris no  seu defeito mortal. 
- E o que ? 
- No sei, Percy, mas todo heri tem um. Se voc no descobrir e aprender a control-lo... bem, no   
toa que o chamam de "mortal". 
Pensei naquilo. E no fiquei l muito animado. 
Tambm notei que Annabeth no falou muito sobre as coisas particulares que ela mudaria - como 
conseguir reunir os pais, ou salvar Luke. Eu entendi. No queria admitir quantas vezes sonhara em reunir 
meus pais. 
Imaginei minha me, sozinha em nosso pequeno apartamento no Upper East Side. Tentei me lembrar do 
cheiro dos seus waffles azuis na cozinha. Parecia to distante! 
- E ento, valeu a pena? - perguntei a Annabeth.  Voc se sente... mais sbia? 
O olhar dela se perdeu na distncia. 
- No tenho certeza. Mas precisamos salvar o acampamento. Se no pararmos Luke... 
Ela no precisou terminar. Se o modo de pensar de Luke podia tentar at Annabeth, no dava para 
imaginar quantos outros meios-sangues poderiam juntar-se a ele. 
Pensei no sonho com a menina e o sarcfago dourado. No sabia muito bem o que significava, mas tive a 
sensao de que estava deixando alguma coisa passar. Alguma coisa terrvel que Cronos planejava. O 
que a menina tinha visto quando abriu a tampa do caixo? 
De repente os olhos de Annabeth se arregalaram. 
- Percy. 
Eu me virei. 
A frente havia uma outra mancha de terra - uma ilha em forma de sela com colinas cobertas de florestas, 
praias de areia branca e campinas verdes -, exatamente como eu tinha visto em meus sonhos. 
Meus sentidos nuticos confirmaram. Trinta graus e 31 minutos Norte, 75 graus e 12 minutos Oeste. 
Tnhamos chegado ao lar do ciclope. 


#
QUATORZE - Nosso encontro com o carneiro da perdio 
Quando a gente pensa em "ilha de monstros" imagina penhascos e ossos espalhados pela praia, como na 
ilha das sereias. 
A ilha do ciclope no tinha nada a ver com isso. Quer dizer, tudo bem, havia uma ponte de corda em cima 
de um precipcio, o que no era bom sinal.  quase o mesmo que pendurar um cartaz dizendo: ALGO 
MALIGNO VIVE AQUI. Mas, com exceo disso, o lugar parecia um carto-postal do Caribe. Tinha 
campos verdejantes, rvores de frutas tropicais e praias de areia branca. Enquanto navegvamos em 
direo  costa, Annabeth respirou fundo o ar perfumado. 
- O Velocino - disse ela. 
Eu assenti. Ainda no podia ver o Velocino, mas podia sentir sua fora. Era possvel acreditar que ele 
curaria qualquer coisa, at mesmo a rvore envenenada de Thalia. 
- Se ns o levarmos embora, a ilha vai morrer? 
Annabeth sacudiu a cabea. 
- Ela vai se esgotar. Voltar ao que seria normalmente, o que quer que fosse. 
Eu me senti um pouco culpado por arruinar aquele paraso, mas lembrei a mim mesmo que no tnhamos 
escolha. O Acampamento Meio-Sangue estava em dificuldades. E Tyson... Tyson ainda estaria conosco 
se no fosse por aquela misso. 
Na campina na base da ravina vrias dzias de carneiros andavam em crculos. Pareciam bastante 
pacficos, mas eram enormes  do tamanho de hipoptamos. Logo alm deles havia um caminho que 
levava s colinas. No topo do caminho, perto da beira do cnion, estava o grandioso carvalho que eu vira 
em meus sonhos. Algo dourado brilhava em seus galhos. 
- Isso est fcil demais  disse eu.  Podemos simplesmente subir at l e peg-lo? 
Os olhos de Annabeth se estreitaram. 
- Deveria haver um guardio. Um drago ou... 
Foi quando um cervo emergiu dos arbustos. Ele trotou para a campina, provavelmente em busca de grama 
para comer, quando os carneiros baliram todos de uma vez e assustaram o animal. Aconteceu to 
depressa que o cervo tropeou e se perdeu em um mar de l e cascos batendo. Grama e tufos de pelo 
voavam pelo ar. 
Um segundo depois todos os carneiros se afastaram, de volta s suas pacificas perambulaes. Onde 
estivera o cervo, havia agora uma pilha de ossos limpos e brancos. 
Annabeth e eu nos entreolhamos. 
- Eles so como piranhas  disse ela. 
- Piranhas com l. Como  que ns... 
- Percy!  arfou Annabeth, agarrando meu brao.  Olhe. 
Ela apontou para a praia, logo abaixo da campina dos carneiros, onde um pequeno bote fora arrastado 
para a terra... o outro bote salva-vidas do Birmingham. 


#
***** 
Conclumos que no havia como passar pelos carneiros comedores de gente. Annabeth queria se 
esgueirar invisvel pelo caminho acima e agarrar o Velocino, mas no fim eu a convenci de que alguma 
coisa iria dar errado. Os carneiros poderiam sentir seu cheiro. Outro guardio poderia aparecer. Alguma 
coisa. E se aquilo acontecesse eu estaria longe demais para ajudar. 
Alm disso, nossa primeira obrigao era achar Grover e quem quer que tivesse chegado  costa naquele 
bote  supondo que tivesse conseguido passar pelos carneiros. Eu estava nervoso demais para falar 
sobre minha esperana secreta... de que Tyson ainda pudesse estar vivo. 
Ancoramos o Vingana da Rainha Ana no lado de trs da ilha, onde as falsias subiam em linha reta uns 
bons sessenta metros. Imaginei que seria menos provvel que vissem o navio ali. 
Escalar as falsias at parecia possvel  com um grau de dificuldade mais ou menos igual ao da parede 
de lava no acampamento. Pelo menos no havia carneiros. Eu esperava que Polifemo no criasse 
tambm cabras montanhesas carnvoras. 
Remamos num bote salva-vidas at a base das rochas e comeamos a subir, muito devagar. Annabeth foi 
primeiro porque escalava melhor. 
Ficamos perto de morrer uma seis ou sete vezes s, o que considerei muito bom. Em certo momento 
deixei escapar uma das mos e me vi pendurado por um brao numa salincia quinze metros acima da 
arrebentao rochosa. Mas achei outro ponto de apoio e continuei escalando. Um minuto depois Annabeth 
pisou em musgos escorregadios e seu p deslizou. Felizmente, ela encontrou alguma outra coisa em que 
apoi-lo. Por azar, tratava-se da minha cara. 
- Desculpe  murmurou ela. 
- Tudo bem  resmunguei, embora na verdade no quisesse saber qual era o sabor do tnis de Annabeth. 
Finalmente, quando meus dedos j pareciam chumbo derretido e os msculos do meu brao tremiam de 
exausto, nos arrastamos sobre o topo da falsia e desmoronamos. 
- Ugh - disse eu. 
- Ai - gemeu Annabeth. 
- Grrrr! - Urrou outra voz. 
Se eu no estivesse to cansado teria pulado mais uns sessenta metros. Girei o corpo, mas no pude ver 
quem rosnara. 
Annabeth tampou minha boca com a mo. Ela apontou. 
A salincia sobre a qual estvamos sentados era mais estreita do que eu pensava. O lado oposto era um 
desfiladeiro, e era de l que vinha a voz - logo abaixo de ns. 
- Voc  bem agressiva! - rugiu a voz profunda. 
- Enfrente-me! - Era a voz de Clarisse, sem dvida. - Devolva minha espada e lutarei com voc! 
O monstro riu estrondosamente. 


Annabeth e eu nos arrastamos at a beirada. Estvamos logo acima da entrada da caverna do ciclope. 
Abaixo, estavam Polifemo e Grover, ainda de vestido de noiva. Clarisse estava amarrada, pendurada de 
cabea para baixo acima de um caldeiro de gua fervente. De certa forma, torcia para que Tyson 

#
tambm estivesse l embaixo. Mesmo que ele estivesse em perigo, ao menos eu saberia que estava vivo. 
Mas no havia sinal dele. 
- Hummm - ponderou Polifemo. - Comer a menina fanfarrona ou esperar o banquete de casamento? O que 
acha minha noiva? 
Ele se voltou para Grover, que recuou e quase tropeou cauda de seu vestido, terminada. 
- Ah!, ahn, eu no estou com fome agora, querido. Talvez... 
- Voc disse noiva - perguntou Clarisse. - Quem... Grover? 
Ao meu lado Annabeth murmurou: 
- Cale a boca. Ela tem de calar a boca. 
Polifemo olhou enfurecido. 
- Que "Grover"? 
- O stiro! - berrou Clarisse. 
- Ah! - ganiu Grover. - Os miolos da pobrezinha esto fervendo por causa daquela gua quente. Puxe-a 
para baixo, querido! 
Os clios de Polifemo se estreitaram sobre o maligno olho leitoso, como se ele tentasse enxergar Clarisse 
mais claramente. 
O ciclope era uma viso ainda mais horrvel do que nos meus sonhos. Em parte, porque seu cheiro 
ranoso agora estava muito prximo. Em parte, porque ele vestia sua roupa de casamento - um saiote 
tosco e uma manta nos ombros, feitos de smokings azul-beb costurados um no outro, como se ele 
tivesse despido uma festa de casamento inteira. 
- Que stiro? - perguntou Polifemo. - Stiros so boa comida. Voc me trouxe um stiro? 
- No, seu grande idiota! - berrou Clarisse. - Aquele stiro! Grover! Aquele de vestido de noiva! 
Eu quis torcer o pescoo de Clarisse, mas era tarde demais. Tudo o que pude fazer foi olhar enquanto 
Polifemo se virava e arrancava o vu de noiva de Grover - revelando seu cabelo encaracolado, a barba 
desmazelada de adolescente, os pequenos chifres. 
Polifemo respirou pesadamente, tentando conter a raiva. 
- Eu no enxergo muito bem - rosnou. - Desde muitos anos atrs, quando o outro heri me furou o olho. 
Mas VOC...NO ... UMA DAMA... CICLOPE! 
O ciclope agarrou o vestido de Grover e o arrancou. Embaixo, o velho Grover reapareceu, com seu jeans 
e sua camiseta. Ele gemeu e se abaixou quando o monstro desferiu um golpe que passou acima de sua 
cabea. 
- Pare! - implorou Grover. - No me coma cru! Eu... eu tenho uma boa receita! 
Estendi a mo para minha espada, mas Annabeth sussurrou: 
- Espere! 
Polifemo estava hesitando, uma grande pedra na mo, prestes a esmagar sua pretensa noiva. 

#
 - Receita? - perguntou a Grover. 
- Ah, s-sim! Voc no pode me comer cru. Vai pegar uma infeco, e botulismo, e toda sorte de coisas 
horrveis. Vou ficar muito mais gostoso grelhado em fogo lento. Com chutney de manga! Voc pode pegar 
algumas mangas agora mesmo, l embaixo no bosque. Ficarei esperando aqui. 
O monstro pensou naquilo. Meu corao martelava contra as costelas. Calculei que morreria se atacasse. 
Mas no poderia deixar que o monstro matasse Grover. 
- Stiro grelhado com chutney de manga - pensou Polifemo. Ele olhou de novo para Clarisse, ainda 
pendurada acima do caldeiro de gua fervente. 
- Voc tambm  um stiro? 
- No, seu grande monte de estreo! - berrou ela. - Eu sou uma menina! Filha de Ares! Agora me 
desamarre para que eu possa arrancar seus braos! 
- Arrancar os meus braos - repetiu Polifemo. 
- E enfi-los garganta abaixo! 
- Voc tem coragem. 
- Ponha-me no cho! Polifemo ergueu Grover como se ele fosse um cachorrinho desobediente. 
- Agora tenho de pastorear carneiros. Casamento adiado para de noite. Ento comeremos stiro como 
prato principal! 
- Mas... voc ainda vai se casar? - Grover pareceu ofendido. - Quem  a noiva? 
Polifemo olhou na direo do caldeiro fervente. 
Clarisse soltou um som estrangulado. 
- Ah, no! Voc no pode estar falando srio. Eu no sou... 
Antes que Annabeth ou eu pudssemos fazer alguma coisa, Polifemo a arrancou da corda como se ela 
fosse uma ma madura e a jogou junto com Grover no fundo da caverna. 
- Fiquem  vontade! Voltarei ao pr-do-sol para o grande evento! 
Ento o ciclope assobiou e um rebanho misto de bodes e carneiros - menores que os comedores de gente 
- saiu da caverna, passando por seu amo. Enquanto eles seguiam para o pasto, Polifemo dava 
palmadinhas nas costas de alguns e os chamava pelo nome - Beltbuster, Tammany, Lockhart etc. 
Quando o ltimo carneiro se afastou bamboleando, Polifemo rolou uma rocha na frente da entrada to 
facilmente como se fechasse uma porta de geladeira, isolando o som dos gritos de Clarisse e Grover l 
dentro. 
- Mangas - resmungou Polifemo consigo mesmo. - O que so mangas? 
Ele foi caminhando tranqilamente montanha abaixo em sua roupa de noivo azul-beb, deixando-nos 
sozinhos com um caldeiro de gua fervente e uma rocha de seis toneladas. 
***** 


#
Tentamos pelo que nos pareceram horas, mas no adiantou. A rocha no se movia. Gritamos para dentro 
de fendas, batemos na pedra, fizemos tudo em que podamos pensar para transmitir um sinal a Grover, 
mas, se ele nos ouviu, no podamos saber. 
Mesmo se por algum milagre consegussemos matar Polifemo, no adiantaria. Grover e Clarisse 
morreriam dentro da caverna fechada. A nica maneira de mover a rocha seria conseguir que o ciclope o 
fizesse. 
Em total frustrao, golpeei Contracorrente contra a rocha. Voaram fagulhas, mas no aconteceu nada 
alm disso. Uma grande rocha no  o tipo de inimigo que se possa combater com uma espada mgica. 
Annabeth e eu nos sentamos no cume, desesperados, e observamos a forma distante em azul-beb do 
ciclope enquanto ele se movia entre seus rebanhos. Sabiamente, ele separara os animais comuns dos 
carneiros comedores de gente, colocando cada grupo de um lado da enorme fenda que dividia a ilha. O 
nico meio de atravessar era a ponte de corda, e as tbuas eram separadas demais para cascos de 
carneiros. 
Observamos enquanto Polifemo visitava seu rebanho carnvoro, no lado mais distante. Infelizmente, eles 
no o comeram. Na verdade, nem ao menos pareciam incomod-lo. Ele lhes deu pedaos de carne 
misteriosa de uma grande cesta de vime, o que apenas reforou a sensao que eu tinha desde que Circe 
me transformara em porquinho-da-ndia: talvez fosse hora de me juntar a Grover e me tornar vegetariano. 
- Um truque - concluiu Annabeth. - No podemos venc-lo pela fora, portanto teremos de usar um truque. 
- Certo. Que truque? 
- Ainda no resolvi essa parte. 
- Beleza. 
- Polifemo ter de mover a rocha para deixar os carneiros entrar. 
- Ao pr-do-sol - falei. - Que  quando ele vai se casar com Clarisse e jantar Grover. Ainda no decidi o 
que  mais nojento. 
- Posso ficar invisvel e entrar. 
- E eu? 
- Os carneiros - ponderou Annabeth. Ela me deu um daqueles olhares travessos que sempre me 
deixavam desconfiado. - Voc gosta muito de carneiros? 
***** 
- S no se solte! - disse Annabeth, invisvel em algum lugar  minha direita. Para ela, era fcil falar. Ela 
no estava pendurada de cabea para baixo na barriga de um carneiro. 
Agora, admito que no fora to difcil quanto eu pensara. J tinha me arrastado para baixo de um carro 
antes, para trocar o leo para minha me, e isso no era to diferente. O carneiro no se importou. At 
mesmo o menor dos carneiros do ciclope era bastante grande para suportar meu peso, e eles tinham uma 
l espessa. Eu simplesmente a torci, formando alas para as minhas mos, enganchei os ps nos ossos 
das coxas do carneiro e pronto: eu me sentia como um pequeno canguru, zanzando acomodado contra o 
peito do carneiro, tentando manter a l longe da boca e do nariz. 
Caso voc esteja intrigado, a parte de baixo de um carneiro no tem um cheiro assim to bom. Imagine 
um suter de inverno que foi arrastado pela lama e deixado no cesto de roupa suja por uma semana.  
algo assim. 

#
 O sol estava se pondo. 
Nem bem fiquei em posio, o ciclope rugiu: 
- Oi! Bodinhos! Carneirinhos! 
O rebanho, obediente, comeou a caminhar laboriosamente ladeiras acima, em direo  caverna. 
-  isso a! - sussurrou Annabeth. - Vou estar por perto. No se preocupe. 
Fiz uma promessa silenciosa aos deuses de que, se sobrevivssemos quilo, diria a Annabeth que ela  
um gnio. O assustador era que eu sabia que os deuses iriam me cobrar. 
Meu txi-carneiro comeou a subir a colina. Depois de uma centena de metros, minhas mos e meus ps 
comearam a doer. Agarrei a l com mais fora, e o animal fez um rudo inarticulado. No o culpei. Eu 
mesmo no gostaria de algum escalando por meus cabelos. Mas, se eu no me agarrasse, certamente 
cairia ali mesmo, bem na frente do monstro. 
- Hasenpfeffer! - disse o ciclope, afagando um dos carneiros na minha frente. - Einstein! Widget... Ei, 
Widget! 
Polifemo deu uns tapinhas no meu carneiro e quase me derrubou no cho. 
- Ganhando um pouco de l extra, hein? 
Epa, pensei,  agora. 
Mas Polifemo apenas riu e deu uma palmada no traseiro do carneiro, empurrando-nos para a frente. 
- V andando, gorducho! Logo Polifemo ir com-lo no caf-da-manh! 
E, simples assim, eu estava dentro da caverna. 
Pude ver o ltimo dos carneiros entrando. Se Annabeth no comeasse logo a distra-lo... 
O ciclope estava para rolar a rocha de volta a seu lugar quando de algum canto do lado de fora, Annabeth 
gritou: 
- Ol, feioso! Polifemo ficou rgido. 
- Quem disse isso? 
- Ningum! - gritou Annabeth. 
Aquilo provocou exatamente a reao que ela esperava. A cara do monstro ficou vermelha de raiva. 
- Ningum! - Polifemo berrou de volta. - Eu me lembro de voc! 
- Voc  estpido demais para se lembrar de algum - provocou Annabeth. - Muito menos de Ningum. 
Pedi aos deuses que ela j estivesse em movimento quando disse aquilo, porque Polifemo urrou 
furiosamente, agarrou a rocha mais prxima (que por acaso era sua porta da frente) e a atirou na direo 
do som da voz de Annabeth. Ouvi a pedra se despedaar em mil fragmentos. 
Por um momento terrvel fez-se silncio. Ento Annabeth gritou: 


#
- Voc tambm no aprendeu a atirar pedras melhor! 
Polifemo uivou. 
- Venha para c! Deixe-me matar voc, Ningum! 
- Voc no pode matar Ningum, seu imbecil estpido - provocou ela. - Venha me achar! 
Polifemo disparou colina abaixo na direo da voz dela. 
Essa coisa de "Ningum" poderia no ter feito sentido para outras pessoas, mas Annabeth me explicara 
que era esse o nome que Ulisses usara para enganar Polifemo sculos atrs, antes que ele acertasse o 
olho do ciclope com uma grande estaca quente. Annabeth calculou que Polifemo ainda guardaria rancor 
daquele nome, e estava certa. No frenesi para encontrar o velho inimigo, ele se esqueceu de fechar 
novamente a entrada da caverna. Parecia nem ter parado para pensar que a voz de Annabeth era 
feminina, enquanto o primeiro Ningum era homem. Por outro lado, ele queria casar com Grover, portanto 
no era assim to brilhante nessa questo de masculino/feminino. 
Eu s esperava que Annabeth pudesse permanecer viva e continuar distraindo o monstro por tempo 
suficiente para que eu encontrasse Grover e Clarisse. 
Desci da minha carona, dei uma palmadinha na cabea de Widget e pedi desculpas. Procurei na sala 
principal, mas no havia sinal de Grover e Clarisse. Forcei passagem por entre a multido de carneiros e 
bodes, em direo ao fundo da caverna. 
Muito embora tivesse sonhado com aquele lugar, foi difcil encontrar meu caminho pelo labirinto. Desci 
corredores atulhados de ossos, passei por salas cheias de tapetes de pele de carneiro e carneiros de 
cimento em tamanho real, que reconheci como obra da Medusa. Havia colees de camisetas de carneiro; 
grandes tonis de creme de lanolina; casacos, meias de l e chapus de l com chifres de carneiro. 
Finalmente, encontrei a sala do tear, onde Grover estava agachado num canto, tentando cortar as amarras 
de Clarisse com uma tesoura. 
- No adianta - disse Clarisse. - Essa corda parece ferro! 
- S mais alguns minutos! 
- Grover - gritou ela, exasperada. - Voc est trabalhando nisso h horas! 
E ento ela me viu. 
- Percy? - disse Clarisse. - Voc devia ter sido explodido! 
- Bom ver voc tambm. Agora fique quieta enquanto eu... 
- Perrrrrrrcy! - baliu Grover, e se atracou em mim com um abrao de bode. - Voc me ouviu! Voc veio! 
- Sim, parceiro - falei. -  claro que eu vim. 
- Onde est Annabeth? 
- L fora - respondi. - Mas no temos tempo para conversa. Clarisse, fique parada. 
Destampei Contracorrente e cortei as cordas. Ela se ps em p, rgida, esfregando os pulsos. Olhou-me 
com raiva por um momento, depois fitou o cho e murmurou: 
- Obrigada. 


#
- De nada - falei. - Ento, havia mais algum a bordo do seu bote salva-vidas? 
Clarisse pareceu surpresa. 
- No. S eu. Todos os outros a bordo do Birmingham... bem, eu nem sabia que vocs tinham escapado. 
Uma exploso ecoou pela caverna, seguida por um grito que me fez perceber que poderia ser tarde 
demais. Era Annabeth gritando de medo. 


#
QUINZE - Ningum consegue o velocino 
- Eu peguei Ningum! - exultou Polifemo. 
Arrastamo-nos para a entrada da caverna e vimos o ciclope com um sorriso perverso segurando ar vazio 
no alto. O monstro sacudiu o punho e um bon de beisebol esvoaou para o cho. L estava Annabeth, 
pendurada pelas pernas, de cabea para baixo. 
- Ah! - disse o ciclope. - Menina invisvel detestvel! J tenho a mal-humorada para esposa. Isso quer dizer 
que voc vai ser grelhada com chutney de manga! 
Annabeth se debateu, mas parecia atordoada. Tinha um corte feio na testa. Seus olhos estavam vidrados. 
- Vou peg-lo - sussurrei para Clarisse. - Nosso navio est na parte de trs da ilha. Voc e Grover... 
- Claro que no - disseram eles ao mesmo tempo. 
Clarisse havia se armado com uma lana de chifre de carneiro, verdadeira pea de colecionador da 
caverna do ciclope. Grover encontrara um fmur de carneiro, o que no o deixou muito satisfeito, mas o 
segurava como um porrete, pronto para atacar. 
- Vamos peg-lo juntos - rosnou Clarisse. 
- Sim - disse Grover. - Ele ento piscou, como se no pudesse acreditar que acabara de concordar com 
Clarisse. 
- Tudo bem - disse eu. - Plano de ataque Macednia. 
Eles assentiram. Tnhamos passado pelos mesmos cursos de treinamento no Acampamento Meio-
Sangue. Eles sabiam do que eu estava falando. Iriam dar a volta e se aproximar, um de cada lado, 
atacando o ciclope pelos flancos enquanto eu atraa sua ateno na frente. Provavelmente, isso 
significava que iramos todos morrer, e no apenas eu, mas fiquei grato pela ajuda. Ergui minha espada e 
gritei: 
- Ei, feioso! 
O gigante se virou para mim. 
- Mais um? Quem  voc? 
- Ponha minha amiga no cho. Fui eu quem o insultou. 
- Voc  Ningum? 
- Certo, seu balde fedorento de meleca de nariz! - Aquilo no pareceu to bom quanto os insultos de 
Annabeth, mas foi tudo em que pude pensar. - Eu sou Ningum e me orgulho disso! Agora, coloque-a no 
cho e venha at aqui. Quero furar seu olho de novo. 
- RAAAAR! - urrou ele. 
A boa notcia: ele deixou cair Annabeth. A m notcia: ele a deixou cair de cabea nas pedras, onde ela 
ficou imvel como uma boneca de trapos. 
A outra m notcia: Polifemo investiu contra mim, meia tonelada de ciclope que eu teria de enfrentar com 
uma espada muito pequena. 


#
- Por Pan! - Grover atacou pela direita. Arremessou o osso de carneiro, que ricocheteou sem efeito na 
testa do monstro. Clarisse atacou pela esquerda e apoiou sua lana no cho bem a tempo de o ciclope 
pisar em cima dela. Ele uivou de dor, e Clarisse se atirou para fora do caminho, para evitar ser pisoteada. 
Mas o ciclope simplesmente puxou a lana como se fosse uma grande farpa e continuou em minha 
direo. 
Eu avancei com Contracorrente. 
O monstro tentou me agarrar. Rolei de lado e lhe dei uma estocada na coxa. 
Eu esperava v-lo se desintegrar, mas o monstro era grande e forte demais. 
- Pegue Annabeth! - gritei para Grover. 
Ele correu at l, agarrou o bon de invisibilidade e a levantou do cho enquanto Clarisse e eu 
tentvamos manter Polifemo distrado. 
Tenho de admitir, Clarisse foi valente. Ela investiu contra o ciclope vezes seguidas. Ele esmurrou o cho, 
tentou pis-la, agarr-la, mas ela era rpida demais. E, assim que ela atacava, eu a seguia, furando o 
monstro no dedo do p, no tornozelo ou na mo. 
Mas no poderamos continuar com aquilo para sempre. Acabaramos nos cansando, ou o monstro 
poderia ter seu lance de sorte. Bastaria uma pancada para nos matar. 
Com o canto do olho vi Grover carregando Annabeth pela ponte de corda. Essa no teria sido minha 
primeira escolha, considerando os carneiros comedores de gente do outro lado, mas, naquele momento, 
parecia melhor do que o lado do precipcio onde estvamos, e isso me deu uma idia. 
- Recue! - disse para Clarisse. 
Ela rolou enquanto o punho do ciclope esmagava a oliveira ao lado dela. 
Corremos para a ponte, Polifemo logo atrs de ns. Ele estava todo cortado e mancava por causa dos 
muitos ferimentos, mas tudo o que tnhamos feito foi deix-lo mais lento e enfurecido. 
- Vou mo-los para fazer comida de carneiro! - prometeu. - Mil maldies sobre Ningum! 
- Mais depressa! - disse eu para Clarisse. 
Disparamos colina abaixo. A ponte era nossa nica chance. Grover acabara de atravessar para o outro 
lado e estava deitando Annabeth no cho. Tnhamos de passar antes que o gigante nos pegasse. 
- Grover! - gritei. - Pegue a faca de Annabeth! 
Seus olhos se arregalaram quando ele viu o ciclope atrs de ns, mas balanou a cabea como se tivesse 
entendido. Quando Clarisse e eu nos precipitamos pela ponte, Grover comeou a cortar as cordas. 
O primeiro fio de corda arrebentou com um estalo. 
Polifemo pulou atrs de ns, fazendo a ponte oscilar loucamente. 
A corda agora j estava metade cortada. Clarisse e eu mergulhamos para a terra firme, aterrissando ao 
lado de Grover. Num golpe, cortei os fios restantes com minha espada. 
A ponte despencou no precipcio, e o ciclope uivou... de prazer, pois estava em p bem ao nosso lado. 
- Fracasso! - berrou, felicssimo. - Ningum fracassou! 

#
 Clarisse e Grover tentaram atac-lo, mas o monstro os afastou com um tapa, como se fossem moscas. 
Minha raiva aumentou. Eu no podia acreditar que tinha chegado at ali, depois de perder Tyson, de 
sofrer e passar por tanta coisa, apenas para fracassar - detido por um monstro grande e estpido de 
saiote azul-beb feito de smokings. Ningum iria derrubar meus amigos como moscas daquele jeito! Quer 
dizer... ningum, no Ningum. Ah, voc sabe o que eu quero dizer! 


A fora percorreu meu corpo. Ergui a espada e ataquei, esquecendo que estava em irremedivel 
desvantagem. Golpeei o ciclope na barriga. Quando ele se dobrou de dor, eu o atingi no nariz com o 
punho da espada. Cortei, chutei e bati at que, quando me dei conta, Polifemo estava estatelado de costas 
no cho, atordoado e gemendo, e eu estava em p em cima dele, com a ponta da espada pairando sobre 
o seu olho. 
- Uhhhhhhhhhhhh - gemeu Polifemo. 
- Percy! - arfou Grover. - Como voc... 
- Por favor, no! - gemeu o ciclope, olhando com tristeza para mim. Seu nariz sangrava. Uma lgrima 
se formou no canto do olho meio cego. - M-m-meus carneirinhos precisam de mim. Estava s tentando 
proteger meus carneiros! 
Ele comeou a soluar. 
Eu vencera. Tudo o que tinha de fazer era fincar a espada - um golpe rpido. 
- Mate-o! - berrou Clarisse. - O que est esperando? 
O ciclope parecia to desolado, to parecido com... com Tyson. 
- Ele  um ciclope! - avisou Grover. - No confie nele! 
Eu sabia que ele estava certo. Sabia que Annabeth teria dito a mesma coisa. 
Mas Polifemo soluava... e pela primeira vez entrou na minha cabea o fato de que ele tambm era filho de 
Poseidon. Como Tyson. Como eu. Como eu poderia simplesmente mat-lo a sangue frio? 
- Ns s queremos o Velocino - disse ao monstro.  Voc concorda em nos deixar lev-lo? 
- No! - gritou Clarisse. - Mate-o! 
O monstro fungou. 
- Meu lindo Velocino. Orgulho da minha coleo. Leve-o, ser humano cruel. Leve-o, e parta em paz. 
- Vou recuar bem devagar - disse eu ao monstro. - Um movimento em falso... 
Polifemo balanou a cabea como se entendesse. 
Dei um passo atrs... e, rpido como uma cobra, Polifemo me deu uma pancada que me jogou na beira do 
penhasco. 
- Mortal insensato! - urrou ele, pondo-se em p. - Levar o meu Velocino? R! Vou com-lo primeiro. 
Ele abriu a boca enorme, e percebi que seus molares podres seriam a ltima coisa que eu veria na vida. 
Ento algo passou zunindo por cima da minha cabea e Bam! 

#
 Uma pedra do tamanho de uma bola de basquete foi parar na garganta de Polifemo - um arremesso 
perfeito, uma linda cesta de trs pontos! O ciclope engasgou, tentando engolir a plula inesperada. 
Cambaleou para trs, mas no havia espao para cambalear. Seu calcanhar escorregou, a beirada do 
penhasco desmoronou e o grande Polifemo agitou os braos como uma galinha batendo as asas, o que 
no o ajudou em nada a voar enquanto despencava no abismo. 
Eu me virei. 
A meio caminho da trilha para a praia, completamente ileso no meio de um rebanho de carneiros 
assassinos, estava um velho amigo. 
- Polifemo mau - disse Tyson. - Nem todos os ciclopes so to bonzinhos como parecem. 
***** 
Tyson nos deu uma verso resumida: Arco-ris, o cavalo-marinho - que aparentemente vinha nos seguindo 
desde o estreito de Long Island, esperando para brincar com Tyson -, encontrara-o afundando sob os 
destroos do Birmingham e o puxara para um lugar seguro. Ele e Tyson estiveram vasculhando o Mar de 
Monstros desde ento, tentando nos achar, at que Tyson sentiu o cheiro de carneiros e encontrou esta 
ilha. 


Tive vontade de abraar o grandalho bobo, s que ele estava no meio dos carneiros assassinos. 
- Tyson, graas aos deuses. Annabeth est ferida! 
- Voc agradece aos deuses porque ela est ferida? - perguntou ele, confuso. 
- No! - Ajoelhei-me ao lado de Annabeth e fiquei nauseado de preocupao com o que vi. O talho na 
testa dela era pior do que eu imaginara. A linha dos seus cabelos estava empapada de sangue. Sua pele 
estava plida, fria e mida. 
Grover e eu trocamos olhares nervosos. Ento uma idia me ocorreu. 
- Tyson, o Velocino. Pode ir busc-lo para mim? 
- Qual deles? - disse Tyson, olhando em volta para as centenas de carneiros. 
- Na rvore! - disse eu. - O de ouro! 
- Ah! Bonito. Sim. 
Tyson caminhou pesadamente at l, tomando cuidado para no pisar os carneiros. Se algum de ns 
tivesse tentado se aproximar do Velocino, teria sido comido vivo, mas acho que Tyson tinha o mesmo 
cheiro que Polifemo, porque o rebanho no o incomodou. Apenas se aconchegaram nele e baliram 
afetuosamente, como se esperassem ganhar guloseimas de carneiro da grande cesta de vime. Tyson 
estendeu o brao e ergueu o Velocino do seu galho. No mesmo instante as folhas do carvalho ficaram 
amarelas. Tyson comeou a voltar lentamente na minha direo, mas eu gritei: 
- No d tempo! Jogue para c! 
A pele dourada de carneiro saiu voando pelo ar como um Frisbee de pelcia brilhante. Agarrei-a com um 
gemido. Era mais pesada do que eu esperava - vinte e cinco ou trinta quilos de preciosa l de ouro. 
Estendi o Velocino sobre Annabeth, cobrindo tudo, menos o rosto, e rezei silenciosamente para todos os 
deuses em que pude pensar, at os de que no gostava. 


#
Por favor. Por favor. 
As cores voltaram ao rosto dela. Seus clios tremeram e se abriram. O corte na testa comeou a se fechar. 
Ela viu Grover e disse, fraca: 
- Voc no... se casou? 
Grover arreganhou um sorriso. 
- No. Meus amigos me convenceram a no fazer isso. 
- Annabeth - falei -, fique quieta. 
Mas, a despeito de nossos protestos, ela sentou, e notei que o corte em seu rosto estava quase 
completamente cicatrizado. Ela estava com uma aparncia muito melhor. Na verdade, reluzia de sade, 
como se algum lhe tivesse dado uma injeo de brilho. 
Nesse meio-tempo, Tyson estava comeando a ter problemas com os carneiros. 
- Para baixo! - ele lhes disse quando tentaram escal-lo, procurando comida. Alguns estavam farejando o 
ar em nossa direo. - No, carneirinhos. Por aqui! Venham para c! 
Eles obedeceram, mas era bvio que estavam com fome, e comeavam a perceber que Tyson no tinha 
nenhuma guloseima para eles. No iriam agentar muito tempo com tanta carne fresca por perto. 
- Temos de ir - disse eu. - Nosso navio est... 
O Vingana da Rainha Ana estava muito, muito longe. O caminho mais curto seria pelo precipcio, e 
tnhamos acabado de destruir a nica ponte. A outra possibilidade era por entre os carneiros. 
- Tyson - chamei -, voc pode levar o rebanho para o mais longe possvel? 


- Os carneiros querem comida. 
- Eu sei! Eles querem comida humana! Tente afast-los do caminho. D-nos tempo para chegar at a 
praia. Depois nos encontre l. 
Tyson pareceu indeciso, mas assobiou. 
- Venham carneirinhos! Ahn, comida humana por aqui! 
Ele correu para a campina, os carneiros no seu encalo. 
- Mantenha-se enrolada no Velocino - disse a Annabeth. 
- S para o caso de voc ainda no estar completamente curada. D para ficar de p? 
Ela tentou, mas seu rosto ficou plido de novo. 
- Ohh. No completamente curada. 
Clarisse abaixou-se ao lado dela e apalpou seu trax, o que fez Annabeth gemer. 
- Costelas quebradas - disse Clarisse. - Esto se recompondo, mas com certeza esto quebradas. 
- Como voc sabe? - perguntei. Clarisse me fulminou com o olhar. 


#
- Porque eu j quebrei algumas, nanico! Vou ter de carreg-la. Antes que eu pudesse discutir, Clarisse 
ergueu Annabeth como um saco de farinha e a carregou at a praia. Grover e eu fomos atrs. 
Assim que chegamos  beira d'gua, me concentrei no Vingana da Rainha Ana. Ordenei-lhe que 
levantasse a ncora e se deslocasse at mim. Depois de alguns minutos ansiosos avistei o navio do-
brando a extremidade da ilha. 
- Chegando! - gritou Tyson. Ele estava aos pulos trilha abaixo para juntar-se a ns, os carneiros cerca de 
cinqenta metros atrs, balindo de frustrao porque o amigo ciclope sara correndo sem aliment-los. 
- Eles provavelmente no nos seguiro dentro d'gua - disse eu aos outros. - Tudo o que temos de fazer  
nadar at o navio. 
- Com Annabeth nesse estado? - protestou Clarisse. 
- Podemos fazer isso - insisti. Eu estava comeando a me sentir confiante de novo. Estava de volta ao 
meu ambiente, o mar. - Depois que chegarmos ao navio, estaremos em segurana. 
De novo, ns quase conseguimos. 
Tnhamos acabado de atravessar a entrada da ravina quando ouvimos um tremendo rugido e vimos 
Polifemo, arranhado e esfolado, porm ainda muito vivo, o traje de casamento azul-beb em farrapos, 
andando na nossa direo com uma pedra em cada mo. 


#
DEZESSEIS - Eu afundo com o navio 
- E a gente imaginou que o estoque de pedras dele tivesse acabado - resmunguei. 
- Saiam nadando! - disse Grover. 
Ele e Clarisse mergulharam nas ondas. Annabeth se agarrou ao pescoo de Clarisse e tentou remar com 
uma das mos, o Velocino molhado pesando sobre ela. 
Mas a ateno do monstro no estava no Velocino. 
- Voc, jovem ciclope! - rugiu Polifemo. - Traidor da nossa espcie! 
Tyson parou. 
- No d ouvidos a ele! - implorei. - Venha. 
Puxei o brao de Tyson, mas era como se estivesse puxando uma montanha. Ele se virou e enfrentou o 
ciclope mais velho. 
- No sou um traidor. 
- Voc serve a mortais! - bradou Polifemo. - Seres humanos ladres! 
Polifemo atirou sua primeira pedra. Tyson rebateu-a para o lado com o punho. 
- No sou traidor - disse Tyson. - E voc no  da minha espcie. 
- Morte ou vitria! 
Polifemo avanou para as ondas, mas seu p ainda estava ferido. Ele imediatamente tropeou e caiu de 
cara. Aquilo teria sido engraado, s que ele comeou a se levantar, cuspindo gua salgada e rosnando. 
- Percy! - gritou Clarisse. - Venha! 
Eles j estavam quase no navio com o Velocino. Se eu ao menos pudesse manter o monstro distrado 
mais um pouco... 
- V - disse-me Tyson. - Eu seguro o Grando Feioso. 
- No! Ele vai mat-lo. - Eu j havia perdido Tyson uma vez. No ia perd-lo d novo. - Vamos enfrent-lo 
juntos. 
- Juntos - concordou Tyson. 
Puxei minha espada. 
Polifemo avanou cautelosamente, mancando como nunca. Mas no havia nada de errado com seu brao. 
Ele atirou a segunda pedra. Mergulhei para um lado, mas ainda teria sido esmagado se Tyson no a 
tivesse arrebentado, transformando-a em cascalho. 
Desejei que o mar subisse. Uma onda de seis metros se ergueu, levantando-me na crista. Peguei um 
jacar em direo ao ciclope e chutei-o no olho, pulando por cima da cabea dele enquanto a gua o 
atirava na praia. 
- Vou destru-lo! - bradou Polifemo. - Ladro de Velocino! 

#
 - Voc roubou o Velocino - gritei. - Voc o est usando para atrair stiros para a morte! 
- E da? Stiros so boa comida! 
- O Velocino deve ser usado para curar! Ele pertence aos filhos dos deuses! 
- Eu sou um filho dos deuses! - Polifemo tentou me varrer com um golpe, mas eu me desviei para o lado. - 
Pai Poseidon, amaldioe este ladro! - Ele piscava muito agora, como se mal pudesse enxergar, e percebi 
que estava se guiando pelo som da minha voz. 
- Poseidon no vai me amaldioar - falei, recuando enquanto o ciclope agarrava o ar. - Eu tambm sou 
seu filho. Ele no vai escolher um favorito. 
Polifemo rugiu. Ele arrancou uma oliveira da encosta do penhasco e golpeou com ela o lugar onde eu 
estava um momento antes. 
- Os seres humanos no so mais os mesmos! Maus, trapaceiros, mentirosos! 
Grover estava ajudando Annabeth a embarcar no navio. Clarisse acenava freneticamente para mim, me 
chamando. 
Tyson deu a volta, tentando ficar atrs de Polifemo. 
- Jovem ciclope! - chamou o ciclope mais velho.  Onde est voc? Ajude-me! 
Tyson parou. 
- Voc no foi criado como deveria! - lamuriou-se Polifemo, sacudindo seu porrete de oliveira. - Pobre 
irmo rfo! Ajude-me! 
Ningum se mexeu. Nenhum som alm do oceano e das batidas do meu corao. Ento Tyson deu um 
passo  frente, erguendo as mos na defensiva. 
- No lute, irmo ciclope. Abaixe a... 
Polifemo girou o corpo na direo da voz dele. 
- Tyson! - gritei. 
A rvore atingiu-o com tamanha fora que teria me achatado como uma pizza de Percy com uma poro 
extra de azeitonas. Tyson voou de costas, cavando uma trincheira na areia. Polifemo avanou atrs dele, 
mas eu gritei: 


- No! - E me atirei o mais longe que pude com Contra-corrente. Esperava atingir Polifemo na parte de 
trs da coxa, mas consegui pular um pouquinho mais alto. 
- B! - Polifemo baliu exatamente como seus carneiros, e me golpeou com sua rvore. 
Eu mergulhei, mas ainda assim uma dzia de galhos pontudos arranhou minhas costas. Estava 
sangrando, contundido e exausto. O porquinho-da-ndia dentro de mim quis fugir. Mas eu engoli o medo. 
Polifemo desferiu outro golpe com a rvore, mas dessa vez eu estava preparado. Agarrei um galho 
quando ela passou, ignorando a dor nas mos ao ser jogado para o cu, e deixei o ciclope me erguer no 
ar. No topo do arco eu me soltei e ca diretamente na cara do gigante - aterrissando com os dois ps no 
seu olho j machucado. 


#
Polifemo ululou de dor. Tyson se atracou com ele, puxando-o para baixo. Eu ca ao lado deles - espada na 
mo,  distncia de uma estocada no corao do monstro. Mas meus olhos cruzaram os de Tyson e vi 
que no poderia fazer aquilo. Simplesmente no era certo. 
- Largue-o - disse a Tyson. - Corra. 
Com um ltimo e enorme esforo, Tyson empurrou o ciclope mais velho, que praguejava, para longe, e 
ns corremos para as ondas. 
- Eu vou esmag-lo! - berrou Polifemo, dobrando-se de dor. Ele ps as mos enormes em concha sobre o 
olho. 
Tyson e eu mergulhamos nas ondas. 
- Onde est voc? - berrou Polifemo. 
Ele pegou o porrete de rvore e lanou-o para a gua. Aquilo caiu  nossa direita. 


Ordenei a uma corrente que nos carregasse, e comeamos a ganhar velocidade. Eu estava comeando a 
pensar que conseguiramos chegar ao navio quando Clarisse gritou do convs: 
- A, Jackson. Se ferrou, ciclope! 
Cale a boca, eu quis gritar. 
- Rarrrr! - Polifemo pegou uma pedra. Ele a atirou na direo da voz de Clarisse, mas ela no chegou at 
l, e por pouco no acertou Tyson e eu. 
- A, a! - provocou Clarisse. - Voc joga pedras como um fracote! Vou ensin-lo a tentar se casar comigo, 
seu idiota! 
- Clarisse! - berrei, incapaz de agentar aquilo. - Cale a boca! 
Tarde demais. Polifemo atirou outra pedra, e dessa vez fiquei olhando impotente enquanto ela voava por 
cima da minha cabea e acertava o casco do Vingana da Rainha Ana. 
Voc no acreditaria em como um navio pode afundar depressa. O Vingana da Rainha Ana rangeu, 
gemeu e se inclinou para a frente como se fosse descer por um escorrega de parque de diverses. 
Eu praguejei, desejando que o mar nos empurrasse mais depressa, mas os mastros do navio j estavam 
submergindo. 
- Mergulhe! - disse a Tyson. 
E enquanto outra pedra voava por cima de nossas cabeas, submergimos. 
***** 
Meus amigos estavam afundando depressa, tentando nadar, mas sem sorte, na esteira borbulhante dos 
destroos do navio. 
Nem todo o mundo sabe que quando um navio afunda funciona como um ralo de pia, puxando tudo o que 
est em volta dele para baixo. Clarisse era uma nadadora vigorosa, mas nem ela conseguiu fazer 
qualquer progresso. Grover agitava freneticamente seus cascos. Annabeth se agarrava ao Velocino, que 
brilhava na gua como uma onda de moedinhas novas. 


#
Eu nadei at eles, sabendo que poderia no ter fora para puxar meus amigos para fora. Pior ainda, 
pedaos de madeira redemoinhavam em volta deles; nenhum dos meus poderes com a gua iria ajudar se 
uma viga acertasse minha cabea. 
Precisamos de ajuda, pensei. 
Sim. A voz de Tyson, alta e clara na minha cabea. 
Olhei para ele, perplexo. J tinha ouvido nereidas e outros espritos da gua falando comigo embaixo 
d'gua, mas nunca me ocorrera... Tyson era filho de Poseidon. Podamos nos comunicar. 
Arco-ris, disse Tyson. 
Fiz que sim, e ento fechei os olhos e me concentrei, somando minha voz  de Tyson: ARCO-RIS! 
Precisamos de voc! 
Formas tremeluziram na escurido embaixo de ns imediatamente - trs cavalos com cauda de peixe, 
galopando para cima mais rpido que golfinhos. Arco-ris e seus amigos olharam em nossa direo e 
pareceram ler nossos pensamentos. Eles se moveram com velocidade para o meio dos destroos e, um 
momento depois, explodiram para o alto numa nuvem de bolhas - Grover, Annabeth e Clarisse, cada qual 
agarrado ao pescoo de um cavalo-marinho. 
Arco-ris, o maior, estava com Clarisse. Correu at ns e permitiu que Tyson se agarrasse  sua crina. 
Seu amigo que trazia Annabeth fez o mesmo comigo. 
Chegamos  superfcie e nos afastamos depressa da ilha de Polifemo. Atrs de ns, pude ouvir o ciclope 
rugindo triunfante: 
- Consegui! Finalmente afundei Ningum! 
Esperei que ele jamais descobrisse que estava errado. 
Deslizamos pelo mar enquanto a ilha ia encolhendo, at se transformar em um ponto e depois 
desaparecer. 
- Conseguimos - murmurou Annabeth, exausta. - Ns... 
Ela tombou no pescoo do cavalo-marinho e adormeceu instantaneamente. 
Eu no sabia at onde os cavalos-marinhos poderiam nos levar. No sabia aonde estvamos indo. 
Apenas apoiei Annabeth para que ela no casse, cobri-a com o Velocino de Ouro que tanto trabalho nos 
custara e fiz uma orao silenciosa em agradecimento. 
O que me lembrou... Eu ainda tinha uma dvida com os deuses. 
- Voc  um gnio - disse a Annabeth baixinho. 
Ento encostei a cabea no Velocino e, antes que percebesse, tambm estava dormindo. 


#
DEZESSETE - Uma surpresa nos aguarda em Miami Beach 
- Percy, acorde. 
Pingos de gua salgada em meu rosto. Annabeth estava sacudindo meu ombro. 
A distncia, o sol se punha atrs da silhueta de uma cidade. Pude ver uma rodovia litornea ladeada por 
palmeiras, fachadas de lojas brilhando em neon vermelho e azul, um porto cheio de veleiros e navios de 
cruzeiro. 
- Miami, eu acho - disse Annabeth. - Mas os cavalos-marinhos esto agindo de um jeito engraado. 
Certamente, nossos amigos aquticos tinham reduzido a velocidade e estavam relinchando e nadando em 
crculos, farejando a gua. No pareciam felizes. Um deles espirrou. Pude entender o que estavam 
pensando. 
- Aqui  o mais longe que eles podem nos levar - disse eu. - Seres humanos demais. Poluio demais. 
Teremos de nadar at praia sozinhos. 
Nenhum de ns ficou muito entusiasmado com aquilo, mas agradecemos a Arco-ris e seus amigos pela 
carona. Tyson chorou um pouco. Soltou o alforje improvisado que tinha feito, contendo seu conjunto de 
ferramentas e um par de outras coisas salvas dos destroos do Birmingham. Depois abraou o pescoo de 
Arco-ris, deu-lhe uma manga encharcada que colhera na ilha e disse adeus. 
Depois que as crinas brancas dos cavalos-marinhos desapareceram no mar, nadamos para a praia. As 
ondas nos empurraram para a frente e num piscar de olhos estvamos de volta ao mundo mortal. 
Perambulamos pelos cais dos navios de cruzeiro, abrindo passagem por entre uma multido que chegava 
para viagens de frias. Carregadores se ocupavam com carrinhos de bagagem. Taxistas gritavam um para 
o outro em espanhol e tentavam furar a fila para pegar passageiros. Se algum reparou em ns - cinco 
crianas encharcadas e com aparncia de quem acaba de lutar com um monstro -, no deixou 
transparecer. 
Agora que estvamos de volta entre mortais, o olho nico de Tyson estava velado pela Nvoa. Grover 
enfiara seu bon e os tnis. At o Velocino se transformara, de uma pele de carneiro em uma jaqueta 
colegial de couro vermelha e dourada com um grande mega reluzente no bolso. 
Annabeth correu para a banca de jornais mais prxima e conferiu a data no Miami Herald. Ela praguejou. 
- Dezoito de junho! Estivemos longe do acampamento por dez dias! 
-  impossvel! - disse Clarisse. 
Mas eu sabia que no era. O tempo passava de um jeito diferente em lugares monstruosos. 
- A rvore de Thalia j deve estar quase morta - lamentou-se Grover. - Temos de levar o Velocino para l 
esta noite! 
Clarisse desmoronou na calada. 
- Como vamos fazer isso? - A voz dela tremeu.  Estamos a centenas de quilmetros de distncia. Sem 
dinheiro. Sem transporte. Exatamente como disse o Orculo. A culpa  sua, Jackson! Se voc no tivesse 
se metido... 
- Culpa de Percy? - explodiu Annabeth. - Clarisse, como pode dizer isso? Voc  a maior... 
- Parem com isso! - falei. 

#
 Clarisse enfiou a cabea nas mos. Annabeth bateu o p de frustrao. 
O fato era: eu quase esquecera que aquela misso deveria ser de Clarisse. Por um momento assustador, 
vi as coisas do ponto de vista dela. Como me sentiria se um bando de outros heris tivesse se metido e 
me deixado mal? 
Pensei no que tinha ouvido na sala das caldeiras do Birmingham - Ares gritando com Clarisse, avisando 
que era melhor ela no fracassar. Ares pouco se importava com o acampamento, mas se Clarisse 
manchasse sua reputao... 
- Clarisse - disse eu -, o que foi exatamente que o Orculo lhe disse? 
Ela ergueu os olhos. Pensei que fosse gritar comigo, mas em vez disso ela respirou fundo e recitou a 
profecia: 
Navegars com guerreiros de osso em navio de ferro, 
O que procuras, hs de encontrar, e teu o tomaras, 
Mas sem esperana dirs, minha vida em pedra enterro, 
Sem amigos falhars e, voando s, retornars. 
- Ui! - murmurou Grover. 
- No - disse eu. - No... espere um minuto. Eu entendi. 
Vasculhei meus bolsos procurando dinheiro, e no encontrei nada a no ser um dracma de ouro. 
- Algum tem algum dinheiro? 
Annabeth e Grover sacudiram a cabea devagar. Clarisse puxou do bolso um dlar da poca da Guerra 
Civil encharcado e suspirou. 
- Dinheiro? - perguntou Tyson, hesitante. - Tipo... papel verde? 
Eu olhei para ele. 
- . 
- Como o que veio nos sacos de viagem? 
- E, mas ns perdemos aqueles sacos dias a-t-t... 
Gaguejei at parar enquanto Tyson vasculhava seu alforje e tirava de l um saco ziploc cheio de dinheiro 
que Hermes inclura nos nossos suprimentos. 
- Tyson! - disse eu. - Como voc... 
- Pensei que fosse um saco de rao para Arco-ris - disse ele. - Achei flutuando no mar, mas s tinha 
papel dentro. Pena. 
Ele me entregou a grana. Notas de cinco e dez, pelo menos trezentos dlares. 
Corri para o meio-fio e peguei um txi que acabava de desembarcar uma famlia de passageiros de um 
cruzeiro. 
- Clarisse - gritei. - Venha. Voc vai para o aeroporto. Annabeth, entregue o Velocino a ela. 


#
No sei muito bem qual das duas pareceu mais perplexa quando tirei a jaqueta-Velocino de Annabeth, 
enfiei o dinheiro no bolso dela e a coloquei nos braos de Clarisse. 
Clarisse disse: 
- Voc vai me deixar... 
- E sua misso - disse eu. - Ns s temos dinheiro suficiente para um voo. Alm disso, eu no posso viajar 
pelo ar. Zeus me explodiria em um milho de pedaos.  isso o que queria dizer a profecia: voc falharia 
sem amigos, o que significa que precisava de nossa ajuda, mas teria de voar para casa sozinha. Voc 
precisa levar o Velocino em segurana. 
Eu podia ver a cabea dela trabalhando - desconfiada de incio, imaginando que truque eu estaria 
armando, depois, finalmente, concluindo que eu queria mesmo dizer o que tinha dito. 
Ela pulou para dentro do txi. 
- Pode contar comigo. No vou falhar. 
- No falhar seria bom... 
O txi arrancou em uma nuvem de fumaa do escapamento. O Velocino estava a caminho. 
- Percy - disse Annabeth -, aquilo foi to... 
- Generoso? - sugeriu Grover. 
- Maluco - corrigiu Annabeth. - Voc est apostando a vida de todos no acampamento que Clarisse levar 
o Velocino em segurana para l esta noite? 
-  a misso dela - disse eu. - Ela merece uma chance. 
- Percy  legal - disse Tyson. 
- Percy  legal demais - resmungou Annabeth. Mas eu no pude deixar de pensar que talvez, apenas 
talvez, ela estivesse um pouco impressionada. De qualquer modo, eu a surpreendera. E isso no era 
coisa fcil de fazer. 
- Vamos - disse aos meus amigos. - Vamos encontrar outro jeito de ir para casa. 
Foi ento que me virei e encontrei uma ponta de espada na minha garganta. 
- Oi, primo - disse Luke. - Bem-vindo de volta aos Estados Unidos. 
Seus homens-urso brutamontes surgiram pelos dois lados. Um agarrou Annabeth e Grover pela gola das 
camisetas. O outro tentou agarrar Tyson, mas Tyson o derrubou em uma pilha de malas e rugiu para 
Luke. 
- Percy - disse Luke calmamente -, diga ao seu gigante para recuar ou mandarei Oreios esmagar as 
cabeas dos seus amigos uma contra a outra. 
Oreios arreganhou um sorriso e ergueu Annabeth e Grover do cho, os dois esperneando e gritando. 
- O que voc quer, Luke? - rosnei. 
Ele sorriu, fazendo ondular a cicatriz no seu rosto. 


#
Fez um gesto em direo  extremidade do cais, e notei o que deveria ter sido bvio. A maior embarcao 
no porto era o Princesa Andrmeda. 
- Ora, Percy - disse Luke. - Eu quero estender minha hospitalidade,  claro. 
***** 
Os gmeos ursos nos tocaram para dentro do Princesa Andrmeda. Jogaram-nos no convs dianteiro, na 
frente de uma piscina com fontes borbulhantes que formavam um repuxo no ar. Uma dzia dos variados 
capangas de Luke - homens-cobra, lestriges, semi-deuses de armadura de batalha - tinha se reunido 
para nos ver receber um pouco de "hospitalidade". 
- E ento, o Velocino, onde est? - perguntou Luke 
Ele nos examinou, espetando minha camisa com a ponta da espada, cutucando os jeans de Grover. 
- Ei! - gritou Grover. - H uma pele de bode de verdade a embaixo! 
- Desculpe, velho amigo. - Luke sorriu. - Entregue o Velocino e deixarei voc partir de volta  sua, ahn, 
pequena misso natural. 
- Blaa-ha-ha! - protestou Grover. - Raio de velho amigo! 
- Talvez vocs no tenham me ouvido. - A voz de Luke era perigosamente calma. - Onde... est... o... 
Velocino? 
- No est aqui - falei. 
Provavelmente, eu no devia ter contado nada a ele, mas era uma boa sensao jogar-lhe a verdade na 
cara. 
- Ns o despachamos na nossa frente. Voc se deu mal. 
Os olhos de Luke se estreitaram. 
- Voc est mentindo. Voc no pode ter... - Seu rosto se avermelhou quando uma horrvel possibilidade 
lhe ocorreu. - Clarisse? 
Fiz que sim. 
- Voc confiou... voc deu... 
- . 
- Agrio! 
O gigante urso se encolheu. 
- S-sim? 
- V l embaixo e prepare meu corcel. Traga-o para o convs. Preciso voar para o aeroporto de Miami, 
depressa! 
- Mas, patro... 
- Faa isso! - berrou Luke. - Ou voc vai virar comida de drago! 


#
O homem-urso engoliu em seco e disparou escada abaixo. Luke ficou andando de um lado para o outro 
na frente da piscina, praguejando em grego antigo, agarrado em sua espada com tanta fora que os ns 
dos dedos ficaram brancos. 
O restante da tripulao de Luke parecia inquieta. Talvez nunca tivessem visto o patro to enlouquecido. 
Comecei a pensar... Se eu pudesse usar a raiva de Luke, faz-lo falar de modo que todos pudessem ouvir 
como seus planos eram insanos... 
Olhei para a piscina, para as fontes borrifando gua no ar, criando um arco-ris ao pr-do-sol. E de repente 
tive uma idia. 
- Voc estava nos usando o tempo todo - disse. - Queria que trouxssemos o Velocino para voc e o 
poupssemos do esforo de peg-lo. 
Luke fez uma careta. 
-  claro, seu idiota! E voc estragou tudo! 
- Traidor! - Tirei meu ltimo dracma de ouro do bolso e o joguei em Luke. Como eu esperava, ele se 
esquivou facilmente. A moeda voou para dentro do repuxo de gua com as cores do arco-ris. 
Esperei que minha prece silenciosa fosse aceita. Pensei de todo o corao: O deusa, aceite minha 
oferenda. 
- Voc enganou todos ns! - gritei para Luke. - At DIONISO NO ACAMPAMENTO MEIO-SANGUE! 
Atrs de Luke, a fonte comeou a tremeluzir, mas eu precisava que a ateno de todos estivesse em mim, 
ento destampei Contracorrente. 
Luke apenas deu um sorriso sarcstico. 
- No  hora para herosmos, Percy. Largue sua espadinha insignificante ou vou mandar mat-lo mais 
cedo, e no mais tarde. 
- Quem envenenou a rvore de Thalia, Luke? 
- Fui eu,  claro - rosnou ele. - Eu j lhe disse isso. Usei peonha da velha Pton, diretamente das 
profundezas do Trtaro. 
- Quron no tem nada a ver com isso? 
- Ah! Voc sabe que ele nunca faria isso. O velho idiota no teria coragem. 
- Chama isso de coragem? Trair seus amigos? Pr em risco o acampamento inteiro? 
Luke ergueu a espada. 
- Voc no entende nem a metade. Eu ia deixar voc levar o Velocino... depois que eu tivesse terminado 
com ele. 
Aquilo me fez hesitar. Por que ele permitiria que eu levasse o Velocino? Devia estar mentindo. Mas eu no 
podia me permitir perder a ateno dele. 
- Voc ia curar Cronos - disse eu. 


#
- Sim! A mgica do Velocino teria acelerado dez vezes o processo de recuperao dele. Mas voc no vai 
nos deter, Percy. Voc s nos atrasou um pouco. 
- Ento voc envenenou a rvore, traiu Thalia e nos preparou uma armadilha... tudo para ajudar Cronos a 
destruir os deuses. 
Luke rangeu os dentes. 
- Voc sabe disso! Por que fica me perguntando? 
- Porque eu quero que todo o pblico o oua. 
- Que pblico? 
Ento seus olhos se estreitaram. Ele olhou para trs, e seus facnoras fizeram o mesmo. Eles engasgaram 
e recuaram, cambaleando. 
Acima da piscina, tremeluzindo na nvoa do arco-ris, estava uma viso em mensagem de ris de Dioniso, 
Tntalo e o acampamento inteiro no pavilho-refeitrio. Estavam sentados num silncio perplexo nos 
assistindo. 
- Bem - disse Dioniso ironicamente -, um entretenimento inesperado no jantar. 
- Senhor D, voc ouviu - falei. - Vocs todos ouviram Luke. O envenenamento da rvore no foi culpa de 
Quron. 
O senhor D suspirou. 
- Acho que no. 
- A mensagem de ris pode ser um truque - sugeriu Tntalo, mas sua ateno estava dirigida principalmente 
ao seu cheeseburger, que ele tentava encurralar com as duas mos. 
- Infelizmente, no  disse o senhor D, olhando com nojo para Tntalo. - Parece que terei de reintegrar 
Quron como diretor de atividades. Acho mesmo que sinto falta dos jogos de pinoche do velho cavalo. 
Tntalo agarrou o cheeseburger. Que no escapuliu para longe. Tntalo o ergueu do prato e olhou para 
aquilo estupefato, como se fosse o maior diamante do mundo. 
- Peguei! - cacarejou ele. 
- No precisamos mais dos seus servios, Tntalo - anunciou o senhor D. 
Tntalo pareceu perplexo. 
- O qu? Mas... 
- Voc pode voltar ao Mundo Inferior. Est despedido. 
- No! Mas... No! 
Enquanto se dissolvia em nvoa, seus dedos apertaram o cheeseburger, tentando lev-lo  boca. Mas era tarde 
demais. Tntalo desapareceu e o cheeseburger caiu de volta no prato. Os campistas explodiram em vivas. 
Luke urrou de raiva. Golpeou a fonte com a espada e a mensagem de ris se dissolveu, mas estava feito. 


#
Eu estava me sentindo muito bem comigo mesmo, at que Luki-se virou e me lanou um olhar 
sanguinrio. 
- Cronos tinha razo, Percy. Voc  uma arma pouco confivel. Precisa ser substitudo. 
No entendi muito bem o que ele queria dizer, mas no tive tempo de pensar a respeito. Um de seus 
homens soprou um apito de bronze, e as portas do convs se abriram violentamente. Mais uma dzia de 
guerreiros foi despejada, formando um crculo  nossa volta, as pontas de bronze das lanas na nossa 
direo. 
Luke sorriu para mim. 
- Vocs no sairo vivos deste navio. 


#
DEZOITO  A invaso dos pneis de festa 
- Mano a mano - desafiei Luke. - Do que voc tem medo? 
Luke franziu o lbio. Os soldados que estavam prestes a nos matar hesitaram, aguardando as ordens 
dele. 
Antes que ele pudesse dizer alguma coisa, Agrio, o homem-urso, irrompeu no convs levando um cavalo 
voador. Era o primeiro pgaso preto puro que eu j vira, com as asas de um corvo gigante. A gua pgaso 
empinou e relinchou. Pude entender seus pensamentos. Ela estava chamando Agrio e Luke de nomes to 
feios que Quron teria lavado seu focinho com sabo para selas. 
- Senhor. - bradou Agrio, esquivando-se dos cascos do pgaso. - Seu corcel est pronto! 
Luke manteve os olhos fixos em mim. 
- Eu lhe disse no ltimo vero, Percy - disse ele. - Voc no pode me atrair para uma luta. 
- E voc continua evitando uma - reparei. - Com medo de que seus guerreiros o vejam ser derrotado? 
Luke lanou um olhar para seus homens, e viu que eu o tinha pego numa armadilha. Se ele recuasse, 
pareceria fraco. Se me enfrentasse, perderia um tempo precioso em sua caada a Clarisse. De minha 
parte, o melhor que podia esperar era distra-lo, dando aos meus amigos oportunidade de escapar. Se 
algum pudesse pensar em um plano para tir-los dali, seria Annabeth. O lado negativo era que eu sabia 
o quanto Luke era bom em esgrima. 
- Vou mat-lo rapidamente - decidiu ele, e ergueu sua arma. 
Mordecostas era meio metro mais longa que a minha espada Sua lmina reluzia com uma luz maligna 
cinza e ouro, onde o ao humano fora fundido com o bronze celestial. Eu quase pude senti a lmina 
lutando contra si mesma, como ms de plos oposto amarrados juntos. No sabia como a lmina tinha 
sido feita, mas senti algo trgico. Algum morrera no processo. Luke assobiou para um dos seus homens, 
que lhe jogou um escudo redondo de couro e bronze. 
Ele me lanou um sorriso maligno. 
- Luke - disse Annabeth -, pelo menos d a ele um escudo. 
- Sinto muito, Annabeth - disse ele. - Nesta festa, a gente traz o prprio equipamento. 
O escudo era um problema. Lutar com as duas mos segurando apenas uma espada nos d mais fora, 
mas lutar com uma das mos e um escudo nos d melhor defesa e versatilidade. H mais movimentos, 
mais opes, mais maneiras de matar. Pensei em Quron, que me dissera para ficar no acampamento no 
importasse a que preo, e aprendesse a lutar. Agora ia pagar por no lhe ter dado ouvidos. 
Luke quase me matou na primeira investida. Sua espada passou embaixo do meu brao, rasgando minha 
camisa e roando minhas costelas. 
Pulei para trs, contra-ataquei com Contracorrente, mas Luke desviou minha lmina com o escudo. 
- Ora, Percy - caoou -, voc est fora de forma. 
Ele avanou de novo com um golpe na altura da minha cabea. Eu me defendi e devolvi com uma 
estocada. Ele desviou facilmente para o lado. 


#
O corte nas minhas costelas doa. Meu corao estava disparado. Quando Luke investiu de novo, pulei 
para trs, para dentro da piscina, e senti uma exploso de fora. Girei embaixo d'gua, criando um 
turbilho que emergiu da parte mais funda, explodindo diretamente na cara de Luke. 
A fora da gua o derrubou, o fez cuspir, sem enxergar. Mas, antes que eu pudesse atacar, ele rolou de 
lado e se ps de p novamente. 
Ataquei e cortei fora a beira de seu escudo, mas aquilo no o intimidou. Ele se agachou e investiu contra 
as minhas pernas. De repente minha coxa ficou em fogo, com uma dor to intensa que desabei. Meus 
jeans estavam rasgados acima do joelho. Eu estava ferido. No sabia com que gravidade. Luke deu um 
golpe para baixo e eu rolei para trs de uma espreguiadeira. Tentei me levantar, mas minha perna no 
suportava o peso. 
- Perrrrrrcy! - baliu Grover. 
Rolei de novo quando a espada de Luke partiu a espreguiadeira ao meio, com os tubos de metal e tudo. 
Arrastei-me em direo  piscina, tentando desesperadamente no desmaiar. Eu nunca conseguiria. Luke 
sabia disso. Ele avanou devagar, sorrindo. O fio de sua espada estava tingido de vermelho. 
- Uma coisa que eu quero que voc veja antes de morrer, Percy. - Ele olhou para o homem-urso Oreios, 
que ainda estava segurando Annabeth e Grover pelo pescoo. - Voc pode comer o seu jantar agora, 
Oreios. Bon appetit. 
- He-he! He-he! - O homem-urso ergueu meus amigos e mostrou os dentes. 
Foi quando o Hades inteiro foi libertado. 
Zummm! 
Uma flecha com penas vermelhas brotou na boca de Oreios. Com uma expresso surpresa na cara 
peluda, ele desmoronou no convs. 
- Irmo! - gemeu Agrio. 
Ele afrouxou as rdeas do pgaso apenas por tempo suficiente para o corcel negro escoice-lo na cabea 
e escapar voando, livre, sobre a baa de Miami. 
Por uma frao de segundo os guardas de Luke ficaram atordoados demais para fazer qualquer coisa a 
no ser olhar para os corpos dos gmeos ursos se dissolvendo em fumaa. 
Ento se ouviu um coro selvagem de brados de guerra e um estrpito de cascos contra metal. Uma dzia 
de centauros irrompeu da escadaria principal. 
- Pneis! - exclamou Tyson, empolgado. 
Minha cabea teve dificuldade de processar tudo o que vi. Quron estava no meio da multido, mas seus 
parentes no pareciam quase nada com ele. Eram centauros com corpo de garanhes rabes, outros 
com pelo dourado de palomino, outros com manchas laranja e brancas como paint horses. Alguns 
usavam camisetas de cores vivas com letras fosforescentes que diziam PNEIS DE FESTA: DIVISO DO 
SUL DA FLORIDA. Alguns estavam armados com arcos, alguns com bastes de beisebol, alguns com 
pistolas de paintball Um tinha a cara pintada como um guerreiro comanche e agitava uma enorme mo de 
isopor mostrando um grande Nmero 1. Outro estava de peito nu e inteiramente pintado de verde. Um 
terceiro usava culos com olhos vesgos presos a molas, balanando para cima e para baixo, e um 
daqueles bons de beisebol que tm latas de refrigerante com canudinhos penduradas dos dois lados. 


#
Eles estouraram no convs com tamanha ferocidade e tanto colorido que por um momento at Luke ficou 
atordoado. Eu no sabia dizer se eles tinham chegado para comemorar ou atacar. 
Tudo levava a crer que as duas coisas. Enquanto Luke erguia sua espada para convocar as tropas, um 
centauro disparou uma flecha diferenciada, com uma luva de boxe na ponta. Ela atingiu Luke na cara e o 
mandou para dentro da piscina. 
Seus guerreiros se espalharam por todos os lados. Eu no podia culp-los. Enfrentar os cascos de um 
garanho empinado j  bastante assustador, mas sendo ele um centauro, armado com um arco e aos 
gritos, usando um chapu com latas de refrigerante, at o mais bravo dos guerreiros bateria em retirada. 
- Venham, acertem alguns! - gritou um dos pneis de festa. 
Eles mandaram ver com suas pistolas de paintball. Uma onda de azul e amarelo explodiu contra os 
guerreiros de Luke, cegando-os e emporcalhando-os da cabea aos ps. Eles tentaram correr, apenas 
para escorregar e cair. 
Quron galopou at Annabeth e Grover, pegou-os com facilidade do convs e os colocou nas costas. 
Tentei me levantar, mas minha perna ferida ainda parecia estar em fogo. 
Luke se arrastava para fora da piscina. 
- Ataquem, seus idiotas! - ordenou s suas tropas. 
Em algum lugar sob o convs um grande sino bateu. 
Eu sabia que a qualquer segundo seramos esmagados pelos reforos de Luke. Seus guerreiros j 
estavam se recuperando da surpresa, avanando para os centauros com espadas e lanas erguidas. 


Tyson jogou meia dzia de lado com um tabefe, derrubando-os por cima da amurada na baa de Miami. 
Porm mais guerreiros vinham subindo pelas escadas. 
- Irmos, retirar! - disse Quron. 
- Voc no vai escapar dessa impune, homem-cavalo! - berrou Luke. 
Ele ergueu a espada, mas levou um murro na cara em outra flechada de luva de boxe, e caiu sentado 
numa espreguiadeira. 
Um centauro palomino me iou para seu lombo. 
- Cara, chame seu amigo grandalho! 
- Tyson! - gritei. - Venha! 
Tyson largou os dois guerreiros que estava prestes a amarrar em um n e correu atrs de ns. Ele pulou 
para o lombo do centauro. 
- Cara! - gemeu o centauro, quase cedendo sob o peso de Tyson. - As palavras "dieta de baixo 
carboidrato" significam alguma coisa para voc? 


Os guerreiros de Luke estavam se organizando em uma falange. Mas quando estavam prontos para 
avanar os centauros j tinham galopado para a beirada do convs e pulado sem medo por cima da 
amurada, como se aquilo fosse uma corrida de obstculos e no dez andares acima do cho. Tive certeza 
de que amos morrer. Despencamos para o cais, mas os centauros atingiram o asfalto praticamente sem 

#
um solavanco sequer e saram galopando, bradando entusiasmados e gritando provocaes para o 
Princesa Andrmeda enquanto galopvamos para as ruas do centro de Miami. 
No tenho idia do que os moradores de Miami pensaram quando passamos galopando. 
Ruas e edifcios comearam a se tornar indistintos enquanto os centauros ganhavam velocidade. A 
sensao era de que o espao estava se compactando - como se cada passo de centauro nos levasse 
por quilmetros e quilmetros. Num piscar de olhos, deixamos a cidade para trs. Disparamos por campos 
pantanosos, capim alto, lagos e rvores ans. 
Finalmente, estvamos em um acampamento de trailers  beira de um lago. Os trailers eram todos 
puxados por cavalos, incrementados com televisores, minigeladeiras e mosquiteiros. Era um 
acampamento de centauros. 
- Cara! - disse um pnei de festa enquanto descarregava seu equipamento. - Voc viu aquele sujeito 
urso? Parecia que estava dizendo: "Epa! Tem uma flecha na minha boca!" 
O centauro com os culos de olhos vesgos riu. 
- Aquilo foi fantstico! Trombada de cabea! 
Os dois centauros investiram um contra o outro com fora total e bateram as cabeas, depois saram 
cambaleando um para cada lado, com sorrisos bobos na cara. 
Quron suspirou. Ps Annabeth e Grover sobre uma toalha de piquenique ao meu lado. 
- Preferiria que meus primos no batessem as cabeas. Eles no tm neurnios sobrando. 
- Quron - disse eu, ainda surpreso com o fato de ele estar ali. - Voc nos salvou. 
Ele me deu um sorriso seco. 
- Bem, eu no poderia deixar que morressem, especialmente por terem limpado meu nome. 
- Mas como sabia onde estvamos? - perguntou Annabeth. 
- Planejamento avanado, minha querida. Eu calculei que vocs seriam trazidos pelas guas para perto de 
Miami, se conseguissem sair do Mar de Monstros vivos. Quase tudo o que  esquisito trazido para Miami 
pelas guas. 
- Puxa, obrigado - murmurou Grover. 
- No, no - disse Quron. - Eu no quis dizer... Ah, no importa! Eu estou contente em v-lo, meu jovem 
stiro. A questo  que consegui bisbilhotar a mensagem de ris de Percy e rastrear o sinal. ris e eu 
somos amigos h sculos. Pedia a ela que me alertasse sobre quaisquer comunicaes importantes nesta 
rea. Ento no foi preciso grande esforo para convencer meus primos a vir em sua ajuda. Como vem, 
ns, centauros, somos capazes de nos deslocar bem depressa quando queremos. Nossa noo de distn-
cia  diferente da dos seres humanos. 
Olhei para a fogueira, onde trs pneis de festa ensinavam Tyson a usar uma pistola de paintball. Torci 
para que soubessem no que estavam se metendo. 
- Ento, e agora? - perguntei a Quron. - Simplesmente deixamos Luke ir embora? Ele est com Cronos a 
bordo daquele navio. Ou partes dele, de qualquer modo. 
Quron se ajoelhou, dobrando cuidadosamente as pernas dianteiras embaixo de si. Abriu a bolsa de 
remdios em seu cinto e comeou a tratar meus ferimentos. 

#
 - Infelizmente, Percy, aconteceu hoje uma espcie de empate. Ns no tnhamos vantagem numrica para 
tomar aquele navio. E Luke no estava suficientemente organizado para nos perseguir. Ningum venceu. 
- Mas ns temos o Velocino! - disse Annabeth. - Clarisse est agora mesmo voltando com ele para o 
acampamento. 
Quron assentiu, embora ainda parecesse inquieto. 
- Vocs todos so heris de verdade. E assim que deixarmos Percy em condies, vocs devem voltar ao 
Acampamento Meio Sangue. Os centauros podero lev-los. 
- Voc tambm vem? - perguntei. 
- Ah, sim, Percy! Ficarei aliviado em ir para casa. Os meus irmos aqui simplesmente no apreciam a 
msica de Dean Martin. Alm disso, preciso trocar algumas palavras com o senhor D. Temos o restante 
do vero para planejar. Muito treinamento para fazer. E eu quero ver... estou curioso a respeito do 
Velocino. 
Eu no sabia exatamente o que ele queria dizer, mas aquilo me deixou preocupado com o que Luke 
dissera: Eu ia deixar voc levar o Velocino... depois que eu tivesse terminado com ele. 
Ele estaria simplesmente mentindo? Eu aprendera com Cronos que sempre h um plano dentro de um 
plano. O senhor tit no era chamado de O Tortuoso  toa. Tinha meios de conseguir que as pessoas 
fizessem o que ele queria sem sequer se darem conta das verdadeiras intenes dele. 
Junto  fogueira, Tyson estava  vontade com sua pistola de pantball. Um projtil azul explodiu contra um 
dos centauros, arremessando-o de costas para dentro do lago. O centauro saiu sorrindo, coberto de lama 
do pntano e tinta azul, e com as duas mos fez sinal de positivo para Tyson. 
- Annabeth - disse Quron -, quem sabe voc e Grover poderiam ir tomar conta de Tyson e dos meus 
primos antes que eles, ahn, ensinem maus hbitos demais um ao outro? 
Annabeth olhou-o nos olhos. Houve algum tipo de entendimento entre eles. 
- Claro, Quron - disse Annabeth. - Venha, garoto-bode. 
- Mas eu no gosto de paintball 
- Sim, voc gosta. - Ela ps Grover sobre seus cascos e o levou em direo  fogueira. 
Quron acabou de enfaixar minha perna. 
- Percy, tive uma conversa com Annabeth a caminho daqui. Uma conversa sobre a profecia. 


O-oh, pensei. 
- No foi culpa dela - disse eu. - Eu a fiz contar. 
Seus olhos pestanejaram com irritao. Tinha certeza de que ele iria me dar uma bronca, mas ento seu 
olhar demonstrou cansao. 
- Acho que no poderia mant-la em segredo para sempre. 
- Ento sou mesmo eu na profecia? Quron enfiou as ataduras de volta na bolsa. 


#
- Eu gostaria de saber, Percy. Voc ainda no tem dezesseis anos. Por ora, devemos simplesmente 
trein-lo o melhor possvel, e deixar o futuro para as Parcas. 
As Parcas. Eu no pensava naquelas velhas senhoras fazia um bom tempo, mas assim que Quron as 
mencionou, a ficha caiu em minha cabea. 
-  isso que aquilo significava. Quron franziu o cenho. 
-  isso que o qu significava? 
- No ltimo vero. O agouro das Parcas quando as vi arrebentar a linha da vida de algum. Pensei que 
significasse que eu ia morrer imediatamente, mas  pior que isso. Tem algo a ver com sua profecia. A 
morte que elas previram... vai acontecer quando eu tiver dezesseis anos. 
A cauda de Quron varreu nervosamente a grama. 
- Meu menino, voc no pode ter certeza disso. Ns nem sabemos se a profecia  sobre voc. 
- Mas no existe nenhum outro filho meio-sangue dos Trs Grandes! 
- Que ns saibamos. 
- E Cronos est retornando. Ele vai destruir o Monte Olimpo! 
- Ele vai tentar - concordou Quron. - E a civilizao ocidental junto, se no o detivermos. Mas ns vamos 
det-lo. Voc no estar sozinho nessa luta. 
Eu sabia que ele estava tentando me fazer sentir melhor, mas me lembrei do que Annabeth contara. 
Caberia a um s heri. Uma deciso que iria salvar ou destruir o Ocidente. E eu tinha certeza de que as 
Parcas me deram algum tipo de aviso sobre isso. Algo terrvel iria acontecer, ou para mim ou para algum 
prximo de mim. 
- Eu sou apenas uma criana, Quron - disse eu, sem foras. - De que adianta um heroizinho de nada 
contra uma coisa como Cronos? 
Quron conseguiu sorrir. 
- .De que adianta um heroizinho de nada?., Joshua Lawrence Chamberlain me disse algo parecido certa 
vez, pouco antes de, sozinho, mudar o curso da Guerra Civil. 
Ele puxou uma flecha de sua aljava e girou a ponta afiada como navalha de um jeito que a fez brilhar  luz 
da fogueira. 
- Bronze celestial, Percy. Uma arma imortal. O que aconteceria se voc disparasse isto contra um ser 
humano? 
- Nada - disse eu. - Passaria atravs dele. 
- Certo - disse ele. - Os seres humanos no existem no mesmo nvel que os imortais. Eles no podem 
nem mesmo ser feridos pelas nossas armas. Mas voc, Percy... voc  parte deus, parte humano. Vive em 
ambos os mundos. Pode ser ferido por ambos, e pode influenciar ambos.  isso que torna os heris to 
especiais. Voc transporta as esperanas da humanidade para a esfera do eterno. Os monstros nunca 
morrem. Eles renascem do caos e do barbarismo que sempre fermentam embaixo da civilizao, o prprio 
material que torna Cronos mais forte. Precisam ser derrotados de novo, e de novo, mantidos 
encurralados. Os heris personificam essa luta. Voc enfrenta as batalhas que a humanidade precisa 
vencer, a cada gerao, a fim de continuar sendo humana. Entende? 


#
- Eu... eu no sei. 
- Voc precisa tentar, Percy. Porque, seja voc ou no a criana da profecia, Cronos acha que voc pode 
ser. E, depois de hoje, ele finalmente desistir de lev-lo para o lado dele. Essa  a nica razo de ele 
ainda no t-lo matado, voc sabe. Assim que ele tiver certeza de que no poder us-lo, ir destru-lo. 
- Voc fala como se o conhecesse. Quron franziu os lbios. 
- Mas eu o conheo. 
Olhei para ele. Eu s vezes me esquecia de como Quron era velho. 
-  por isso que o senhor D culpou voc quando a rvore foi envenenada? Por isso disse que algumas 
pessoas no confiam em voc? 
- Sem dvida. 
- Mas, Quron... Quer dizer, ora vamos! Por que eles haveriam de pensar que voc iria trair o 
acampamento por Cronos? 
Os olhos de Quron eram de um castanho profundo, cheios de milhares de anos de tristeza. 
- Percy, lembre-se de seu treinamento. Lembre-se dos estudos de mitologia. Qual  a minha conexo com 
o senhor tit? 
Tentei pensar, mas minha mitologia sempre foi toda confusa Mesmo ali, quando ela era to real, to 
importante para minha vida, eu tinha problemas em guardar direito todos os nomes e os fatos. Sacudi a 
cabea. 
- Voc, ahn, deve a Cronos algum favor ou coisa assim? Ele poupou sua vida? 
- Percy - disse Quron, a voz inimaginavelmente suave. - O tit Cronos  meu pai. 


#
DEZENOVE - A corrida de carruagens termina com uma exploso. 
Chegamos a Long Island logo depois de Clarisse, graas  capacidade de deslocamento dos centauros. 
Cavalguei no lombo de Quron, mas no conversamos muito, especialmente sobre Cronos. Eu sabia que 
tinha sido difcil para ele me contar. No queria pression-lo com mais perguntas. Quer dizer, eu conheci 
uma grande quantidade de parentes embaraosos, mas, Cronos, o maligno senhor tit que queria destruir 
a civilizao ocidental? No era o tipo de pai que a gente convida para a escola no "dia da profisso". 
Quando chegamos ao acampamento, os centauros estavam ansiosos por conhecer Dioniso. Tinham 
ouvido falar que ele promovia festas insanas, mas ficaram desapontados. O deus do vinho no estava 
com disposio para celebrar quando o acampamento inteiro se reuniu no topo da Colina Meio-Sangue. 


O acampamento acabara de passar por duas semanas difceis. O chal de artes e ofcios fora totalmente 
queimado no ataque de um Draco Aionius (que, at onde pude imaginar,  um nome latino para "enorme 
lagarto que faz as coisas irem pelos ares"). Os quartos da Casa Grande estavam transbordando de 
feridos. As crianas do chal de Apoio, que eram os melhores curandeiros, estiveram trabalhando horas a 
fio nos primeiros socorros. Todos pareciam exaustos e maltratados quando nos amontoamos em volta da 
rvore de Thalia. 
No momento em que Clarisse pendurou o Velocino de Ouro no galho mais baixo, o luar pareceu clarear, 
passando de cinzento para um prata-claro. Uma brisa fresca sussurrou entre os galhos e fez o capim 
ondular at o vale. Tudo entrou em um foco mais ntido - a luz dos vaga-lumes nos bosques, o aroma dos 
campos de morangos, o som das ondas na praia. 
Aos poucos, as agulhas do pinheiro comearam a esverdear, perdendo o tom marrom. 
Todos vibraram. Estava acontecendo devagar, mas no havia dvida - a mgica do Velocino penetrava na 
rvore, enchendo-a com uma fora nova e expelindo o veneno. 
Quron ordenou vigia vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, no topo da colina, pelo menos at 
que pudesse arranjar um monstro apropriado para proteger o Velocino. Disse que publicaria um anncio 
no Semanrio do Olimpo imediatamente. 
Nesse meio-tempo, Clarisse foi carregada nos ombros por seus companheiros de chal at o anfiteatro, 
onde foi homenageada com uma coroa de louros e muita comemorao em volta da fogueira. 
Ningum deu a menor ateno a Annabeth ou a mim. Era como se nunca tivssemos partido. Acho que 
era o melhor agradecimento que poderamos receber, porque, se admitissem que tnhamos escapulido 
furtivamente do acampamento para realizar a misso, teriam de nos expulsar. E, na verdade, eu no 
queria mesmo mais nenhuma ateno. Era boa a sensao de ser apenas um dos campistas, para variar. 
Mais tarde, naquela noite, quando estvamos assando guloseimas e ouvindo os irmos Stoll nos contarem 
uma histria de fantasmas sobre um rei perverso que fora comido vivo por doces demonacos no caf-da-
manh, Clarisse me empurrou por trs e sussurrou ao meu ouvido: 
- No  porque voc foi legal uma vez, Jackson, que est fora de perigo com Ares. Ainda estou esperando 
a oportunidade certa para transform-lo em p. 
Dei-lhe um sorriso de m vontade. 
- O qu? - perguntou ela. 
- Nada - disse eu. -  bom estar em casa. 
***** 


#
Na manh seguinte, depois que os pneis de festa partiram de volta para a Flrida, Quron fez um aviso 
de surpresa: as corridas de bigas seriam realizadas conforme programado. Todos tnhamos imaginado 
que elas ficariam para trs, j que Tntalo se fora, mas complet-las parecia ser a coisa certa a fazer, 
especialmente agora que Quron estava de volta e o acampamento estava seguro. 
Tyson no ficou muito entusiasmado com a idia de entrar novamente numa biga depois da nossa 
primeira experincia, e ficou feliz em deixar que eu formasse uma equipe com Annabeth. Eu conduziria, 
Annabeth defenderia e Tyson atuaria como nosso mecnico de pit-stop. Enquanto eu trabalhava com os 
cavalos, Tyson consertou a carruagem de Atena e acrescentou todo um pacote de modificaes especiais. 
Passamos os dois dias seguintes treinando como loucos. Annabeth e eu concordamos que, caso 
vencssemos, o prmio de nenhum trabalho na cozinha durante um ms inteiro seria dividido entre 
nossos dois chals. Como Atena tinha mais campistas, teria a maior parte da folga, o que, por mim, estava 
o.k. Eu no me importava com o prmio. S queria vencer. 
Na noite anterior  corrida, fiquei acordado at tarde nos estbulos. Estava conversando com nossos 
cavalos, dando-lhes as instrues finais, quando algum bem atrs de mim disse: 
- Belos animais, os cavalos. Gostaria de ter pensado neles. 
Um cara de meia-idade em uniforme dos correios estava encostado na porta do estbulo. Era magro, com 
cabelo preto encaracolado embaixo do elmo branco, e carregava um malote postal pendurado no ombro. 
- Hermes? - gaguejei. 
- Ol, Percy. No me reconheceu sem as roupas de corrida? 
- Ahn... - Eu no sabia muito bem se deveria me ajoelhar, comprar selos ou o qu. Ento me ocorreu por 
que ele devia estar ali. - Ah!, escute, senhor Hermes, quanto a Luke... 
O deus arqueou as sobrancelhas. 
- Ahn, ns o vimos, tudo bem - disse eu -, mas... 
- Vocs no conseguiram faz-lo ouvir a voz da razo? 
- Bem, ns tentamos nos trucidar mutuamente em um duelo at a morte. 
- Entendo. Voc tentou a aproximao diplomtica. 
- Sinto muito mesmo. Quer dizer, voc nos deu aqueles presentes impressionantes e tudo. E eu sei que 
voc queria que Luke voltasse. Mas... ele se tornou mau. Mau mesmo, pra valer. Ele disse que tem a 
sensao de que voc o abandonou. 
Esperei Hermes ficar furioso. Imaginei que ele me transformaria em um hamster ou coisa assim, e eu no 
tinha a menor vontade ser de novo um roedor. 
Em vez disso, ele apenas suspirou. 
- Voc j teve a impresso de que seu pai o abandonou, Percy? 
Ai, ai, ai. 
Tive vontade de dizer: "S algumas centenas de vezes por dia.. Eu no falava com Poseidon desde o 
ltimo vero. Nunca estivera sequer em seu palcio submarino. E tambm havia toda aquela coisa com 
Tyson - nenhum aviso, nenhuma explicao. Simplesmente, buml Voc tem um irmo.  de se imaginar 
que uma pessoa merea uma ligadinha para avisar, ou coisa assim. 

#
 Quanto mais eu pensava nisso, mais zangado ficava. Percebi que realmente queria reconhecimento pela 
misso que completara, mas no dos outros campistas. Queria que meu pai dissesse alguma coisa. Que 
reparasse em mim. 
Hermes acomodou melhor o malote no ombro. 
- Percy, a parte mais difcil de ser um deus  que voc, muitas vezes, precisa agir indiretamente, em 
especial quando se trata dos prprios filhos. Se fssemos interferir todas as vezes em que os nossos 
filhos tm um problema... bem, isso s iria criar mais problemas e mais ressentimento. Mas eu acredito 
que se voc pensar um pouco nisso ver que Poseidon tem prestado ateno em voc. Ele respondeu s 
suas preces. Posso apenas esperar que algum dia Luke tambm perceba isso em relao a mim. Quer 
voc ache que teve sucesso, quer no, lembrou a Luke quem era ele. Voc falou com ele. 
- Eu tentei mat-lo. 
Hermes encolheu os ombros. 
- Famlias so complicadas. Famlias imortais so eternamente complicadas. s vezes, o melhor que 
podemos fazer  lembrar um ao outro que somos aparentados, acontea o que acontecer... e tentar limitar 
ao mnimo as mortes e mutilaes. 
Aquilo no pareceu exatamente uma receita para a famlia perfeita. Mas, por outro lado, pensando na 
minha misso, percebi que talvez Hermes estivesse certo. Poseidon enviara os cavalos-marinhos para nos 
ajudar. Ele me dera poderes sobre o mar de que nunca ouvira falar antes. E havia Tyson. Ser que 
Poseidon nos pusera juntos de propsito? Quantas vezes Tyson salvara minha vida naquele vero? 
A distncia, soou a trombeta de concha, anunciando a hora de recolher. 
- Voc precisa ir para a cama - disse Hermes. - Eu j o ajudei a se meter em encrencas suficientes este 
vero. Na verdade, s vim para fazer esta entrega. 
- Uma entrega? 
- Eu sou o mensageiro dos deuses, Percy. - Ele tirou um aparelho de protocolo eletrnico de sua mala 
postal e entregou para mim. - Assine aqui, por favor. 
Peguei a caneta do aparelho antes de perceber que nela havia um par de minsculas serpentes verdes 
entrelaadas. 
- Ah! - Deixei a caneta cair. 
Ai!, disse George. 
Realmente, Percy, ralhou Martha. Voc gostaria de ser derrubado no cho de um estbulo? 
- Ah!, ahn, desculpe. 
Eu no gostava muito de tocar em serpentes, mas peguei de novo o aparelho e a caneta. Martha e 
George se retorceram embaixo dos meus dedos formando uma espcie de apoio para lpis, como os que 
meu professor de educao especial me fazia usar na segunda srie. 
Voc me trouxe um rato?, perguntou George. 
- No... - disse eu. - Ns, ahn, no encontramos nenhum. 
E um porquinho-da-ndia? 

#
 George!, repreendeu Martha. No provoque o menino. 
Assinei e devolvi o aparelho para Hermes. 
Em troca, ele me entregou um envelope azul-mar. 
Meus dedos tremeram. Mesmo antes de abrir, percebi que era do meu pai. Pude sentir seu poder no papel 
azul frio, como se o prprio envelope tivesse sido dobrado com uma onda do oceano. 
- Boa sorte amanh - disse Hermes. -  uma bela parelha de cavalos que voc tem ali, mas vai ter de me 
desculpar se eu torcer pelo chal de Hermes. 
E no fique desanimado demais depois de ler isto, meu querido, disse Martha. Ele de fato se preocupa com voc. 
- O que voc quer dizer? - perguntei. 
No ligue para ela, disse George. E da prxima vez, lembre-se, as serpentes trabalham por gorjetas. 
- J basta, vocs dois - disse Hermes. - Adeus, Percy. Por enquanto. 
Pequenas asas brancas brotaram em seu elmo. Ele comeou a brilhar, e eu sabia o bastante sobre os 
deuses para desviar os olhos antes que ele revelasse sua verdadeira forma divina. Com um brilhante 
claro branco, ele se foi, e fiquei sozinho com os cavalos. 
Olhei para o envelope azul em minhas mos. Estava endereado em uma caligrafia forte, mas elegante, 
que eu j vira uma vez, em um pacote que Poseidon me enviara no ltimo vero. 
Percy Jackson 
a/c Acampamento Meio-Sangue 
Fram Road, 3.141 
Long Island, Nova York, 11954 
Uma carta de verdade do meu pai. Talvez ele dissesse que eu tinha feito um bom trabalho ao conseguir o 
Velocino. Explicasse a respeito de Tyson, ou pedisse desculpas por no ter falado comigo antes. Havia 
tantas coisas que eu gostaria que estivessem naquela carta. 
Abri o envelope e desdobrei o papel. 
Era simples o que estava escrito no meio da pgina: 
Prepare-se 
Na manh seguinte, estava todo mundo aos cochichos sobre a corrida de bigas, embora ficassem olhando 
nervosamente para o cu como se esperassem ver pssaros de Estinflia se reunindo. No apareceu 
nenhum. Era um lindo dia de vero, com cu azul e muito sol. O acampamento comeava a ter a 
aparncia que deveria: as campinas estavam verdes e luxuriantes; as colunas brancas reluziam nos 
edifcios gregos; drades brincavam alegres nos bosques. 
E eu me sentia infeliz. Ficara acordado a noite inteira, pensando no aviso de Poseidon. 
Prepare-se. 
Quer dizer, ele se d ao trabalho de escrever uma carta e escreve apenas aquilo? 


Martha, a serpente, me dissera para no ficar desapontado. Talvez Poseidon tivesse uma razo para ser 
to vago. Talvez no soubesse exatamente sobre o que estava me advertindo, mas sentisse que algo 

#
grandioso estava prestes a acontecer - algo que poderia me deixar completamente arrasado, a no ser 
que estivesse preparado. Foi difcil, mas tentei voltar meus pensamentos para a corrida. 
Enquanto Annabeth e eu nos encaminhvamos para a pista no pude deixar de admirar o trabalho que 
Tyson fizera na biga de Atena. A carruagem reluzia com seus reforos de bronze. As rodas tinham sido 
realinhadas com uma suspenso mgica deslizvamos sem um solavanco sequer. O arreamento dos 
cavalos estava to perfeitamente equilibrado que a parelha virava ao mais leve puxo nas rdeas. 
Tyson fizera dois dardos para ns, cada qual com trs botes no cabo. O primeiro boto preparava o 
dardo para explodir com o impacto, liberando um arame farpado que se embaraaria nas rodas de um 
oponente e as despedaaria. O segundo boto produzia uma ponta de bronze rombuda (mas ainda assim 
muito dolorosa) projetada para derrubar o auriga. O terceiro boto produziria um arpu que poderia ser 
usado para travar a carruagem do inimigo ou empurr-la para longe. 
Calculei que estvamos em excelente condio para a corrida, mas Tyson assim mesmo me advertiu para 
ser cuidadoso. As equipes das outras carruagens tinham truques  beca para puxar dos seus mantos. 
- Aqui - disse ele pouco antes de comear a corrida. 
Ele me entregou um relgio de pulso. No havia nele nada de especial - apenas um mostrador branco e 
prata e uma pulseira de couro preto -, mas assim que o vi percebi que era naquilo que eu o vira trabalhar 
durante todo o vero. 
Normalmente no uso relgio. Que importncia tem saber as horas? Mas no podia dizer no a Tyson. 
- Obrigado, parceiro. - Coloquei-o no pulso e descobri que era surpreendentemente leve e confortvel. Eu 
mal sentia que o estava usando. 
- No consegui termin-lo em tempo para a viagem - murmurou Tyson. - Desculpe, desculpe. 
- Ei, cara. No  importante. 
- Se precisar de proteo na corrida - aconselhou ele -, aperte o boto. 
- Ah, legal! - No vi como a hora certa poderia ajudar grande coisa, mas fiquei comovido por Tyson ter se 
preocupado. Prometi i ele que me lembraria do relgio. - E... ei, ahn, Tyson... 


Ele olhou para mim. 
- Eu queria dizer, bem... 
Tentei imaginar como me desculpar por ter sentido vergonha dele antes da misso, por ter dito a todos 
que ele no era meu irmo de verdade. No foi fcil encontrar as palavras. 
- Eu sei o que voc vai me dizer - disse Tyson, parecendo encabulado. - Poseidon, no fim das contas, se 
preocupava comigo. 
- Ahn, bem... 
- Ele mandou voc para me ajudar. Exatamente o que eu pedi. 
Eu pisquei. 
- Voc pediu... a mim para Poseidon? 
- Pedi um amigo  disse Tyson, torcendo a camisa nas mos. - Os jovens ciclopes crescem sozinhos nas 
ruas, aprendem a fazer coisas com sucata. Aprendem a sobreviver. 

#
 - Mas isso  to cruel! 
Ele sacudiu a cabea com deciso. 
- Isso nos faz apreciar nossas bnos, no ser gananciosos, maus e gordos como Polifemo. Mas eu 
ficava com medo. Os monstros me perseguiram tanto, s vezes me machucavam com suas garras... 
- As cicatrizes nas suas costas? 
Uma lgrima surgiu no olho dele. 
- A esfinge da rua Setenta e Dois. Grande encrenqueira. Pedi ajuda ao papai. Logo o pessoal de 
Meriwether me encontrou. Conheci voc. A maior bno de todas. Sinto por ter dito que Poseidon era 
mau. Ele me mandou um irmo. 
Olhei para o relgio que Tyson me dera. 
- Percy! - chamou Annabeth.  Vamos! 
Quron estava junto  linha de partida, pronto para soprar a concha. 
- Tyson... - falei. 
- V - disse Tyson. - Vocs vo vencer! 
- Eu... sim, certo, grando. Vamos vencer esta por voc. - Subi na biga e fiquei em posio bem na hora em 
que Quron deu a largada. 
Os cavalos sabiam o que fazer. Disparamos pela pista to depressa que eu teria cado da carruagem se 
meus braos no tivessem enrolado nas rdeas de couro. Annabeth se segurou firme no parapeito. As 
rodas deslizavam lindamente. Entramos na primeira curva com uma biga inteira de vantagem sobre 
Clarisse, que estava ocupada tentando se defender de um ataque de dardo dos irmos Stoll na biga de 
Hermes. 
- Ns os pegamos. - gritei, mas foi cedo demais. 
- Chegando! - gritou Annabeth. Ela lanou seu primeiro dardo no modo arpu, jogando longe uma rede 
com pesos de chumbo que teria envolvido ns dois. A carruagem de Apolo chegara ao nosso lado. Antes 
que Annabeth pudesse se armar de novo, o guerreiro de Apoio lanou um dardo contra nossa roda direita. 
O dardo se despedaou, mas no sem antes arrebentar um dos raios. Nossa biga deu uma guinada 
brusca e oscilou. Tive certeza de que a roda iria se desintegrar de vez, mas de algum modo continuamos 
em frente. 
Instiguei os cavalos a manter a velocidade. Estvamos agora pescoo com pescoo com Apoio. Hefesto 
vinha logo depois. Ares e Hermes estavam ficando para trs, lado a lado enquanto Clarisse enfrentava 
Connor Stoll de espada contra dardo. 
Se fssemos atingidos mais uma vez na roda, sabia que iramos capotar. 
- Voc  meu! - gritou o auriga de Apolo. Era um campista de primeiro ano. No me lembro do seu nome, 
mas certamente tinha autoconfiana. 
- Ah, t! - Annabeth gritou de volta. 
Ela pegou o segundo dardo - um grande risco, considerando que ainda tnhamos uma volta completa pela 
frente - e o lanou contra o auriga de Apolo. 

#
 A pontaria foi perfeita. A ponta rombuda surgiu bem no momento em que o dardo atingiu o auriga no peito, 
derrubando-o sobre o parceiro e fazendo os dois tombarem da carruagem num salto-mortal para trs. Os 
cavalos sentiram as rdeas afrouxarem e enlouqueceram, galopando direto para a multido. Campistas 
correram procurando proteo enquanto os cavalos passaram no canto das arquibancadas e a biga 
dourada virou. Os animais galoparam de volta para o estbulo, arrastando a carruagem emborcada atrs 
deles. 
Consegui manter nossa biga inteira ao longo da segunda curva, a despeito dos gemidos da roda direita. 
Passamos pela linha de partida e entramos trovejando na volta final. 
O eixo rangia e chiava. A roda instvel estava nos fazendo perder velocidade, muito embora os cavalos 
respondessem a todos os meus comandos, correndo como uma mquina bem lubrificada. 
A equipe de Hefesto continuava avanando. 
Beckendorf sorriu ao pressionar um boto no seu painel de controle. Cabos de ao foram lanados da 
frente de seus cavalos mecnicos e se enroscaram na traseira de nossa biga. A carruagem estremeceu 
quando o sistema de guincho de Beckendorf comeou a funcionar - arrastando-nos para trs enquanto 
Beckendorf era puxado para a frente. 
Annabeth praguejou e puxou sua faca. Ela golpeou os cabos, mas eram grossos demais. 
- No consigo cort-los! - gritou. 
A carruagem de Hefesto estava agora perigosamente prxima, os cavalos a ponto de nos esmagar com os 
cascos. 
- Troque comigo! - disse a Annabeth. - Pegue as rdeas! 
- Mas... 
- Confie em mim! 
Ela passou para a frente e agarrou as rdeas. Eu me virei, num esforo para manter o equilbrio, e 
destampei Contracorrente. 
Dei um golpe para baixo e os cabos arrebentaram como linha de pipa. Fomos lanados para a frente, mas 
o auriga de Beckendorf simplesmente deu uma guinada para a esquerda e encostou a biga ao nosso lado. 
Beckendorf puxou sua espada. Ele desferiu um golpe contra Annabeth, e eu o desviei. 
Estvamos entrando na ltima curva. Jamais conseguiramos. Eu precisava desestabilizar a carruagem de 
Hefesto e tir-la do caminho, mas tambm tinha de proteger Annabeth. Beckendorf era um cara legal mas 
isso no significava que ele no iria mandar ns dois para a enfermaria se baixssemos a guarda. 
Estvamos agora pescoo com pescoo, Clarisse se aproximando atrs, recuperando o tempo perdido. 
- At mais, Percy! - gritou Beckendorf. - A vai um presentinho de despedida! 
Ele atirou uma bolsa de couro em nossa biga. Aquilo grudou imediatamente no piso e comeou a soltar 
uma fumaa verde. 
- Fogo grego! - gritou Annabeth. 
Eu praguejei. Tinha ouvido histrias sobre o que o fogo grego era capaz de fazer. Calculei que teramos 
talvez dez segundos antes que aquilo explodisse. 


#
- Livre-se dele! - gritou Annabeth. 
Mas eu no podia. A carruagem de Hefesto ainda estava ao lado, aguardando at o ltimo segundo para 
se certificar de que seu presentinho explodiria. Beckendorf me mantinha ocupado com sua espada. Se eu 
baixasse a guarda por tempo suficiente para lidar com o fogo grego, Annabeth seria fatiada, e ns nos 
arrebentaramos de um jeito ou de outro. Tentei chutar a bolsa de couro para longe, mas no consegui. 
Ela estava bem grudada. 
Ento me lembrei do relgio. 
No sabia como aquilo poderia ajudar, mas consegui apertar o boto do cronmetro. No mesmo instante o 
relgio se transformou. Expandiu-se, o aro de metal girando para fora como um obturador de mquina 
fotogrfica antiga, e uma correia de couro se enrolou em torno do meu antebrao at que me vi segurando 
um escudo de guerra redondo com um metro e meio de dimetro, o lado de dentro de couro macio, o lado 
de fora de bronze polido, com desenhos gravados que no tive tempo de examinar. 
Tudo o que sabia era que Tyson se sara bem. Ergui o escudo e a espada de Beckendorf retiniu contra 
ele. Sua lmina se estilhaou. 
- O qu? - gritou ele. - Como... 
Ele no teve tempo de dizer mais nada porque eu o atingi no peito com meu novo escudo e o fiz voar da 
carruagem e rolar pela poeira. 
Eu estava prestes a usar Contracorrente para golpear o auriga quando Annabeth gritou: 
- Percy! 
O fogo grego estava soltando fagulhas. Enfiei a ponta da minha espada embaixo da bolsa de couro e a 
usei como esptula. A bomba incendiaria saiu do lugar e voou para dentro da carruagem de Hefesto, 
caindo nos ps do auriga. 
Ele soltou um ganido. 
Em uma frao de segundo o auriga fez a escolha certa: mergulhou da carruagem, que seguiu em 
diagonal e explodiu labaredas verdes. Os cavalos de metal pareciam estar em curto-circuito. Contornaram 
e arrastaram os destroos em chamas na direo de Clarisse e dos irmos Stoll, que tiveram de se desviar 
para evit-los. 
Annabeth puxou as rdeas para a ltima curva. Eu me segurei, certo de que iramos capotar, mas de 
algum modo ela conseguiu continuar e tocou os cavalos pela linha de chegada. Um clamor se ergueu da 
multido. 
Depois que a carruagem parou, nossos amigos se aglomeraram ao nosso redor. Comearam a entoar 
nossos nomes, mas Annabeth gritou, por cima do barulho: 
- Esperem! Escutem! No fomos apenas ns! 
A multido no queria silenciar, mas Annabeth se fez ouvir: 
- No teramos conseguido sem outra pessoa! No poderamos ter ganhado esta corrida, nem conseguido 
o Velocino, nem salvado Grover, nem nada! Devemos nossas vidas a Tyson... 
- Meu irmo! - disse eu, bem alto para todos ouvirem. - Tyson, meu irmozinho mais novo. 


#
Tyson corou. A multido delirou. Annabeth me tascou um beijo na bochecha. Os gritos ficaram ainda muito 
mais altos depois disso. Todo o chal de Atena nos ergueu nos ombros - Annabeth, Tyson e eu - e nos 
carregou em direo ao pdio dos vencedores, onde Quron aguardava para entregar as coroas de louros. 


#
VINTE  A magia do velocino  boa at demais 
Aquela tarde foi uma das mais felizes que eu j passara no acampamento, o que talvez sirva para 
demonstrar que a gente nunca sabe quando nosso mundo est prestes a ser despedaado. 
Grover anunciou que poderia passar o resto do vero conosco antes de retomar sua misso  procura de 
Pan. Seus superiores no Conselho dos Ancios de Casco Fendido ficaram to impressionados por ele no 
ter se deixado matar e ter aberto o caminho para futuros buscadores que lhe concederam uma licena de 
dois meses e um novo conjunto de flautas de bambu. A nica m notcia: Grover insistiu em tocar aquelas 
flautas a tarde inteira, e seus dons musicais no haviam melhorado muito. Ele tocou YMCA, e os 
morangueiros comearam a enlouquecer, enroscando-se em nossos ps como se estivessem tentando 
nos estrangular. Acho que no poderia culp-los. 
Grover me contou que poderia desfazer a conexo emptica entre ns, agora que estvamos frente a 
frente, mas eu lhe disse que simplesmente aceitava continuar com ela, se estivesse tudo bem com ele. Ele 
ps de lado suas flautas de junco e me olhou. 
- Mas, se eu me meter em encrenca de novo, voc estar cm perigo, Percy! Voc pode morrer! 
Se voc se meter em encrenca de novo, eu quero saber a respeito. E vou ajud-lo de novo, homem-bode. 
No faria de outro jeito. 
No fim ele concordou em no romper a conexo. Voltou a tocar YMCA para os morangueiros. Eu no 
precisava de uma conexo emptica com as plantas para saber como elas se sentiam com aquilo. 
***** 
Mais tarde, durante a aula de arco-e-flecha, Quron me chamou de lado e contou que havia resolvido 
meus problemas com o colgio Meriwether. O colgio no me culpava mais por destruir o ginsio. A 
polcia no estava mais me procurando. 
- Como conseguiu isso? - perguntei. 
Os olhos de Quron cintilaram. 
- Apenas sugeri que os mortais tinham visto algo diferente naquele dia... a exploso de um forno, que no 
foi sua culpa. 
- Voc disse isso e eles aceitaram? 
- Eu manipulei a Nvoa. Algum dia, quando voc estiver pronto, vou lhe mostrar como isso  feito. 
- Voc quer dizer que eu posso voltar para Meriwether no ano que vem? 
Quron ergueu as sobrancelhas. 
- Ah, no, eles expulsaram voc assim mesmo. O diretor, senhor Bonsai, disse que seu... como foi mesmo 
que ele disse? Que seu carma no era bom, que perturbava a aura educacional da escola. Mas voc no 
est com nenhum problema com a lei, o que foi um alvio para sua me. Ah!, e por falar na sua me... 
Ele desprendeu seu telefone celular da aljava e o entregou a mim. 
- Est mais do que na hora de voc ligar para ela. 


#
A pior parte foi o comeo - a parte do "Percy Jackson, o que voc est pensando, voc tem idia de como 
eu fiquei preocupada por voc ter fugido do acampamento, partindo para misses perigosas e me 
deixando morrendo de pavor?". 
Mas, finalmente, ela fez uma pausa para tomar flego. 
- Ah, eu s estou contente por voc estar em segurana! 
Isso  o mais legal em minha me. Ela no  muito boa em ficar zangada. Ela tenta, mas simplesmente 
no  da natureza dela. 
- Desculpe, mame - disse a ela. - No vou assust-la de novo. 
- No me prometa isso, Percy. Voc sabe muito bem que tudo s vai piorar. - Ela tentou parecer 
despreocupada quanto a isso, mas pude perceber que estava bastante abalada. 
Eu quis dizer alguma coisa para faz-la se sentir melhor, mas sabia que ela estava certa. Sendo um meio-
sangue, eu estaria sempre fazendo coisas que a assustavam. E,  medida que fosse ficando mais velho, 
os perigos simplesmente ficariam maiores. 
- Eu poderia ir para casa por algum tempo - sugeri. 
- No, no. Fique no acampamento. Treine. Faa o que tem de fazer. Mas voc vir para casa para o 
prximo ano escolar? 
- Sim,  claro. Ahn, se houver alguma escola que v me aceitar. 
- Ah, ns encontraremos alguma coisa, querido - suspirou minha me. - Algum lugar onde ainda no nos 
conheam. 
***** 
Quanto a Tyson, os campistas o trataram como heri. Eu teria ficado feliz em t-lo como companheiro de 
chal para sempre, mas naquela noite, quando estvamos sentados em uma duna de areia com vista para 
o estreito de Long Island, ele fez uma comunicao que me pegou totalmente de surpresa. 
- Papai se comunicou comigo em sonho na noite passada - disse ele. - Ele quer que eu o visite. 
Perguntei-me se ele estava brincando, mas Tyson no sabia como brincar. 
- Poseidon mandou uma mensagem em sonho para voc? 
Tyson assentiu. 
- Quer que eu v para baixo d'gua pelo resto do vero. Aprender a trabalhar nas forjas dos ciclopes. Ele 
chamou isso de es... es... 
- Estgio? 
- Sim. 
Deixei aquilo calar na minha mente. Admito que senti um pouco de cime. Poseidon nunca me convidara 
para baixo d'gua. Mas ento, pensei, Tyson estava indo? Simples assim? 
- Quando voc parte? - perguntei. 
- Agora. 

#
 - Agora. Tipo... agora, agora? 
- Agora. 
Olhei para as ondas no estreito de Long Island. A gua brilhava em vermelho ao pr-do-sol. 
- Estou feliz por voc, grando - consegui dizer. - Srio mesmo. 
- Difcil deixar meu novo irmo - disse ele com um tremor na voz. - Mas eu quero fazer coisas. Armas para 
o acampamento. Vocs vo precisar delas. 
Infelizmente, eu sabia que ele tinha razo. O Velocino no tinha resolvido todos os problemas do 
acampamento. Luke ainda estava l fora, reunindo um exrcito a bordo do Princesa Andrmeda. Cronos 
ainda estava se reconstituindo em seu caixo de ouro. No fim, acabaramos tendo de enfrent-lo. 
- Voc vai fazer as melhores armas que j existiram - disse a Tyson. Ergui meu relgio com orgulho. - 
Aposto que elas tambm vo mostrar a hora certa. 
Tyson deu uma fungada. 
- Irmos ajudam um ao outro. 
- Voc  meu irmo - disse eu. - No h dvidas a respeito disso. 
Ele me deu uma palmadinha nas costas to forte que quase me derrubou na duna de areia. Ento 
enxugou uma lgrima da bochecha e se levantou para partir. 
- Use bem o escudo. 
- Farei isso, grando. 
- Vai salvar sua vida algum dia. 
O modo como ele disse isso, to prtico, me fez pensar se aquele seu olho de ciclope podia enxergar o 
futuro. 
Ele desceu para a praia e assobiou. Arco-ris, o cavalo-marinho, saltou das ondas. Observei os dois 
partindo juntos para os domnios de Poseidon. 
Depois que eles se foram, baixei os olhos para meu novo relgio. Apertei o boto e o escudo se expandiu 
em espiral at seu tamanho pleno. Marteladas no bronze, havia figuras em estilo grego antigo, cenas das 
nossas aventuras naquele vero. L estvamos Annabeth exterminando um lestrigo jogador de 
queimado, eu lutando contra os touros de bronze na Colina Meio-Sangue Tyson cavalgando Arco-ris rumo 
ao Princesa Andrmeda, o Birmingham disparando seus canhes contra Carbdis. Passei a mo sobre uma 
figura de Tyson, lutando com a Hidra enquanto segurava alto uma caixa de donuts Monstro. 
No pude deixar de sentir tristeza. Sabia que Tyson se divertiria um bocado embaixo do oceano. Mas eu 
sentiria saudades de tudo em relao a ele - seu fascnio por cavalos, o modo como conseguia consertar 
carruagens de guerra ou amarrotar metal com as mos nuas, ou dar ns em caras malvados. Sentiria 
saudades at dos seus roncos de terremoto na cama ao lado a noite inteira. 
- Ei, Percy. 
Virei-me. 


#
Annabeth e Grover estavam em p no topo da duna. Acho que talvez eu tivesse um pouco de areia nos 
olhos, porque estava piscando muito. 
- Tyson... - falei. - Ele teve de... 
- Ns sabemos - disse Annabeth suavemente. - Quron nos contou. 
- Forjas dos ciclopes. - Grover estremeceu. - Ouvi dizer que a comida da cantina de l  horrvel! Tipo, 
enchilada, nem pensar! 
Annabeth estendeu a mo. 
- Venha, Cabea de Alga. Hora do jantar. 
Caminhamos de volta para o pavilho do refeitrio juntos, s ns trs, como nos velhos tempos. 
***** 
Houve uma tempestade naquela noite, mas ela se dividiu em volta do Acampamento Meio-Sangue como 
as tempestades costumam fazer. Raios relampejavam no horizonte, ondas golpeavam a praia, mas nem 
uma gota caa no nosso vale. Estvamos protegidos de novo, graas ao Velocino, encerrados em nossas 
fronteiras mgicas. 
Ainda assim, meus sonhos foram agitados. Ouvi Cronos me provocando, das profundezas do Trtaro: 
Polifemo est sentado cego em sua caverna, jovem heri, acreditando que obteve uma grande vitria. Ser que 
voc est menos iludido? O riso frio do tit encheu as trevas. 
Ento meu sonho mudou. Eu estava seguindo Tyson para o fundo do mar, entrando na corte de Poseidon. 
Era um salo radiante, cheio de luz azul, o piso pavimentado com prolas. E l, em um trono de coral, 
sentava-se meu pai, vestido como um simples pescador, de short caqui e uma camiseta alvejada de sol. 
Ergui os olhos para seu rosto curtido pelas intempries, seus olhos verdes profundos, e ele disse apenas: 
Prepare-se. 
Acordei assustado. 
- Algum batia com fora na porta. Grover irrompeu sem esperar permisso. 
- Percy! - ele gaguejou. - Annabeth... na colina... ela... 
O olhar dele me dizia que alguma coisa estava terrivelmente errada. Annabeth estivera de guarda naquela 
noite, protegendo o Velocino. Se algo tivesse acontecido... 
Arranquei as cobertas, o sangue como gelo nas minhas veias. Enfiei algumas roupas enquanto Grover 
tentava formar uma frase completa, mas ele estava atordoado demais, sem flego demais. 
- Ela est l cada... simplesmente l cada... 
Corri para fora e disparei pelo ptio central, Grover logo atrs de mim. Rompia a aurora, mas o 
acampamento inteiro parecia agitado. A notcia estava se espalhando. Algo gigantesco acontecera. Alguns 
campistas j estavam rumando para a colina, stiros, ninfas e heris em uma estranha mistura de 
armaduras e pijamas. 
Ouvi o tropel de cascos de cavalo, e Quron chegou galopando atrs de ns, com uma expresso terrvel. 
-  verdade? - perguntou a Grover. 
Grover s conseguiu balanar a cabea, a expresso confusa. 

#
 Tentei perguntar to que estava acontecendo, mas Quron me agarrou pelo brao e, sem esforo, me ergueu 
para suas costas. Juntos, subimos a Colina Meio-Sangue, onde uma pequena multido comeara a se 
reunir. 
Esperei no encontrar o Velocino no pinheiro, mas ele ainda estava l, brilhando  primeira luz da 
madrugada. A tempestade havia se interrompido e o cu estava vermelho-sangue. 
- Maldito seja o senhor tit - disse Quron. - Ele nos enganou outra vez, deu a si mesmo uma nova chance 
de controlar a profecia. 
O que voc quer dizer? - perguntei. 
- O Velocino - disse ele. - O Velocino fez seu trabalho bem demais. 
Galopamos em frente, todo o mundo abrindo caminho para ns. Ali, na base da rvore, uma menina jazia 
inconsciente. Outra menina, de armadura grega, estava ajoelhada ao lado dela. 
O sangue retumbava em meus ouvidos. Eu no conseguia pensar direito. Annabeth tinha sido atacada? 
Mas por que o Velocino ainda estava l? 
A prpria rvore parecia perfeitamente bem, ntegra e saudvel, permeada pela essncia do Velocino de 
Ouro. 
- Ele curou a rvore - disse Quron, com a voz spera. - E o veneno no foi a nica coisa expurgada. 
Ento percebi que Annabeth no era a menina cada no cho. Era a de armadura, ajoelhada ao lado da 
menina inconsciente. Quando Annabeth nos viu, correu para Quron. 
- Ela... ela... assim, de repente l... 
Lgrimas corriam de seus olhos, mas eu ainda no entendia. Estava apavorado demais para ver sentido 
naquilo tudo. Pulei das costas de Quron e corri na direo da menina inconsciente. 
- Percy, esperei - disse Quron. 


Ajoelhei-me ao lado dela. Tinha cabelo preto curto e sardas no nariz. Tinha a constituio de uma 
corredora de longa distncia, flexvel e forte, e usava umas roupas que eram algo entre o punk e o gtico - 
camiseta preta, jeans pretos esfarrapados e uma jaqueta de couro com buttons de uma poro de bandas 
de que eu nunca ouvira falar. 
No era uma campista. No a reconheci de nenhum dos chals. E, no entanto, estava com a mais 
estranha sensao de que j a tinha visto antes... 
-  verdade - disse Grover, esbaforido por causa da corrida colina acima. - No posso acreditar... 
Ningum mais se aproximou da menina. 
Pus a mo na testa dela. Sua pele estava fria, mas as pontas dos meus dedos formigaram como se 
estivessem queimando. 
- Ela precisa de nctar e ambrosia - disse eu. 
Era claramente uma meio-sangue, fosse ou no uma campista. Pude sentir isso s de toc-la. No 
entendia por que todos pareciam to apavorados. 
Peguei-a pelos ombros e a coloquei sentada, com a cabea apoiada em meu ombro. 

#
 - Venham! - gritei para os outros. - O que h de errado com vocs? Vamos lev-la para a Casa Grande. 
Ningum se mexeu, nem mesmo Quron. Estavam todos atordoados demais. 
Ento a menina tomou flego, vacilante. Ela tossiu e abriu os olhos. 
Suas ris eram surpreendentemente azuis - um azul eltrico. 
A menina olhou para mim perplexa, tremendo e de olhos arregalados. 
- Quem... 
- Eu sou Percy - disse eu. - Voc est em segurana agora. 
- O sonho mais estranho... 
- Est tudo bem. 
- Morrendo. 
- No - assegurei-lhe. - Voc est bem. Qual  seu nome? 
Foi quando eu soube. Antes mesmo de ela dizer. 
Os olhos azuis da menina se fixaram nos meus, e entendi o porqu da misso do Velocino de Ouro. O 
envenenamento da rvore. Tudo. Cronos fizera aquilo para colocar mais uma pea de xadrez em jogo - 
mais uma chance de controlar a profecia. 
At Quron, Annabeth e Grover, que deveriam estar celebrando aquele momento, estavam chocados 
demais, pensando no que aquilo poderia significar para o futuro. E eu amparava uma pessoa destinada a 
ser minha melhor amiga ou, possivelmente, minha pior inimiga. 
- Eu sou Thalia - disse a menina. - Filha de Zeus. 


#




#
